sábado, 20 junho, 2026
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Fernández diz que brasileiros vieram da selva e argentinos chegaram de barco da Europa; assista ao vídeo

Alberto Fernández

(Da Folha de S.Paulo)

Em encontro na manhã desta quarta (9) com o premiê da Espanha, em Buenos Aires, o presidente argentino, Alberto Fernández, disse que “os mexicanos vieram dos indígenas, os brasileiros, da selva, e nós, chegamos em barcos”. “Eram barcos que vinham da Europa”, afirmou, apontando para Pedro Sánchez. Depois, referendou: “O meu [sobrenome] Fernández é uma prova disso”.

O líder argentino acreditava fazer menção a uma frase incorretamente atribuída ao escritor mexicano Octavio Paz (1914-1998), Nobel de literatura em 1990, em que ele teria discorrido sobre a raiz asteca dos mexicanos e a origem inca dos peruanos. Fernández, porém, confundiu-se, e a frase é na verdade parte de uma canção do compositor Litto Nebbia.

Após a repercussão da declaração, o presidente argentino publicou uma mensagem no Twitter na qual diz que “nossa diversidade é um orgulho”. “Mais de uma vez foi dito que ‘os argentinos descendemos dos barcos’. Na primeira metade do século 20 recebemos mais de 5 milhões de imigrantes que conviveram com os nossos povos originários. Nossa diversidade é um orgulho.” Na sequência, acrescentou que “não quis ofender ninguém” e pediu desculpas “a quem tenha se sentido ofendido ou invisibilizado”.

Também pelo Twitter, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) respondeu com uma foto acompanhado de indígenas e a palavra “SELVA!” ao lado da bandeira brasileira.

A oposição também reagiu por meio de redes sociais. O deputado Facundo Suárez Lastra, da União Cívica Radical, afirmou que “sempre há um nível mais baixo para que o presidente desça na escada do ridículo e da vergonha”. “Ofende países irmãos e aparece como um ignorante. Nem professor nem acadêmico.”

Também da UCR, partido que fazia parte da base de apoio do ex-presidente Mauricio Macri, Karina Banfi pediu que Fernández se desculpasse por sua ignorância e discriminação com os povos originários, com os países da região e com todos os argentinos e argentinas”.

O ex-presidente do México Felipe Calderón (2006-2012) reagiu dizendo que falta cultura ao mandatário argentino.

“Que tal a citação de Octavio Paz?”, ironizou, completando com outra citação: “Aqui dizemos ‘A culpa não é do índio, mas de quem o faz presidente”.

Já o ator e produtor mexicano Gael García Bernal, de filmes como “Amores Brutos” (2000) e “Diários de Motocicleta” (2004), afirmou que o comentário do presidente foi “desagradável e antipático”, uma forma de perpetuar a “narrativa do colonialismo extrativista”.

O crítico e escritor mexicano Rafael Toriz, que mora há oito anos na Argentina, publicou no jornal Clarín um artigo em que manda Fernández se olhar no espelho.

“De alguma estranha maneira, é como se sob este céu não existissem os fatos, apenas suas interpretações, incluindo algumas anacrônicas e decadentes, como a do presidente Alberto Fernández”, escreveu.

“Ainda que o estado de nossas democracias possa hoje levar a pensar nos atos de magia próprios dos mágicos e saltimbancos que costumavam tirar algum coelho da cartola, tanto mexicanos como brasileiros ‘não saímos de lugar nenhum’, mas somos a mistura dos povos europeus com os indígenas americanos, somados aos negros trazidos aos milhões durante os diversos processos de dominação e colonização do continente.”

Figuras públicas argentinas com frequência cometem o que a imprensa local costuma chamar de “gafe”. A frase racista, no entanto, revela um traço cultural profundo que minimiza ou mesmo nega a raiz mestiça da população, pensamento presente desde o século 19 entre intelectuais e governantes importantes. Obviamente não se trata de uma postura de toda a sociedade, mas muito marcada na elite.

O ex-presidente Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888), autor de “Conflicto y Armonías de las Razas en América” (conflito e harmonia das raças na América), por exemplo, falava da necessidade de “embranquecer a Argentina” para o desenvolvimento do país. Em seu mandato, estimulou a imigração de europeus com essa finalidade.

A teoria de Sarmiento influenciou seu sucessor na Presidência, Julio Argentino Roca (1843-1914), responsável por iniciar a Campanha do Deserto, em que, sob a justificativa de “levar civilização aos rincões do país”, o Exército argentino assassinou comunidades inteiras de índios ranqueles e araucanos, entre outros. Não há consenso quanto ao número de mortes provocadas pela campanha, mas historiadores renomados falam em genocídio ou em “impulso genocida”.

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