Geólogo indica estado de abandono das estradas por falta de monitoramento e planejamento
Paraná Portal
Defensor do sistema de rodovias concessionadas – pedágio – o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná – Faep – empresário Ágide Meneguette, afirma que os transtornos ocorridos na BR-277, com queda de pedra, deslizamentos de terras e interrupção de meia pista, poderiam ter sido evitados.
O presidente do Sistema Faep, entidade que responde por 13% (R$ 66,2 bilhões) do PIB do Paraná que atingiu R$ 487,93 bilhões em 2022, observa que os impactos também poderiam ter sido minimizados se houvesse um serviço de monitoramento geológico, análise dos riscos e planejamento.
Sua posição é sustentada por uma análise geológica contratada pela Faep, onde aponta que todos esses problemas poderiam ter sido evitados ou saneados com urgência se não tivesse ocorrido o fim da concessão dos pedágios.
Meneguette defende o pedágio, por entender que se trata do futuro, não só do Brasil, como do mundo, onde as rodovias já são administradas pela iniciativa privada. Cita como exemplo o Estado de São Paulo, onde a maioria dessas vias são pedagiadas e de excelente qualidade.
Lembrando ensinamentos do ex-ministro Delfim Netto, quando disse, em uma de suas palestras, que “a economia brasileira tem sua saída pelos portos e aeroportos”, o líder do agronegócio paranaense pontua que é preciso um pedágio no Paraná que priorize a realização de obras, tarifas baixas e transparência nos contratos.
A análise de geologia foi contratada pela FAEP junto ao geólogo Elbio Pellenz, especialista em Geologia da Engenharia e que integrou o Serviço Geológico do Paraná (Mineropar). O profissional também relaciona os episódios com o fim da concessão das rodovias paranaenses, que ocasionou a degradação da infraestrutura em função do abandono por parte do governo estadual.
Em sua análise, Pellenz ressalta que o monitoramento contínuo com inspeções rotineiras e o uso de instrumentos como telemetria contínua e sistema de alarmes podem eliminar ou, ao menos, minimizar as consequências danosas de curto, médio e longo prazos. Além de possibilitar a identificação de possíveis incidentes geológicos, o monitoramento também é ponto-chave para que se trace planos de emergências, reduzindo impactos – como tempo de interdição.
Na BR-277, na Serra do Mar, por exemplo, o geólogo aponta que todas as obras escavadas com mais de três metros de altura têm potencial para provocar transtornos ao tráfego. Esse risco, no entanto, pode ser “tratado do dia para a noite” com medidas simples, como pista lavada.
Pellenz, no entanto, identificou obras de maiores proporções (como as realizadas nos quilômetros 34 e 39), que estão situadas “dentro” de feições geomorfológicas potencialmente instáveis – que se movimentam até seis centímetros por ano. O geólogo acrescenta que o trecho entre os quilômetros 30 e 50 se encontra em áreas com taludes potencialmente instáveis.
“Alguns movimentos e suas consequências podem ser acompanhados por simples inspeções visuais rotineiras (semanais, quinzenais) e outros, potencialmente mais ruinosos, têm que ser obrigatoriamente instrumentados. É impossível prever qual talude vai escorregar primeiro sem o resultado do monitoramento. Tem que ser um trabalho permanente, cotidiano e comprometido com o resultado pretendido”, aponta o geólogo. “É inaceitável que o poder público não tivesse mantido nem uma patrulha mecanizada básica nas proximidades do trecho da Serra [do Mar]”, acrescenta.
TÉRMINO DAS CONCESSÕES

“Um ano de abandono, houve degradação do revestimento asfáltico, da sinalização horizontal e vertical, da drenagem e dos sistemas de manutenção rotineira e preventiva. Isso tudo, muito provavelmente, resultou na queda de blocos. O desdobramento seria outro se o acompanhamento da manutenção rotineira tivesse sido preservado”, destaca Pellenz. “O despreparo e a falta de atitude dos responsáveis imediatos pela rodovia demonstraram a verdade do estado de abandono de um inestimável bem público”, completa.
Em relação à BR-376, a crítica do geólogo diz respeito aos aditivos de contrato e à falta de transparência em relação ao modelo de concessão. “Temos as imagens de câmeras da BR-376? Onde estão? Onde estão localizados os pluviômetros? Quais os gatilhos pluviométricos para alertas e interdição preventiva?”, questiona.
FAEP APONTOU RISCOS
Em agosto de 2021, a FAEP já tinha entregue ao G7 – grupo que reúne entidades do setor produtivo – um documento em que alertava sobre os riscos da interrupção dos serviços prestados pelas concessionárias das rodovias do Anel de Integração. Na ocasião, a FAEP se posicionou contra o plano do governo do Paraná de abrir as cancelas de pedágio e defendeu que fossem firmados aditivos de contrato que garantissem a continuidade das concessões até nova licitação.
“O Estado não tem condições de substituir as concessionárias, por mais que, teimosamente, repitam o contrário”, consta do documento da FAEP. “Desta forma, vemos como necessários aditamentos nos atuais contratos por algum tempo, com redução substancial das tarifas […] apenas para a manutenção das vias e atendimento aos serviços que hoje se prestam, para evitar o pior. Isto não significará um recuo do governo do Estado em relação a sua postura, mas um ato de responsabilidade”.