Secretário de Planejamento Urbano do Rio de Janeiro, Washington Fajardo fala sobre os projetos para transformar a capital em cidade modelo
(Habitability)
Os desafios de tornar o Rio de Janeiro uma cidade mais sustentável são incontáveis, porém mensuráveis. Afinal, são 163 bairros, 33 regiões administrativas, 9 subprefeituras, 1,2 milhões de quilômetros quadrados e um pouco mais de 6,3 milhões de pessoas. “Não podemos começar a cidade do zero, temos que pegar uma cidade que já existe, que já está toda esparramada e compactá-la”, diz o Secretário de Planejamento Urbano do Rio de Janeiro, Washington Fajardo, em entrevista ao Habitability.
Para ele, que vê no aproveitamento das potencialidades e no conceito de cidade compacta um caminho para a revitalização da região central, o futuro das cidades passa por crescer sem, necessariamente, expandir, aproveitando melhor os espaços existentes por meio de obras de reconversão, análise de dados e tecnologia. Temas que já são o foco da gestão de Fajardo no Planejamento Urbano do Rio, com projetos como Reviver Rio, que visa revitalizar áreas do centro histórico da capital fluminense, e o Favelas 4D, uma análise morfológica da Rocinha – a maior favela do Brasil – feita por meio de tecnologia do Massachusetts Institute of Technology (MIT) com o objetivo de facilitar o levantamento de necessidades e problemas de infraestrutura. A tecnologia, aliás, é, para ele, importante instrumento para criar um “Rio Model”, um modelo de urbanismo para o século 21. Confira a entrevista completa a seguir.
Qual o principal pilar do planejamento urbano e que que está sendo colocado em prática no Rio de Janeiro?
Washington Fajardo – O primeiro ponto que olhamos são as cidades compactas. A gente precisa aprender a fazer cidades mais compactas no Brasil, já que uma cidade mais adensada tem um impacto ambiental positivo. Ela faz com que os deslocamentos das pessoas sejam menores, consequentemente, reduzindo a emissão de gases. Além disso, uma cidade compacta aproxima mais as pessoas e aumenta o contato delas com a diversidade. Faz com que as pessoas a compartilhem mais, com impacto no acesso a oportunidades, tanto pelo lado individual, como também no lado da administração pública, que ganha mais eficiência. Um exemplo aconteceu na vacinação contra a Covid-19: as cidades mais densas conseguiram ótimas respostas, exatamente porque as pessoas estavam mais próximas dos postos de saúde.
“As cidades compactas têm muitos benefícios do ponto de vista da interação social. Só que não podemos começar a cidade do zero, temos que pegar uma cidade que já existe, que já está toda esparramada e compactá-la.”
Temos que aprender a lidar com os processos de transformação urbana, ou seja, com o sistema do planejamento urbano, as normativas e as regulamentações, porque não é fácil mudar essa carga inercial das cidades que estão se esparramando.

Quais as ações da prefeitura do Rio de Janeiro para tornar a cidade mais “compacta”?
Washington Fajardo – A ideia da cidade compacta está expressa no programa Reviver Centro e também para o que estamos propondo no novo Plano Diretor da cidade. Além disso, estamos propondo novas legislações para incentivar o retrofit [reconversão de prédios], porque se vamos morar de forma mais compacta, então tem que ser mais fácil reformar o que já existe, em vez que construir do zero. Esse é um dos motivos pelos quais as cidades cresceram muito no Brasil: ainda temos políticas e recursos públicos que acabam estimulando o espalhamento das cidades. Temos que começar a mudar isso.
Quais são os pontos que o planejador urbano precisa observar para criar uma cidade mais sustentável e que prioriza o conceito de “cidades de 15 minutos”?
Washington Fajardo – Para fazer a ideia acontecer você precisa olhar bem para dois pontos: onde está a mobilidade urbana e onde estão as oportunidades. Dois pontos importantes são os espaços de concentração de trabalho e emprego; e a mobilidade. No Rio, os empregos e os negócios ainda estão concentrados na área central. Em São Paulo, por exemplo, é diferente. São Paulo talvez seja a única cidade do Brasil que tem a possibilidade de ter mais de um centro econômico, a cidade tem três centralidades econômicas relevantes.
O lugar onde se concentra a atividade econômica está associado à mobilidade urbana. Por isso é importante que a gente consiga adensar a cidade, especialmente para juntar aos pontos de transporte de alta capacidade. Alguns bairros do Rio de Janeiro ficaram densos e depois chegou o metrô, que é o caso da Zona Sul. Mas tem alguns bairros da Zona Norte que foram se formando por causa da linha do trem, então eles nunca receberam uma legislação que estimulasse o adensamento. Em alguns bairros você tem estações de trem históricas, que estão há 20 minutos do centro, mas o bairro ao redor está cheio de ruínas e com o comércio pouco movimentado. A gente precisa fazer com que esse solo urbano possa realizar todo o seu potencial. E isso tem muito a ver com a regulamentação. Porque as prefeituras têm medo do adensamento ou medo da verticalização, e isso aparece em alguns detalhes na regulamentação. Por exemplo, exigir recuo frontal de muitos metros para produzir ruas mais largas do que as calçadas para dar espaço para o carro circular. Toda legislação tem um componente cultural, o que significa que temos leis que regem as cidades que representam pensamentos antigos, quando a sustentabilidade, por exemplo, não era nem tema de discussão. Então é necessário mudar esse tipo de regulamentação para poder ajudar a criar cidades mais preparadas para o futuro.
“Não faz sentido que as nossas áreas centrais estejam tão vazias. São as áreas onde estão os prédios mais bonitos, o melhor espaço público, os espaços culturais mais interessantes e a sociedade brasileira não mora mais nesses espaços.”
