
Parece um tanto fúnebre, não é. Quando a morte começou a bater à porta de um grupo seleto de empresários de comunicação integrado por nomes como Abdo Aref Kudri, Roberto Barrozo, Edmundo Lemanski e Francisco Cunha Pereira, previu-se que Paulo Pimentel, então dono da TV Iguaçu e dos jornais O Estado do Paraná e Tribuna do Paraná, seria o próximo.
Pois as pitonisas, Graças, enganaram-se. Aos 88 anos, próximo dos 89 (ele nasceu em 7 de agosto de 1928), Pimentel continua firme, forte e avassaladoramente lúcido. Poucos sabem que se graduou em Direito na prestigiada Universidade de São Paulo, poucos sabem que se tornou um self made man e que, unido a Ney Braga na campanha ao Palácio Iguaçu, seria nomeado secretário de Agricultura do Paraná e depois, aos 37 anos, escolhido para suceder o governador, já sob o regime militar.
ALAVANCA NOTICIOSA
O império de comunicação de Pimentel é anterior ao seu governo. Ele comprou o O Estado do Paraná e a Tribuna do Paraná, ambos fundados, respectivamente, em 1951 e 1956, e adquiridos em 1962. Sua intenção era estratégica, não é segredo. Ele pretendia usar os veículos de comunicação para alavancar sua campanha ao governo. Mas tornaram-se mais do que isso. Com uma equipe liderada por João Féder, os jornais ampliaram a cobertura noticiosa, imprimiram agilidade às reportagens e acumularam um imenso e invejável acervo fotográfico cuidadosamente catalogado.
UM PRESENTE
A história das emissoras da TV Iguaçu viria depois. Os registros dão conta que Pimentel filiou-se à Arena, durante seu mandato como governador, e de presente ganhou do regime militar a concessão de dois canais: além da Iguaçu, a Tibagi, de Apucarana. Pimentel também se tornou proprietário da Rádio Guairacá, cujo slogan era anunciado por um locutor de voz grave e empostada: “A voz nativa da terra dos pinheirais”.
A QUEDA
As emissoras de TV que, no início, repetiam a programação da Record, então a emissora de maior sucesso no país, cedo passaram a transmitir o sinal da Globo. Em 1975, a cizânia política abateu-se sobre Pimentel. Tornado inimigo de Ney Braga e de Jaime Canet Jr., ele fez renhida oposição a ambos nas páginas de seus jornais e em editoriais na TV Iguaçu, onde gravava participações. A vingança foi a perda do sinal da Globo, insuflada por políticos locais e sedimentada pelo então presidente Ernesto Geisel.
IMPRIMA-SE
Pimentel não se fez ruir. Resistiu até onde pôde. Foi deputado federal Constituinte e, tempos depois, buscou uma vaga ao Senado, já no fim dos anos 90. Que não se interponha uma vírgula no que vai dito: a política e o jornalismo sempre foram parentes próximos no Paraná. Pimentel foi fiel a essa prática até o momento em que a notícia prevaleceu. Ou ela imprimia-se ou o jornal perecia. Pimentel escolheu imprimir.
A CRISE DOS JORNAIS
Com a crise do papel se avizinhando e a Gazeta do Povo dando adeus à sua versão impressa, pergunta-se o que o empresário Paulo Pimentel acha de tudo isso. Ele viu O Estado do Paraná e a Tribuna acabarem vendidos para o concorrente sem poder reagir. Viu também a TV Iguaçu escapar-lhe pelas mãos na negociação com o apresentador Carlos Massa, o Ratinho. Em 1º de setembro de 2007, o então colunista político do “Jornal do Estado”, Marcus Vinicius Gomes, registrou a negociação. Dois dias depois, recebeu uma ligação. Era Paulo Pimentel cobrando-lhe explicações e chamando-o de “jornalista de segunda categoria”. Gomes não pôde saborear o que era um furo jornalístico e Pimentel o fez ver isso. Claro que o empresário sabia que era tudo verdade, mas não queria ver as tratativas interrompidas. E se alguém tinha que dar a notícia seria seus próprios jornais.
PERSONAGEM ARREDIO
Paulo Pimentel é um personagem arredio do livro “Encontros do Araguaia” que este colunista organiza. Ouvir o seu depoimento é essencial para que a história do jornalismo paranaense, com todos seus percalços e a história da política paranaense, ganhe a devida dimensão. Esperemos que, lendo estas mal traçadas linhas, ele se sensibilize.
