
“Os eleitores precisam perceber diferenças entre as opções eleitorais. As eleições só têm sentido quando oferecem uma escolha.
Muitas vezes o que acontece com a corrupção no Brasil é que os eleitores acham que não tem escolha, que todos são corruptos”.
Especialista em comportamento do eleitor, corrupção e democracia, a pesquisadora Nara Pavão, do Center for the Study of Democratic Institutions da Vanderbilt University (EUA), aponta este importante fator comportamental como uma das justificativas ao alto número de abstenções, votos brancos e nulos registrados no primeiro turno das eleições municipais, no último domingo.
Nara ressalta, porém, que o panorama sistêmico de corrupção existe, mas que não se pode “tirar a culpa do candidato”, quando faz uma opção pessoal e partidária em aderir ao sistema corrupto. “É um atalho cognitivo que o eleitor usa, em meio ao noticiário extremamente negativo: quando é difícil distinguir entre os candidatos, acaba generalizando e fazendo sua escolha baseado em outros critérios, ou até relativizando os tipos de corrupção”, pontua a pesquisadora.
2 – SÉRIE DE ENTREVISTAS
A entrevista com Nara Pavão é a primeira de uma série de bate-papos gravados pelo Instituto Atuação, em parceria com o Canal Um Brasil, durante a 2ª Semana da Democracia, que serão postados semanalmente, todas as terças-feiras, no canal da Fecomércio-SP no Youtube. A íntegra da entrevista com Nara Pavão pode ser acessada pelo http://bit.ly/2dbGrQG.
A seguir, os principais temas abordados pela especialista.
3 – CORRUPÇÃO X DEMOCRACIA
“A corrupção desafia a democracia, porque temos essa ideia de que as eleições podem combater políticos corruptos, de “jogar o lixo fora” a cada quatro anos. Na teoria, quanto mais democrático, menos corrupto um país seria. Infelizmente na prática isso não acontece. E não só no Brasil, isso se repete nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Itália e até na Suécia, onde os índices de corrupção são baixos. A relação acaba sendo muito mais complexa do que a teoria democrática consegue prever, e do que a gente espera”.
4 – TIPOS DE CORRUPÇÃO
“As pesquisas mostram que os eleitores diferenciam os tipos de corrupção em vários critérios, como aquele tipo de corrupção particular vai afetá-los pessoalmente ou não. Um desvio na merenda escolar, por exemplo, pode ser visto como “mais grave” do que um desvio milionário numa empresa de grande porte. Ambos são igualmente condenáveis, mas há essa diferença na percepção”.
5 – TOLERÂNCIA E INDIGNAÇÃO
“Apesar de a minha pesquisa chegar a uma conclusão negativa, de que as eleições não são tão eficientes para combater a corrupção, é preciso pensar em outros mecanismos de accountability horizontal, por exemplo. O que percebi nos últimos 10 anos, com dados de pesquisas de opinião, é que a percepção da corrupção aumentou muito, de 2005 para cá. Ao mesmo tempo, a tolerância aumentou, o que não é uma coisa intuitiva: a versão oficial é que o brasileiro está se indignando e se rebelando mais. A pesquisa diz que não, que o brasileiro está ficando mais tolerante. Mas o lado positivo é que a pesquisa mostra que as atitudes podem ser mudadas”.
“Do mesmo jeito que o aumento da corrupção gera essa expectativa muito baixa com relação ao perfil do candidato de resolver o problema, uma diminuição da percepção pode levar ao contrário: se você percebe a corrupção, mas vê que os políticos estão sendo punidos, então pode reduzir a tolerância. É um quadro que tem saída”.
“O eleitor brasileiro precisa de informação, mas de informação positiva também, de bons exemplos e iniciativas a serem seguidos. O que temos hoje é um volume muito grande de informações negativas que não se consegue processar, então os atalhos cognitivos são usados, como achar que ‘todo político é igual, todo político é corrupto’”.
