quarta-feira, 13 maio, 2026
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Casamento com mergulho na história dos imigrantes

Dante Mendonça e Maí Nascimento
Dante Mendonça e Maí Nascimento

Poderia ter sido apenas mais um casamento (Luiza e Rafael) de um casal de jovens, não fossem alguns substantivos detalhes que o ligaram, na tarde de sábado, 5, na cidade catarinense de Nova Trento, a um dos significativos momentos da imigração italiana em Santa Catarina.

A começar pela cerimônia religiosa realizada na capela de Santa Ágata (um nome profundamente forte na devoção dos italianos do passado).

Trata-se de um espaço belíssimo, minúsculo, precioso, construído em 1888 pelos ancestrais, bisavós paternos (Tridapalle) de Dante Mendonça.

A capelinha é uma relíquia tombada pelo Patrimônio Público Estadual de SC, e hoje passada pela família de Dante à Cúria de Florianópolis (a qual cabe jurisdição canônica sobre Nova Trento).

CREMILDA

Os restauros e novas pinturas foram feitos ao longo dos anos por dona Cremilda (in memoriam), a mãe de Dante, que foi uma forte e carismática líder política de Nova Trento. Presidiu por duas vezes a Câmara Municipal da cidade.

– Nova Trento vive, de forma muito clara, o grande milagre de Santa Paulina, diz Dante…”.

Cremilda era também uma artista plástica, pintora respeitável. Assim, não teve dificuldade de reproduzir a pintura original de Santa Ágata, para entronizá-la no altar.

Nos espaços laterais, imponentes, permanecem duas imagens (modernas), de uma Santa Clara, a padroeira da televisão, fundadora do ramo feminino da família franciscana; e um São José.

A noiva, Luiza, é filha de Dante e Maria Luiza do Nascimento Mendonça, a Maí, paradigmática jornalista da vida paranaense, que lá estava a desdobrar-se em atenções aos 250 convidados. E atenções especiais ela foi dedicando aos pais, o médico anestesista Ney Regatière o Nascimento, e à sua esposa, dona Luiza. Os dois estão na casa dos 94 e 92 anos, respectivamente.

O noivo, Rafael, 29, segue com Luiza amanhã para um ano de estudos em Madrid.

Dante, diante de minha insistência – e do “alto de sua bengala, que lhe amplia o porte elegante – vai-me discorrendo sobre a cidade natal.

Discorre sobre a luta dos italianos pioneiros que lá chegaram a partir de 1875, as dificuldades encontradas nos embates com a floresta e os silvícolas, com a terra virgem da qual teriam de fazer germinar as culturas para o sustento da comunidade.

“Os restauros e novas pinturas foram feitos ao longo dos anos por dona Cremilda (in memoriam), a mãe de Dante, que foi uma forte e carismática líder política de Nova Trento. Presidiu por duas vezes a Câmara Municipal da cidade.”

Dante não sabe dimensionar muito bem: sabe apenas que era enorme a propriedade urbana inicial, as terras conquistadas pelos avós Tridapalle.

Talvez 1 X 1 Km? Pode ser. A família é das mais significativa daqueles dias pioneiros. E um irmão de Dante, Rogério Mendonça, depois de ter ocupado 3 mandatos deputado estadual (PMDB) está no segundo de deputado federal. “É o terceiro mais votado de Santa Catarina”, explica Dante, que assim vê Rogério seguir a veia política da mãe dos dois, dona Cremilda.

Cremilda, bom lembrar, foi uma guardiã de valor da herança cultural recebida. Ao lado da capela, no espaço que é uma espécie de condomínio familiar com confortáveis residências (algumas destinadas apenas a veraneio), ela montou sua casa. Trata-se de espaço moderno, grande, onde o bom gosto de Cremilda registra a presença de parte da história dos Tridapalle e da própria Nova Trento.

Foi lá que Rafael e Luiza receberam os convidados, ao som de 3 conjuntos musicais que não chegaram a ofender ouvidos mais “clássicos”, como os meus.

Segundo a sempre atenta amiga da família da noiva, a tradutora Dione Schaitza, teria havido uma recomendação prévia aos jovens músicos, para que moderassem nos decibéis… Sugestão acatada.

GRANDE MILAGRE

Capela de Santa Ágata, em Nova Trento
Capela de Santa Ágata, em Nova Trento

Sentado, Dante arrisca, com o humor inteligente e requintado que o define, olhar a Nova Trento dos dias atuais.

Está otimista. Diz que a cidade hoje tem uns 14 mil habitantes, tendo nos últimos anos crescido. O comércio é forte e variado – não é força de expressão.

As pousadas e restaurantes são muitos, alguns de boa qualidade, incluindo os vinhos da terra.

– Nova Trento vive, de forma muito clara, o grande milagre de Santa Paulina.

Com a canonização da freira italiana (mas com sobrenome germânico, o que é comum no Norte da Itália), houve um “boom” econômico, sentido no comércio e na prestação de serviços, notadamente para o atendimento dos peregrinos que estão chegando sempre, de muitas partes do país.

Chegam para orações e visitas ao Santuário de Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus, que as irmãs da Imaculada Conceição – por ela fundadas – administram. O atendimento espiritual fica a cargo dos padres Deonistas.

As próprias mantenedoras do Santuário e guardiãs da devoção à santa Paulina, as freiras, tiveram de adaptar-se à nova realidade. Afinal, agora Nova Trento está inscrita entre as cidades que têm no chamado turismo religioso o seu maior produto e meio de subsistência. Como Aparecida, SP.

Um dos bons sintomas dessa nova realidade são as novas instalações do Centro de Espiritualidade da Imaculada Conceição, que agora dispõe de uma moderna pousada, com 50 quartos.

A pousada ficou bem equipada do ponto de vista de instalações físicas, o que se sente diante do “dedo” profissional de arquitetos que trabalharam no projeto.

Mas falta muito ainda, no entanto, para oferecer, do ponto de vista de serviços de hotelaria, embora seu “staff” operacional seja de primeira, como a “faz tudo” Loriva, uma administradora de empresa e grande RP dessa obra basicamente de fé. Ela e irmã Salete fazem de tudo para compensar as lacunas existentes no espaço.

Em Nova Trento já se observam ônibus de outros Estados chegando com peregrinos. Como vi no sábado, tendo anotado a chegada de 2 deles, com placas de São Paulo.

As peregrinações estão começando, mas já geram bons resultados para o PIB da cidade, o que, segundo Dante, foi o grande milagre da santa.

Admite-se – pura estimativa – que umas 12 mil pessoas passem nos domingos pelo santuário, rezando a pagando promessas. Mas há também devotos nos dias da semana. Se considerarmos que essa gente vem de longe para suas devoções, é um bom número inicial.

O afluxo de peregrinos tende a aumentar, em parte com a divulgação massiva que dela faz do Santuário a TV católica Século 21, de Campinas, SP.

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