quinta-feira, 30 abril, 2026
HomeMemorialOpinião de Valor: Raízes árabes da agropecuária brasileira

Opinião de Valor: Raízes árabes da agropecuária brasileira

Cavalo árabe de raça pura. Foto: Shutterstock

(Evaristo de Miranda – Revista Oeste)

A agricultura brasileira tem raízes profundas no mundo árabe, no chamado Al Alam Al Arabi. Foram seis séculos de presença árabe na Península Ibérica. Durante esse período, sua agricultura conheceu um aperfeiçoamento sem precedentes. O ano da descoberta da América, 1492, foi o da retomada de Granada pelos Reis Católicos e da expulsão definitiva dos muçulmanos da Europa Ocidental. Os conhecimentos agrícolas ficaram.

Essa herança de conhecimentos agropecuários ibéricos chegou ao Brasil com o povoamento português e seu dinamismo em ciências e descobertas, como a intensificação da cana-de-açúcar. Ainda hoje, ela marca o mundo rural.

A primeira presença árabe no agro é etimológica. O árabe está na origem dos nomes de produtos como café, açúcar, álcool, laranja, limão, algodão, arroz, tamarindo, damasco, gergelim, tâmara, azeitona, azeite, tangerina e outros. O mesmo ocorre com hortaliças, flores e plantas aromáticas: alface, berinjela, almeirão, cenoura, alcachofra, espinafre, acelga, açafrão, alcaparra, alecrim, alfazema, jasmim, açucena e até salada. E também na pecuária: rês, alazão, gibão, alforje, alferes, alcatra, açougue, açude, pato e até javali. Medidas, dimensões e valorações de origem árabe resistem ao sistema métrico e são utilizadas até hoje: alqueire, arroba, almude, resma, safra, leilão, tarifa e alfândega.

A agricultura próspera da Península Ibérica, a partir do século 10, resultou de novas técnicas desenvolvidas pelos agrônomos árabes. Dentre eles, Ibn Al Awanpatrono da agronomia e da veterinária, o equivalente a Hipócrates para a medicina. Esse agrônomo árabe-andaluz morreu em Sevilha, em 1145. Ele criou as bases da ciência agronômica, ultrapassou a simples acumulação de conhecimentos empíricos, forjou vários conceitos agronômicos originais e deu origem à agronomia como ciência de observação e experimentação.

O Livro da Agricultura, escrito por Ibn Al Awan, é um verdadeiro tratado de agronomia, com cerca de 1.500 páginas. Seus 35 capítulos, em três volumes, apresentam os resultados de uma revisão bibliográfica mais completa possível dos autores gregos, latinos, egípcios, caldeus, persas e nabateus, confrontada a experimentos realizados em residências, campos e palácios dos califas em Granada e Sevilha. Esses locais funcionavam como “jardins de ensaios”. E os resultados eram avaliados com uma “estatística” básica, apoiada em ábacos. No Marrocos, Ibn Al Awan dá nome a uma revista de pesquisa agronômica, Al Awamia, análoga à Bragantia, do Instituto Agronômico de Campinas.

Ibn Al Awan: o pai da agronomia e da veterinária. Foto: Reprodução

A Liga Árabe é hoje o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas de China e Estados Unidos

As famílias de origem árabe destacam-se em ciências, medicina, agricultura, política, construção civil, artes, literatura e em diversos serviços, do Acre ao Rio Grande do Sul. Graças à migração sírio-libanesa, temos os Abdala, Abib, Abouchar, Aboud, Afif, Alckmin, Amin, Assad, Attala, Bitar, Buainaim, Buaiz, Buzaid, Calfat, Calil, Caram, Cassab, Chalita, Chedid, Curi, Curiati, Cutait, Daher, Farha, Fuad, Haddad, Hage, Hamu, Helou, Houaiss, Jabor, Jafet, Jatene, Jereissati, Maluf, Mansur, Maron, Massaad, Mattar, Medina, Miguel, Mofarrej, Murad, Nagib, Nasrallah, Nassar, Nassif, Rachid, Richa, Saad, Salim, Salomão, Sater, Seif, Skaf, Tanuri, Temer, Zahar e outras, com personalidades de destaque aqui e no mundo. A Câmara de Comércio Brasil-Líbano, com mais de 60 anos, expressa o vigor do aporte libanês ao desenvolvimento do país.

Agora, um novo momento na história com o mundo árabe ocorre, graças à agropecuária brasileira: o crescimento das relações comerciais com os 22 países da Liga Árabe. Segundo dados da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira e da COMEX, em 2021, o bloco comprou US$ 14,42 bilhões de produtos brasileiros, uma alta de 26% em relação a 2020. Recorde histórico. A Liga Árabe é hoje o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas de China e Estados Unidos.

Frango, açúcar, carne bovina e grãos lideram as exportações do agro. Os dois maiores destaques em crescimento foram Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. A Liga Árabe é o quinto fornecedor em importações: US$ 9,82 bilhões, em 2021, um crescimento de 82% com relação a 2020 (combustíveis, fertilizantes e alumínio).

Missões comerciais, nos dois sentidos, sucedem-se. Investimentos árabes no Brasil têm crescido, assim como a cooperação científica e tecnológica. A Embrapa mantém ações de pesquisa conjunta em países árabes, como com o Centro Internacional para Agricultura Biossalina dos Emirados Árabes.

No agronegócio, cresce a aproximação entre empresas e empreendedores, árabes e brasileiros. O futuro das relações com o mundo árabe, alicerçado num passado ainda pouco conhecido e tão rico, poderá alcançar dimensões muito além das já expressivas conexões econômicas.

إِنْ شَاءَ ٱللَّٰهُ , Insha’Allah! Oxalá!

Leia Também

Leia Também