No meio desta tarde de 13, o Eliseu Tisatto e o Odailson Spada me informam que Antonio Claret de Rezende morreu

A minha certeza é de que a cidade perdeu um de seus últimos cavalheiros, um “gentleman” na acepção da palavra; eu, um amigo, cultivado há anos, de pouca convivência comum, mas marcada por dezenas de anos de laços sólidos, especialmente em torno de ideais e objetivos de trabalho bem definidos. Tínhamos laços fortes, ampliados pela exemplar Tereza, de quem me tornei amigo, a qual gerou, com Claret, uma família exemplar.
Essa família, que não se replicará com facilidade, foi montada a partir do concreto-simbólico da discrição mineira e da sobriedade nipônica, marcas com as quais sempre os identifiquei.
Eles fizeram o par perfeito, irretocável retrato de a quanto pode ir o ser humano quando encontra sua outra metade.
Foi sob essa ótica que encontrei Claret e Tereza pela última vez, em 25 de junho, quando eles foram me cumprimentar pelo lançamento do volume 10 do livro Vozes do Paraná. Tivemos conversa rápida, havia que atender a muitos. Eles entenderam, sem protocolos, coisa de amigos.
O que me importou foi a presença do casal. O bom papo ficaria para o “mais adiante”. O depois acabou não acontecendo.
OLHAR PROFUNDO
Boa parte de grandes momentos de Claret – assim nós, os jornalistas, nos habituamos a chamá-lo -, eu registrei em meu livro Vozes do Paraná, Retratos de Paranaenses.
No entanto, nunca fiquei satisfeito com o perfil que tracei desse mineiro paradigmático, profissional da comunicação iniciado na profissão em tempos áureos de um jornalismo quase heroico, como o então praticado na antiga Folha de Londrina, jornal que foi uma das melhores bússolas do Norte do Paraná sob o comando de Milanês.
O olhar profundo de Claret, atrás das grossas lentes, parecia remetê-lo às Alterosas, às serras sem fim, às prosas acolhidas e ampliadas nos serões familiares, ao abrigo de casarões históricos e ruas cobertas de “pés de moleque”, daquela gente que tem na alma a sabedoria do silêncio e o compromisso de suas convicções.
NOME DE SANTO
As certezas de Claret estavam marcadas a partir do nome, homenagem a Santo Antonio Maria Claret, dos padres claretianos, a congregação católica a que o bom amigo pertenceu, por anos a fio, a caminho do sacerdócio.
Publiquei foto de Claret de batina, no seminário, como aluno de Filosofia, da qual depois se despediria para viver o matrimônio, outra dimensão do seu catolicismo seguro e fonte de vida.
Como só acontece quando prezamos a alma que parte, fico entre perplexo e inquieto a me perguntar porque não extrai um pouco mais daquela sabedoria de um Brasil que vai desaparecendo, tragado pelas tecnologias da web e assemelhadas. E que vivia exuberante, discreta ao mesmo tempo, mas absolutamente fértil no cavalheiro Antonio Claret de Rezende.
