Por Eliaquim Junior – Timothée Chalamet corre desesperadamente atrás do seu sonho americano no caótico Marty Supreme, indicado a 9 Oscars – porque, ao que parece, Hollywood decidiu que ele não pode passar um ano sequer sem estar em todas as premiações possíveis.
Falando em Oscar, as chances de Chalamet levar a estatueta de Melhor Ator são altas. Não tem minha torcida — nem minha simpatia, confesso — mas talento ele tem. Só talvez precise urgentemente de férias. Férias de imagem. Férias de exposição. Férias de existir em todo trailer da temporada. Deem um descanso para esse menino, please. Ainda assim, como o mesatenista Marty Mauser, ele está entregue. Corpo, alma e suor trapaceiro. E o mais impressionante: ele finalmente desaparece no personagem.
Marty Supreme não é exatamente um filme sobre tênis de mesa. É sobre ambição. Sobre um jovem que quer ser o melhor dos Estados Unidos, o melhor do mundo, o melhor da galáxia se deixarem. O problema é que, no caminho, ele revela que seu maior adversário não é o oponente do outro lado da mesa – é ele mesmo. Sua babaquice ambiciosa. Sua picaretagem quase profissional. Marty passa a perna em todo mundo com a agilidade de quem já treinou muito para isso.
O ritmo é frenético. O caos surge do nada. Marty apronta sem aviso prévio. Por pouco ele não se torna um protagonista insuportável — e talvez seja essa a grande ousadia do filme. Se ele não liga para ninguém além dele mesmo, por que deveríamos? A resposta vem no clímax: uma partida intensa de pingue-pongue que, contra todas as probabilidades, nos faz torcer por ele. Sim, somos manipulados. E aceitamos.
Há momentos marcantes, mas o mais memorável sequer envolve Marty. É a “cena do mel”. Um delírio visual que parece ter escapado de outro filme, mas que permanece na retina por horas. Não faz muito sentido? Talvez. Mas impacto raramente pede coerência.
A trilha sonora oitentista embala a narrativa ambientada nos anos 50 como se dissesse: “coerência histórica é para os fracos”. E quando “Forever Young” toca, funciona. Porque, no fim das contas, o filme tem essa energia elétrica e envolvente – muito mais anos 80 do que 50. E Marty corre. Corre muito. Corre como se estivesse fugindo não dos adversários, mas do próprio “sonho” que criou.
*Eliaquim Junior é cinéfilo e viciado em café (a ordem é discutível, o vício não). Escreve sobre filmes para justificar o tempo gasto assistindo a eles – e para reclamar com embasamento. Viu 125 filmes em 2025 e segue insatisfeito. Fã assumido de Spielberg e Hitchcock. Jornalista formado, e atua com edição e revisão de textos, mantendo vírgulas no lugar e expectativas altas no cinema.
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