segunda-feira, 15 junho, 2026
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Opinião de Valor: Momentos de Luiz Antonio Leprevost

Luiz Antonio Leprevost

 

MOMENTOS DE LUIZ ANTONIO LEPREVOST

Por José Maria Correa (*)

Saudades de Luiz Antonio Leprevost
Pense em um cara bacana de verdade.
Gente fina mesmo.

Brincalhão, solidário.
Mais de meio século de amizade.
Um irmão de todas as horas.
Parceiro,confidente e companheiro.

Um anfitrião generoso com a casa de Santa Felicidade, sempre de portas abertas e mesa farta.
Na confraria do clube, o primeiro a encher nossas taças com vinhos selecionados que trazia sempre para compartilhar.

Adorado pelos garçons e colaboradores do Bar Brahma que o atendiam e recebiam polpudas gorgetas, e não só isso , mas por toda atenção, simplicidade  e carinho.

Esse é um verbo que definiria bem o Luiz , -compartilhar.

Seu aniversário de 70 anos foi ontem e  comemorado espiritualmente em outro plano, no qual ele acreditava com muita fé.

Não houve e nunca mais haverá a festa tradicional com toda a animação no clube.

E nem o sorriso farto e sincero , como as águas de um rio cristalino ou  as espumas das ondas de Guaratuba.

Esse só será avistado entre as estrelas no cosmos e nas inacessíveis galáxias ao lado de tantos outros amigos que também já se foram.

Por aqui ficamos nós.

Os que o amaram.
A esposa Jussara , luz dos seus olhos , os filhos, Ney, João , Alexandre , o poeta Felipe, as noras , que também eram como filhas. E os netos que o rodeavam como anjos.

A Pandemia impiedosa nos roubou Luiz, Fábio, Almir, Renato , Marias e Joãos. Todos partes de nossas vidas.

Lembro bem do desespero do Luiz, dirigindo noite adentro pelas ruas de Curitiba buscando uma vaga em hospital para salvar a esposa Jussara, muito grave, com a Covid. Não havia leitos e ele  do carro falando  ao telefone ligava para quem podia.
A tosse de ambos já podia ser ouvida,

Conseguiu que os médicos a salvassem e só depois foi cuidar dele. Era o que sempre fazia.

No dia seguinte foi que me ligou .

A família para ele sempre esteve em primeiro plano.
A família e os amigos inseparáveis,
Turmas  da Guttemberg, da Avenida e dos clubes que frequentava, sempre em lugares de honra.

Quando chegava em um ambiente era impossível ignorar.

Trazia uma espécie de luz no sorriso.

Era bom “proseur” e melhor ouvinte.
Bom de tiradas, evitava que amigos entrassem em frias, o que hoje é comum, e estava sempre em busca de colocações ou apoio aos que pela idade do grupo  ,ou por efeitos de sucessivas crises estavam em dificuldades.

Nos dias que se seguiram à descoberta da Covid já estava com os pulmões comprometidos e com falta de ar.

Ainda falamos novamente  quando ele chegou ao hospital.

Estava mais preocupado em me advertir e dar severos conselhos para que eu me mantivesse isolado e tomasse todos os cuidados , pois sabia da minha baixa imunidade decorrente da diabetes.

Foi incisivo para que eu jamais aceitasse o tal “ tratamento precoce” erro que cometera e que só agravara sua saúde , por ineficiente e por lesar órgãos vitais.

Daí em diante foi uma Via Crucis.
Luiz como um guerreiro enfrentou o martírio durante meses na UTI.

Eu falava diáriamente com os filhos que se dedicavam com todo carinho ao pai intubado e desacordado.

Com a devoção dos médicos teve pequenas e boas melhoras.

Quando estava no quarto liguei para ele que já atendeu com o filho Alexandre segurando o celular.

A voz um pouco mais fraca ainda era poderosa e terna.
-“ Zé Maria ,meu amigo .”

Inconfundível no carinho, estava feliz e otimista.

Procurei não me emocionar e passei a comentar sobre o preparativo da festa dos 70 anos dele.

Teria que ser tão animada como foi  a dos 50 , organizada pela Jussara. Isso no tempo em que  éramos jovens e ninguem ainda havia morrido.

Trato feito.

Os dias se passaram e a Covid sendo superada , infelizmente deixara como sequelas orgãos vitais irremediavelmente lesionados.

Iludidos por alguns médicos charlatães e mercenários o Luiz, sempre de boa fé em tudo que fazia , ao início deixou que lhe receitassem a hidroxicloroquina o que lhe causou uma hepatite medicamentosa gravíssima.

Os bons profissionais do Hospital Nossa Senhora das Graças, Heitor Lago , Yara e toda uma equipe de anjos já não conseguiram vencer o estrago que os  outros, indignos de serem chamados de colegas ,  haviam causado.

Com as restrições da pandemia, formamos uma corrente de fé e de orações nas redes sociais.

A família e uma legião de amigos.

Eu conversava diáriamente com o Guido Cecato e o Sérgio Tadeu, amigos comuns e “ primus inter pares”
O filho Ney nos alentava
– “Todos os dias pequenas vitórias “

Mas o fato é que essas não foram suficientes para vencer a grande batalha contra a morte física.

Ainda consegui falar mais uma vez com o Luiz quando do seu último retorno para casa antes da hospitalização definitiva que antecedeu a partida.

Questa maledetta vita  como dizem os italianos antigos , título do romance autobiográfico de Leopardi escrito por Urraro .

Mas o fato é que Luiz teve uma vida maravilhosa e intensa honrou o nome dos pais.
Da mãe Stela e do Pai dr .Ney que foi prefeito de Curitiba e deixou um belo legado na vida pública e profissional.

Mas o que realmente importava para ele não eram os cargos que exerceu com brilhantismo e probidade,

Mais de uma vez rompeu e os deixou por discordâncias políticas, por temperamento forte, ou por rumos dos quais discordava.

Agia sempre com muito voluntarismo e indignação ao manifestar seus inconformismos.

E gostava de exercitar uma veia teatral com arroubos e imprecações contra autoridades que julgava incompetentes ou suspeitas de atos improbos.

Suas últimas verberações poderosas foram contra as quadrilhas que boicotaram as vacinas que poderiam ter salvado milhares de vidas.

Contra os que promoveram aglomerações e receitaram criminosamente remédios comprovadamente sem eficácia e de graves efeitos colaterais.

Assim se foi meu amado amigo Luiz.
Indignado pelas circunstâncias de uma morte que poderia ter sido evitada.

Mas também amparado pela fé que o moveu a vida toda e despreocupado com o futuro dos filhos que conseguiu assegurar pela educação e pelos exemplos transmitidos.

Aos amigos mais próximos que o compreenderam, como eu , resta suceder o Luiz na indignação e no protesto à favor da saúde e da vida.

Contra as quadrilhas, em apoio à ciência e à humanidade.

Não calar , não ceder e não recuar diante do genocídio que nos atinge como tragédia e luto no pior biênio de nossas vidas.

Como no imortal gesto de Dom Miguel de Unamuno, o verdadeiramente mítico reitor da Universidade de Salamanca , ao bradar no templo do saber e da cultura enfrentando o obscurantismo.

Abaixo a morte!
Viva  Vida!
E os que tem direito a viver!

José Maria Correia
Advogado, Delegado da Polícia Civil, aposentado, ex- prefeito de Matinhos.

José Maria Correa de Araujo
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