Antenor Demeterco Junior (*)

Fernando Henrique Cardoso garantiu seu exponencial lugar na História por dois fatores: seu brilho pessoal e o marasmo de mediocridades políticas que nos governaram ao longo dos anos, salvo algumas exceções.
Publicou prematuramente, em vida, seus diários no governo em maçudo volume, infelizmente destinado a poucos leitores.
Suas considerações constituem um notável acervo que os historiadores e políticos contemporâneos não poderão desprezar: eviscerou as entranhas do poder.
O PMDB para o ex-presidente não é um partido, mas uma “confederação de interesses”.
É o “mais fisiológico”.
Não existe mais “um valor” que aglutine as forças políticas, nem nacionalismo, nem socialismo, nem desenvolvimentismo, nada.
O Congresso não tem nada que o unifique “em termos de valores”, apenas “interesses” muito fragmentados.
O poder do Executivo é imenso, mas o “poder de chantagem” do Congresso também é muito grande.
Mais vale jogar com “alguns” partidos do que “ficar na mão de um grande agrupamento político” que imobilize os movimentos estratégicos e dificulte os movimentos táticos do governo.
Melhor lidar com essa “diversidade”, o que permite “manobrar uns contra os outros” ou uns com os outros.
Não existem partidos, são “interesses fragmentários”.
Há uma permanente “insatisfação” entre os deputados, pois no mundo moderno perderam capacidade de ser artífices da articulação.
Sem o “clientelismo” ficaram sem função e se sentem alijados, a não ser “uns quarenta ou cinquenta”, que são os que tomam decisão na Câmara e no Senado.
Apegam-se a “pequenas questões”, viram “massa de manobra” e não gostam dessa posição.
A vida política vive de “intriga”, há um desfilar permanente de pequenas e grandes “infâmias”.
O problema da terra mereceu considerações especiais nos diários.
José Serra em reunião fez um apelo contra a reforma agrária como “perda de dinheiro”, iniciativa sem efeito, com o qual o ex-presidente não concordou.
O Movimento Sem Terra seria um “movimento revolucionário” que recolhe dinheiro das ONGs internacionais e também do governo.
Convênios governamentais possibilitam a alimentação para muitos assentados, “e de tudo eles tiram 30%”, com o que financiam a parte revolucionária.
O movimento é “arcaico”, baseado na crença de que a partir do campo vem a revolução, para um país urbanizado e industrializado (e injusto) como o Brasil.
É interessante nos diários os julgamentos que os presidentes Sarney e FHC fazem de seus pares.
O primeiro aponta Getúlio Vargas como um “homem menor” e o segundo concorda, não tinha ele “um grande descortino” nem “empenho maior com problemas do país”.
Tais conclusões ambos tiraram da leitura dos diários do falecido ditador.
Sarney não considera FHC um “intelectual”, mas apenas um professor. Itamar Franco é tratado por seu grupo de amigos como “uma criança mimada e birrenta”, o que ele às vezes é.
A capital do Brasil também foi focalizada.
O polonês Lech Walesa em visita ao país, ao ver Brasília foi incisivo: Parece “uma cidade comunista” feita por um capitalista ou por alguém que vivia no capitalismo.
Lech desconhecia quem era o stalinista e bon-vivant Niemeyer.
O ex-presidente faz uma constatação com certa dose de amargura, e que vale como encerramento dessas suas observações: O que sempre atrapalha no processo político são as questões pessoais, as vaidades, às vezes as ambições, e “os mais próximos são os que mais machucam e atrapalham”, porque a gente não tem o mesmo distanciamento para poder fazer o que deve ser feito.
FHC em seus diários está envolvido em profundo ceticismo em relação aos homens da política brasileira.
Mas, a proposta de substituição da ex-integrante dos bandos armados, que queriam substituir uma ditadura por outra, pelo professor de Direito Constitucional mostra que continuamos evoluindo.
(*) ANTENOR DEMETERCO JUNIOR, desembargador emérito do TJ-PR

