(Espaço de Antonio Carlos da Costa Coelho)
O desembargador era conhecido por ser homem de poucas palavras e autoritário. Quando foi juiz no interior do estado fazia questão de exibir sua valentia. Muitas vezes levou prisioneiros pelo braço até a cadeia. E, ai do meliante que se metesse a esperto, apanhava na rua mesmo. Chegava no xadrez com a cara inchada.
Criou fama e trouxe-a para a capital, mas, aqui, o doutor não podia agir da mesma forma. A cidade grande não lhe permitia esbanjar os mesmos autoritarismos como fazia naquela cidade do “far west paranaense”. Na capital o valentão teria muitas chances de se dar mal, mas, mesmo assim, gostava que o tivessem por um homem duro, de pouca conversa e opiniões inquestionáveis. Afinal, naqueles anos, quem ousaria?
“Puxas sacos não faltavam. Onde entrava, no comércio, nos restaurantes, não faltavam os bajuladores. O desembargador gostava do tratamento vip.”
Mas não era só fama de durão. Gostava de se mostrar um homem idôneo, de moral irrepreensível. Era um intocável. Um brâmane. Nem as luvas ele tirava para cumprimentar seus amigos. Suas mãos, assim como sua moral, não poderiam se contaminar.
Puxas sacos não faltavam. Onde entrava, no comércio, nos restaurantes, não faltavam os bajuladores. O desembargador gostava do tratamento vip. Sentia prazer em ver os puxas se desdobrarem para atendê-lo. Exagerava, então, nas suas exigências pois, elas sugeriam, ao empafiado, um refinamento incomum.
Certa vez, foi ao Salão Arte, de Franz Pavel. Pediu por um barbeiro que não fumasse. Dizia não suportar o cheiro do tabaco. Foi-lhe indicado o último, o da cadeira dos fundos. Cabelo feito, quis uma manicure para cortar e polir suas unhas. E, naquele dia, ele tirou as luvas. Foi para a polaca Isolde, uma loira exuberante, de quadris grandes e seios fartos. A manicure era experiente, sabia agradar o freguês, atendeu a demanda e concluiu com uma massagem com creme perfumado nas mãos do doutor. Ele, diante de tanta formosura, não se conteve. Ao sentir o toque delicado e sensual das mãos da polaca, gemeu de prazer. As mãos de Isolde fizeram seus olhos revirar e, como um epiléptico, se deixou tomar por espasmos. Isolde largou suas mãos e acendeu um cigarro.
