terça-feira, 24 fevereiro, 2026
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Álvaro Borges: a inquietação criativa e sofrida

Álvaro Borges
Álvaro Borges

Do volume 7 de meu livro Vozes do Paraná, Retratos de Paranaenses, que lançarei dia 10 de setembro, retiro trechos do perfil do artista plástico Álvaro Borges. Leia a seguir:

“Álvaro Borges foi, mais que o artista plástico consagrado, um homem bom, afável, alegre, geralmente bem-humorado (que ria das piadas que repetia à exaustão) e amigo dos seus amigos. Mas também vivia uma inquietação criativa, às vezes sofrida.

Sentia uma necessidade, e empreendia tentativas para expressar uma coisa íntima na área artística, que não encontrava espaço no mercado publicitário. No começo, fazia algumas coisas depois do percurso de trabalho.

Para o filho Rogério, que colaborou com depoimentos para este perfil, duas realidades conviviam e podiam ser percebidas em Álvaro. Uma expressão bonita, vinculada à beleza (Belas Artes) e a sombra disso, na forma de uma angústia – às vezes criava quase em sofrimento, numa busca dolorida mesmo. Na arte se enfrenta a frustação de tentar, e nem sempre acertar, a expressão dos seus anseios. Álvaro era alguém que parte do tempo estava inquieto, inconformado. Quando encontrava uma nova linguagem vinha o momento da luz, do encontro. E logo chegava outro momento de luta e enfrentamento. Aquilo que ele queria e podia descobrir e aprofundar, nem sempre era aquilo que o mercado podia absorver.

2 – O INÍCIO

Desenhava em livros das décadas de 1930 e 1940, que tinham as guardas cheias de desenhos de celebridades e paisagens que fazia durante as aulas. Era autodidata, mas isso não o impediu de frequentar o ateliê de gravura do Museu de Arte Contemporânea (MAC).

“Tirou vinho das pedras”, afirma o filho Rogério, avaliando o percurso desse homem de origem humilde, que construiu uma história de dignidade e sucesso.

3 – ARTE NA FAMÍLIA

Um irmão de sua avó era maestro, talvez daí tenha vindo o gosto pela música. Gostava de cantar e tocava violão e bandolim.

Um antepassado, Gustavo Rumblesperger Bueno Borges, nascido próximo de Paris, era aquarelista e retratou plantas e paisagens da Serra do Mar no período em que ali trabalhou. Era engenheiro. Também desenvolveu um trabalho de arqueologia, na Patagônia, quando recolheu diversas múmias que hoje são parte do acervo do Museu de História Natural do Rio de Janeiro. Com o casamento com Ondina, em 1950, na igreja de Uvaranas, em Ponta Grossa, constituiu uma família com três filhos e seis netos – dois de Rogério e quatro de Álvaro Filho – e dois bisnetos. A arte prossegue nas veias e nas obras dos Borges. Seus três filhos trilham o caminho da arte.

4 – TÊMPERA OU ÓLEO?

Essa era a pergunta que se fazia, e que fazia àqueles com quem convivia. Gostava dos dois.

“Na década de 1970, dedica-se principalmente à pintura acrílica. Embora as cores cresçam de importância, o grafismo persiste em muitas composições. Há uma acentuada síntese e um clima meditativo que o aproximam da arte metafísica de Morandi. Nas décadas de 1980 e 1990, sua última fase metafísica de Morandi. Nas décadas de 1980 e 1990, sua última fase, predomina a técnica de vinil encerado”, registrou a professora Adalice Araújo, no perfil que publicou na Enciclopédia da Arte do Paraná.

Curtia, com entusiasmo, a área da imagem. Ele desenhava, pintava, fazia gravuras e também fotografava bem e tinha um bom equipamento. Ele curtia muito, principalmente a ilustração norte-americana (Rockwell e Al Parker). Talvez o maior presente que ganhou do pai, afirma o filho Rogério, foi o contato com esse mundo da imagem; teve acesso aos armários do ateliê do pai, conhecendo os “monstros” como Robert Fawcett, ilustrador dos anos 1960, e Robert M. Cunningham, mais recente.

Na maturidade, nos últimos 10 anos de vida, Álvaro teve um crescimento de consciência e de informação, o que o levou a melhorar a qualidade de sua produção, na contramão do gosto dos compradores.

Um exemplo disso foi o que aconteceu quando ele foi capa da Lista Telefônica, que na época tinha uma circulação absurda, bem maior que a soma das tiragens de todos os outros veículos. Foi enorme a repercussão, ao mesmo tempo em que gerou a demanda “por um quadro igual àquele da capa”…

5 – COMÉRCIO DIFÍCIL

Álvaro já vivia o conflito de perceber-se com uma arte que se tornava melhor e mais difícil de comercializar.

Aumentava a indignação e a disposição de não produzir “arte de encomenda”. Essa briga do que é comercial, o que não é, acaba sendo um dilema que ganha dimensões e que pode mesmo chegar ao preconceito. O conflito entre a austeridade da espiritualidade e a luxúria do glamour dos vernissages, da badalação e da bajulação.

A espiritualidade permeia a obra de Álvaro, mesmo quando ela não é explicitada. Ele fez várias faces de Cristo, pintou inúmeras vezes a figura de São Francisco de Assis.

Pintou muitos peixes e ao mesmo tempo visitou suas atividades de ilustrador e de artista gráfico, elaborando capas de livros e discos espiritualistas.

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