Para o leitor deste espaço, uma amostra de um dos perfis que comporão o volume 8 do meu livro Vozes do Paraná, Retratos de Paranaenses, o do advogado Luiz Carlos França da Rocha (“Rochinha”). Ele é dono de uma biografia impressionantemente única, a começar por ter passado boa parte da infância e adolescência vivendo sob segredo: não podia – e o resto da família – revelar o nome do pai, Espedito de Oliveira Rocha, um perseguido político pelo único “crime” de ter posição política.
O livro será lançado em Curitiba no dia 19 de setembro, a partir de 19 horas, no Palacete dos Leão (BRDE), Av. João Gualberto. Leia, a seguir:

“Quando começo a passar para o papel meu olhar sobre Luiz Carlos França da Rocha, personagem da vida curitibana e um dos mais acatados causídicos da cidade, não tenho dificuldades em retratá-lo: estou diante de um brasileiro gerado no meio do povo – pardo, raízes familiares do Nordeste pobre, formado em escola pública, vindo de família de horizontes materiais muito limitados, sem direito a aprisco no patriciado nordestino.
A segurança com que o advogado fala, se autoanalisa, e radiografa a sociedade brasileira com pinceladas sociológicas seguras – até para explicar como fugiu de um “destino” que o esperava -, amplia meu interesse pelo filho do operário e líder político Espedito de Oliveira Rocha.
Mas esclareço: Luiz Carlos não entra em Vozes do Paraná – Retratos de Paranaenses por ser filho de Espedito. No entanto, me é impossível dissociá-lo do pai, a quem conheci no começo dos anos 1960 como um dos líderes sindicais mais influentes do Paraná. Eu muitas vezes cobria jornalisticamente as ousadas ações sindicais do pernambucano de limitada escolaridade formal. Era quadro do antigo e então clandestino PCB (“Partidão”), que tanto incomodava a ordem estabelecida em suas reivindicações trabalhistas. Quase sempre justas.
E Espedito tinha todos os títulos para reivindicar em lugar do operariado: jamais fez do sindicalismo caminho para ganhar dinheiro, aparelhar o Estado, conquistar fundos de pensão, ou barganhar seus ideais em troca de posições financeiras e/ou eleitorais.
2 – “UM SER LEVE”

Rochinha, na opinião de Clémerson Merlin Clève, o fundador e presidente do Centro Universitário UniBrasil, um de seus amigos mais próximos e de quem foi sócio num escritório de advocacia, anos atrás, “é um ser humano leve, uma excelente companhia, um profissional exemplar”.
Essa “leveza” a que se refere Clève está não apenas nos momentos de inesquecíveis partilhas de vinhos preciosos, em encontros memoráveis de amigos comuns em que Rocha se mostra um “causeur” singular.
Acha que Rocha é também suave, pleno de audiência, até quando expõe seu pensamento sobre temas aparentemente áridos. Neles opera sob uma visão científica, espírito crítico bem fundamentado.
Crítico mordaz de certos “momentos de consensos”, não titubeia em lancetar seus dardos contra um dos ícones mais acatados – e até “sagrados” – do Brasil destes dias: o juiz Sergio Moro, uma paixão nacional, o executor da Operação Lava Jato.
Os dardos de Rochinha contra o juiz, quase unanimidade nacional, reconhecem, no entanto, que o magistrado executa papel importante e que tem respeitável bagagem, boa formação jurídica. Mas não aceita o “clima hagiográfico que cerca o magistrado”. Repete a palavra “hagiográfico”, como que a deixar bem clara a contrariedade ao que vê como “santificação de Moro”. Até por isso, mostra-se cáustico quando afirma:
– O senso comum, como o da corrupção, é hoje uma febre e exagero nacionais. E a sua melhor expressão são as manifestações diárias de apoio dos beatos de Sergio Moro, na Avenida Anita Garibaldi (defronte ao prédio da Justiça Federal em Curitiba) …
3 – OS CONSENSOS
Luiz Carlos França da Rocha, garantem ex-colegas seus de faculdade, “foi sempre assim, iconoclástico”. No caso de Moro, os mesmos colegas admitem que haveria de parte de Rochinha certa parti pris, por ter ele amigos e antigos companheiros envolvidos na Lava Jato, como o ex-ministro Paulo Bernardo. E aos quais defende de unhas e dentes.
O mundo de amizades e admirações de Rocha não se circunscreve à esquerda do espectro político. Uma de suas maiores admirações, por exemplo, sempre esteve à direita. Trata-se do antigo professor seu na Unicuritiba e depois ministro do STJ, o conservador católico Milton Luiz Pereira (in memoriam).
– O professor Milton me perguntava sobre uma aparente incongruência em minha vida universitária: nas provas eu me saía muito bem, mas quase perdia os anos por faltas, recorda Rocha”.
