
Por Eloi Zanetti*
Caia uma fria garoa naquela manhã de sábado. Levantamos cedo, juntamos
as tralhas, carregamos a velha Brasília e saímos para pescar lambaris.
Destino: um riozinho que corta a antiga estrada da Ribeira e atravessa o
sítio de um velho imigrante. Contentes, apesar do tempo feio,
encontramos fácil o lugar.
Na porteira um senhor nos recebeu.
– Bom dia!
– Bom dia!
– Seu Inácio?
– Chim! – o sotaque italiano revelava a descendência do sitiante.
Seus amigos do Juvevê nos disseram que no rio do seu sítio dá bons
lambaris. O senhor dá licença de pescar?
– Ah! Sei. Se quiserem pescar podem, mas não vão pegar nada.
– Porquê?
Esta semana, a fábrica lá da estrada andou despejando veneno nas águas,
matou tudo.
– Mas a gente pode tentar, só para não perder a viagem? – perguntamos.
– Entrem, se acomodem. Coloquem o carro ali perto do paiol. Ninguém
mexe.
O rio fica seguindo este caminho.
Descemos a trilha, um rio de águas claras, bonito e bem margeado nos
esperava. Não fosse o aviso do velho, teríamos certeza de que ali era um
bom pesqueiro, mas para nossa tristeza, ele tinha razão, não deu nada. O
veneno industrial havia matado todos os peixes em um bom trecho de rio.
Mesmo assim, tentamos durante algumas horas, até que a fome começou a
rondar.
Desanimados, recolhemos os apetrechos, as varas e subimos em direção à
casa. Pensávamos comer alguma coisa e seguir em frente. Quem sabe à
tarde, em outro rio, tivéssemos mais sorte. O velho, na soleira da
porta, pitando um cigarro de palha, nos perguntou de longe.
– E daí, tiraram alguma coisa?
– Naaada – meu sogro falou desconsolado – mataram tudo mesmo.
– E ninguém liga. Fazem o que querem.
– Pretendemos comer nosso lanche e seguir adiante, podemos ficar aqui no
galpão, por causa da chuva?
– Ah! Non! Tragam suas coisas para a cozinha. Lugar de cristão comer é
na mesa. Fiquem a vontade, se precisarem de prato e talher a mulher
ajuda vocês. A casa é simples, mas o coração é grande, arrematou.
A hospitalidade e a boa vontade do velho impressionavam. Acredito que
ele estava à procura de alguém para conversar e nós fomos os escolhidos.
Começou a especular sobre as coisas da cidade, o que fazíamos, nossos
parentes, os lugares em que pescávamos e sobre a nossa amizade com o
pessoal do Juvevê. Meu sogro puxou da sacola uma garrafa de vinho e
disse:
– O senhor bebe vinho?
– Mas claro, mulher pega uns copos para gente beber com os amigos.
Foi quando percebi, ao lado do fogão, onde a lenha crepitava ligeira,
soltando gostoso e acalentador ruído, uma senhora, vestindo um avental
já gasto e manchado pelo uso, que se ocupava da feitura do almoço. Ela
abriu um sorriso simpático, pegou os copos e coloco-os na mesa. Em
seguida, voltou-se para o que estava fazendo. Fiquei preso à cena,
fascinado pelas chamas produzidas no velho fogão. Eram de um vermelho
vivo, quase intenso, fogo típico de madeira seca, bem escolhida e
cortada. Acordei do pequeno transe e comecei a prestar atenção no
trabalho dela, seus gestos eram de extrema maestria.
O ritmo calmo e preciso com que lidava com seus afazeres começara
também a me encantar. Era gostoso vê-la destampar panelas, mexendo nos
diversos preparados com uma colher de pau. A cada abertura de tampa
erguiam-se bafos, chiados e aromas diferentes. Foi então que aconteceu o
seu movimento mais bonito, aquele que ficou preso na minha memória para
sempre e, graças a ele, hoje, posso relembrar esta história. Em
determinado momento, ela passou um pano pela chapa azulada limpando com
suavidade o ferro que ardia. Pegou a panela onde uma polenta acabara de
ser cozida, virou o conteúdo na chapa e, com uma espátula, espalhou-o
com gestos elegantes. A massa estalou ao contato com o quente e foi
ganhando forma. A mulher mexia pelas beiradas, acompanhando o queimado
das pontas e com cuidado foi moldando o formato da peça. Quando a
polenta começou a pegar consistência, cortou-a em vários pedaços
passando a virá-los um a um, ora tostando um lado ora o outro.
Estava tão compenetrado em observar o trabalho da mulher que havia me
esquecido do velho. Ele acabara de nos convidar para juntar nossas
comidas e almoçarmos juntos. Confesso que fiquei com medo de que meu
sogro recusasse a oferta. Mas não, ele estava tão interessado naquela
polenta quanto eu e nem titubeou. Espalhou nossas coisas na mesa e
exclamou do fundo do coração.
– É um prazer enorme almoçar com vocês!
E no seu sotaque também de italiano disse:
– Criiiiisto! Que polenta bonita, faz anos que não vejo nada assim,
desde os tempos da minha nona.
Na parede, retratos da família e um velho quadro Sagrado Coração de
Jesus abençoava aquele santo almoço.
A senhora tirava as lascas mais tostadas da chapa colocava-as nos
pratos, despejava em cima o molho encorpado com um bom pedaço da galinha
cozida e nos servia. O maravilhoso cheiro dos temperos caseiros tomava
conta do ambiente.
A conversa continuou, causos foram relembrados. Lá fora a chuva caía
fina, fria e intermitente. No rio, a água fluía limpando o descuido dos
homens. O meu coração foi tomado de uma saudade imensa. Saudade de
coisas que ainda viriam, porque aquilo não se repetiria mais, nunca
mais.
(*)ELOI ZANETTI, publicitário, escritor, conferencista. É o “pai” o
Bicho do Paraná”, paternidade que divide com Sergio S.Reis.
