terça-feira, 10 março, 2026
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A Noiva! faz releitura ousada e caótica de Frankenstein

Por Eliaquim Junior – Um caos de ideias – para o bem e para o mal. A diretora Maggie Gyllenhaal mira em tudo e não descarta nada em A Noiva! O resultado é uma mistura que vai de Frankenstein, de Mary Shelley, a Bonnie e Clyde (o clássico dos anos 1960), passando por um pouco da anarquia de Coringa e qualquer outra referência que passou pela cabeça da diretora no caminho.

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Logo no começo, o filme deixa claro que a abordagem do romance de Shelley será tudo, menos convencional. A própria autora “entra” no corpo da acompanhante de luxo Ida, vivida por Jessie Buckley, como se finalmente pudesse experimentar tudo aquilo que a vida do século XIX não permitiu. Enquanto isso, a criatura interpretada por Christian Bale pede a uma cientista que “arrume” uma mulher para ele, uma noiva, porque passar a eternidade sozinho já deixou de ser divertido há algum tempo.

Não demora muito para Ida e Frank se encontrarem, e daí nasce uma história de amor caótica construída sobre uma pilha generosa de gêneros e subgêneros cinematográficos. Tem violência gore, números musicais, perseguições e, provavelmente, mais algumas ideias que ninguém teve coragem de cortar.

Lembram quando, em 2011, Zack Snyder lançou Sucker Punch, aquela colagem visualmente exuberante que passeava por guerra, ficção científica, fantasia e filmes de samurai? A Noiva! parece seguir uma lógica parecida de convergência de gêneros e excursões cinematográficas.

Jessie Buckley e Christian Bale brilham em releitura ousada e caótica de Frankenstein

Gyllenhaal foi corajosa e ousada – o filme é dela e ela faz o que ela quer. Justíssimo. Ao mesmo tempo, essa liberdade transforma a obra numa certa “salada”, com muitos temas e subtramas sendo arremessados na tela sem tempo suficiente para amadurecer. Nesse quesito, curiosamente, Snyder acabou sendo um pouco mais organizado.

Ainda assim, a nossa empatia pelo casal é crescente e um desejo por um happy end nos segura até o final. A ambientação dos anos 30 é hipnotizante, a direção de arte é um deslumbre e  Buckley e Bale brilham em cada frame.

Buckley está elétrica, com uma entrega física quase assustadora – lembrando até sua energia na comédia Pequenas Cartas Obscenas, em que interpreta uma vizinha desbocada e extrovertida. Já Bale – meu Batman favorito – confirma mais uma vez a velha suspeita: qualquer personagem que ele aceite interpretar provavelmente será feito melhor por ele do que por qualquer outro ator. Seu Frankenstein é engraçado, sensível e sincero.

A Noiva! é assim, muito intenso, barulhento, too much, mas convenhamos, entre pecar pelo excesso ou pela apatia, o cinema costuma ser mais interessante quando escolhe o primeiro.

*Eliaquim Junior é cinéfilo e viciado em café (a ordem é discutível, o vício não). Escreve sobre filmes para justificar o tempo gasto assistindo a eles – e para reclamar com embasamento. Viu 125 filmes em 2025 e segue insatisfeito. Fã assumido de Spielberg e Hitchcock. Jornalista formado, e atua com edição e revisão de textos, mantendo vírgulas no lugar e expectativas altas no cinema.

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