domingo, 28 junho, 2026
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ABDO ABAGE, “MEU TIPO INESQUECÍVEL”, DE TODO E SEMPRE

Abdo e Ironita Abage: referenciais em Curitiba
Abdo e Ironita Abage: referenciais em Curitiba

Minha infância e adolescência dividiram-se entre leituras variadas, de muitas dimensões: lia Stekel, Adler, Jung, o monge Thomas de Kempsi, Thomas Merton, Gilbert Cesbron, José Lins do Rego, Guy de Maupassant, Sommerseth Maugham, Veríssimo, Machado, algumas fábulas de Esopo, e também, a leitura “obrigatória” das boas casas de família daqueles dias, a Seleções do Reader’s Digest.

Sim, aquela revista mensal, popular, pequena no tamanho, com “mentalidade americanófila”, me fez bem. Não tenho vergonha em confessar isso, fato nem sempre admitido por ex-leitores da publicação, gente hoje com pretensões intelectuais.

PERFIS DE RARIDADES

Com a revista Seleções criei gosto especial pelo registro de perfis de personalidades, homens e mulheres singulares que encontrava na seção “Meu Tipo Inesquecível”. E com ela aprendi a destrinchar muitas sutilezas da alma humana, aqueles fiapos de “atma” imperceptíveis à primeira vista.

PRIMEIROS CONTATOS

Bem preparado, desta forma, desde a infância, para identificar tipos humanos raros, já nos primeiros contatos com ele, assim aconteceu com Abdo Dib Abage.

Foi nos 1960/70. A partir do primeiro contato, propiciado por Dino Almeida, tive uma certeza. A de que o então jovem engenheiro civil – que se casaria com uma amiga minha, ex-colega de Faculdade, a personalíssima Ironita Abage – era homem de dimensão rara.

A BOA ÁRVORE

De saída identifiquei a árvore que explicava aquele fruto tão exemplar: a família Abage, cujo pai, Nassib, fora cônsul paradigmático, representante da República Síria em Curitiba. Fora o por muitos anos grande conselheiro e líder da comunidade de sírios cristãos que sempre tiveram muita importância na sociedade curitibana.

ESCOLA DIPLOMÁTICA

Se tivesse cursado uma escola formal de diplomacia e relações exteriores, Abdo Abage não seria melhor do que foi. Culto, sem exageros de demonstrações desnecessárias dos saberes que dominava, Abdo falava no reto tom, passando a certeza ao interlocutor que ele merecia toda a atenção do mundo. O que, em algumas vezes, era apenas fruto das delicadezas desse ser humano irrepetível.

HUMANITÁRIO, GENTIL

Não vou dizer que Abdo Dib Abage tinha uma “educação britânica”, como é comum quando se quer nomear hipereducados.

Ele era assim, dócil, atento, generoso, discreto, incapaz de qualquer ofensa ao próximo, humanitário na melhor acepção da palavra.

Até mesmo nas vezes em que fui obrigado a tratar com ele de temas melindrosos, como as citadas ações ditatoriais na Síria, ele não saia do sério. Certa vez, por exemplo, o máximo que consegui dele sobre o tema foi: “Essa guerra esconde velha encrenca entre russos e americanos”.

REFUGIADOS

Estados Unidos e Rússia estariam por detrás daquele morticínio que o fez enfrentar, em Curitiba, uma nova realidade: a chegada de alguns refugiados e imigrantes sírios, em busca de abrigo, escola, trabalho.

Por um tempo, Abdo presidiu, anos 1980, o sindicato dos engenheiros de Curitiba, escolha que foi fruto sobretudo do livre trânsito que ele tinha na categoria profissional.

Acredito que foi, no entanto, quando ampliou o universo de empresas que mantinha com familiares – estabelecendo suas empresas exclusivas – que ele mais se realizou. Hoje em dia poderia ser classificado, sem favor, como um “tycoon”, um magnata do empresariado curitibano.

IRONITA E FILHOS

Mas nada o tirava do foco de suas atenções prioritárias: Ironita, os filhos e netos, a comunidade de sírios e seus descendentes aos quais representou como cônsul por 30 anos. Nisso, como cônsul honorário, foi dono de reconhecimento unânime. Ninguém conseguia se indispor com Abdo, que colocava dinheiro do próprio bolso para atender às necessidades do Consulado da Síria.

No exercício consular, era o hábil negociador, apoiando iniciativas comerciais e industriais sírias no Paraná.

A FÉ ORTODOXA

Das poucas vezes em que abordamos o papel da Igreja Antioquiana (Ortodoxa Árabe), paróquia de São Jorge, Rua Brigadeiro Franco, ele não escondeu: nunca perdia a missa dominical, obrigação religiosa que, no fundo, também, a par do DNA herdado, pode explicar a força interior e o refinamento desse cidadão raro, agora morto, e que Curitiba está a prantear.

A propósito da Igreja Antioquiana, recordo que certa vez, quando Abdo e Ironita recepcionaram com jantar em sua mansão ao arcebispo da comunidade vindo de São Paulo, ele me disse, orgulhoso: “Aroldo, a Igreja de Antioquia está em Atos Apóstolos…”

Cavalheiro que jamais melindraria o próximo, não fez ao amigo católico a pergunta que não seria impertinência: “qual outra está nas páginas da Bíblia?”

Assim era Abdo Dib Abage, a quem me foi benção conhecer e privar de sua amizade.

Igreja Antioquiana de São Jorge, em Curitiba
Igreja Antioquiana de São Jorge, em Curitiba
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