domingo, 19 abril, 2026
HomeMemorialO "Cinematógrapho" é testemunha de um cinema imortal

O “Cinematógrapho” é testemunha de um cinema imortal

Lelio Sotto Maior, no lançamento do livro, com o colunista
Lelio Sotto Maior, no lançamento do livro, com o colunista

A foto abaixo, feita pelo jornalista Márcio Renato do Santos, capturou um momento significativo de Lelio Sotto Maior Junior, 72, semana passada, quando ele lançou seu livro “Cinematógrapho”, na Biblioteca Pública do Paraná.

O crítico cinematográfico Lelio, que fez história nos anos 1960/80 escrevendo em jornais locais – como o antológico Diário do Paraná, da cadeia Associada, de Assis Chateaubriand – foi muito mais do que o analista de filmes. Foi uma catequista da outrora chamada Sétima Arte.

Hoje, infelizmente, aposentou-se dessa missão na qual ainda não apareceu substituto no Paraná. Pelo menos com a profundidade e agudeza de Lelio.

LEMINSKI E BUENO

Luiz Manfredini e o escritor Wilson Bueno
Luiz Manfredini e o escritor Wilson Bueno

Como complemento, explico às gerações desligadas de um passado recente e às mais novas: Lelio foi dos inquietos componentes do Grupo Áporo, que Paulo Leminski liderou e a partir da qual o “Polaco” (goste-se ou não dele) projetou-se nacionalmente. De forma definitiva.

A alma de Lelio se ajustava à perfeição ao tônus libertário, contestador e iconoclasta de Leminski e sua “gang”, formada por gente de qualidade. Um dos membros do grupo – é bom não esquecer – foi o escritor Wilson Bueno, sobre quem o jornalista Luiz Manfredini prepara uma alentada biografia.

Manfredini conheceu Bueno desde a infância, os dois morando na mesma rua de uma Curitiba ainda provinciana a “inocente”.

Sou testemunha da importância de Lelio para a formação de toda uma geração de cinéfilos, boa parte deles se guiando pela opinião e pelas indicações que Lelio foi registrando.

Eram tempos em que a mídia impressa tinha papel decisivo na formação de uma certa elite pensante de Curitiba, gente que não se contentava em apenas ver cinema, mas queria refletir sobre a tela grande em que se registrava a presença de nomes como Truffault, Godard, Felini, Antonioni, John Ford, Hitchcock, Bergman, Claude Chabrol, Rosselini, Glauber, Eisenstein…

O TRADUTOR

Não exagero em dizer que Lelio traduziu à perfeição o espírito de uma geração de imortais do cinema, boa parte dessa exegese a inspirada no Cahiers Du Cinema.

Esses cadernos de cinema, naturais da França, formaram escola mundo afora; inspiraram gerações de críticos, de consumidores exigentes e de diretores e atores de cinema; essa gente não era formada por meros “meteur-en-scène”, “mocinhos e mocinhas” da tela grande pausterizada pelos efeitos especiais, pela geração interminável de vampiros, viagens a galáxias e falsas “science fiction”.

Sem contar que hoje proliferam, sem qualquer pudor, os filmes que entronizaram os bichinhos falantes e, às vezes, tentam imitar as glórias e pecados humanos…

O FILHO ALAN

Conversei com Lelio, amigo que não via há muitos anos. Orgulhoso, o crítico me apresentou seu filho, Alan, 45, professor de língua inglesa voltada para o universo dos negócios.

Alan tem todos os elogios de Lelio – “é um filho maravilhoso”, disse-me, estendendo esses elogios à nora e a outros familiares, como a um dos irmãos, lá presente no lançamento de “Cinematógrafo”.

“ A alma de Lelio se ajustava à perfeição ao tônus libertário, contestador e iconoclasta de Leminski e sua “gang”, formada por gente de qualidade. Um dos membros do grupo – é bom não esquecer – foi o escritor Wilson Bueno, sobre quem o jornalista Luiz Manfredini prepara uma alentada biografia. “

A cabeça de Lelio está boa, o físico é que não ajuda muito; a voz sai muito baixa, a cuidadora está sempre apostos. “Ele não quer fazer fisioterapia”, diz-me uma cunhada de Lelio.

Ele se levanta com dificuldade para abraçar a cada convidado que chegava para a tarde de autógrafos na BPP, aquele mesmo cenários em que nos anos 1960/80 ele circulou, muitas vezes com a bandeira do “Cahiers” erguida, já brandindo contra os que teimavam em ver cinema como mera diversão, longe daquilo que Lelio sempre considerou o espírito essencial dessa arte: seu papel pedagógico para que se entenda a alma humana, suas armadilhas e seu entorno, sem dispensar, é claro, tonalidades alegres.

Mas sem jamais tornar-se uma pura alienação inventada por Lumière. E, por ver cinema sob essa óptica, é que o veterano Lelio assumiu na íntegra a visão de Truffault, evangelista de um cinema não comercial.

Missão impossível para os dias de hoje, especialmente.

Salve o Lélio, que fez aniversário no dia 12, terça-feira.

Leia Também

Leia Também