quarta-feira, 15 abril, 2026
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Opinião de Valor: Nós, a tatuagem

Joatan M. de Carvalho
Joatan M. de Carvalho

Por Joatan Marcos de Carvalho (*)

Busco em Drummond a comparação. Ele em seu poema emblemático: “Eu, etiqueta”, nos indica a dimensão da nossa realidade frente ao sistema estabelecido, de forma absolutamente majestosa, em sua poética. Vejo, de alguma forma, uma similitude entre as etiquetas e as tatuagens, salvo que as “etiquetas” se apegam às nossas indumentárias e as tatuagens se impingem em nossa epiderme.

Nós a víamos por aí, repletos de etiquetas, de anúncios, de reclames que, muitas vezes, nem sabemos de que se trata. De se indagar, quanto de participação temos, efetivamente, nas imagens, valores e identidades que disseminamos. Carregamos virtudes, tendências, dons, personalidades; mas, ainda que em diferentes proporções, seguimos arrastando uma infinidade de preconceitos, equívocos, desatenções, maus hábitos, e por aí vai. Quando se diz que o mundo está confuso, que não se o entende mais, que estamos doentes (coisa de maduros e de “crédulos”), o que se está a dizer é que nos falta o entendimento. E, na verdade, temos razão para isso, já que a complexidade que se estabeleceu na lógica globalizada torna difícil a qualquer pessoa – não especializada, distinguir as razões e os porquês dos fatos e acontecimentos.

Assim, de se indagar: qual a “atitude”, com qual consciência ostentamos frases, dizeres, marcas, dísticos, símbolos, escudos, bandeira em nossas vestimentas? Em nossas mentes e corações? E aí reside uma grande diferença. Na linguagem das “etiquetas” há provisoriedade; é fácil mudar de opinião, até mesmo a opinião é menos presente: pode se estar usando uma estampa de algo que nem mesmo se saiba o que exatamente significa. Já na questão das tatuagens há uma permanência e uma certeza (mesmo quando equivocada) do que se pretende, com a tatuagem e sua exibição. Oportuno ressaltar que há coexistência, de etiquetas e tatuagens. Nada contra.

Generalizou. Vejo senhoras e senhores, adultos e jovens, com maiores e menores porções de seus corpos recobertos por indelével tintura. O que me surpreende, é o fato de que esse domínio (com as reservas já salientadas) estava nas roupas e agora já nos anda na pele. Sempre tive dificuldade em elaborar a alma humana, menos ainda, devo confessar, posso lidar com o que poderia a ela se apegar numa similitude às tatuagens. Que designação se poderia atribuir a uma tão excepcional ocorrência? Seria bom saber o que Drummond diria a respeito. É por isso que, a determinadas pessoas, as desejamos imortais…

(*) Joatan Marcos de Carvalho, desembargador aposentado do TJPR, escritor

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