Muito além de crítico de fértil produção em torno da sétima arte,
era o intelectual que jamais vestiu fraque a cartola nem vocabulário
esotérico para exercer sua catequese.
Almir Feijó cruzou no meu caminho pela primeira vez nos finais dos 1960, quando, um rapazola, foi trabalhar no radiojornalismo da Rádio Colombo (então já de Erwin Bonkoski), e também como foca no Diário do Paraná, jornal que, habitualmente, abria portas para novos talentos. Ficamos amigos, eu acabei sendo padrinho do casamento dele com Anete Boule, psicóloga e excepcional ser humano. Triste: o casamento não durou muito, e desse período fiquei com algumas boas lembranças, como conhecer a família de Anette, particularmente seu pai, Israel, um sábio.
ENTREAJUDA
Almir e eu ficamos amigos, nos entreajudávamos. A tal ponto que em momentos difíceis como aqueles em que vivi com caixa baixa, nos anos 90, fui obrigado a me desfazer de parte de uma boa pinacoteca paranista. Almir comprou parte de meus os quadros, sem discutir, incluindo um Viaro, um De Bona, um Nísio. Pagou um valor expressivo para a época; era o valor real das preciosidades em artes.
Algumas das telas e desenhos voltariam a mim, poucos anos depois, quando a roda da fortuna mudou de endereço: eu acabei comprando alguns dos meus ex-quadros para desafogar o amigo Feijó. Rodolpho, o filho de Almir com Marlene Zanini, uma mulher singular, com biografia e história como vereadora de Curitiba, foi um dos bons presentes que o casal me deixou. Pouco nos vemos, Rodolpho e eu, mas os traços do pai e da mãe nos unem.
Sempre houve alma de artista dividindo o Almir Feijó, misto de publicitário e jornalista, atividades em que se saiu bem. Viveu momentos de fausto na publicidade, mas, como o descreveu José Maria Correa, Almir não era de entesourar. O dinheiro foi transformando-se em viagens pelo mundo, para rever Rodolpho, que estudava na Inglaterra e Holanda; outras para reencontrar o irmão, psiquiatra estabelecido em Itália. Sem contar as de puro lazer com imersões em universos culturais em que o cinema era parte essencial.
A TELA GRANDE
Nestes momentos de despedidas, não me desfaço das marcas mais fortes que o velho amigo me imprimiu. A maior delas, a do apaixonado por cinema, a do conhecedor do cinema de A a Z, que jamais se furtava a discorrer sobre as fitas que, pré-Internet, ele vira todas na tela grande. E que estão, parte delas, no seu livro Descríticas.
Nos livros sobre a chamada sétima arte, se percebe não só o trato documental com que ele sempre contemplou o cinema. Impossível não identificar nele o catequista, o missionário que não se cansava de corrigir, observar verdades e mentiras sobre a chamada a arte do cinema. Isso sem jamais esquecer de desenvolver apurada análise de intenções, recados, mensagens e todo o conteudístico de uma fita.
Tudo isso vivendo no abundante espaço de sua memória prodigiosa e capacidade de computação raríssima. Por isso, deambulava com a maior naturalidade sobre rico legado de filmes que o século 20 foi pródigo em produzir. Tinha audiências exigentes, mas elas só ampliava sua gana sobre o cinema.
“MAKING OFF”
Dizer que conhecia tudo dos filmes era pouco. Almir conhecia até o “making-off” das fitas, em algumas apontando falhas que a nós passariam a descoberto. Mentiria se fixasse os interesses de Almir apenas no mundo do cinema. Hoje o revejo, por exemplo, a me pedir “luzes”, tal quando relatava supostas manifestações do sagrado, do extraordinário não explicável, momentos marcados pelo sobrenatural.
Jamil Snege
Para consumo externo se dizia, ora ateu, ora agnóstico. Como Jamil Snege, ele também por muitas vezes expôs a mim uma enorme leque de indagações, algumas das quais iam além de minha capacidade até de fazer exegese de textos bíblicos, ou mesmo responder sobre Mircea Eliade na medida em que ele requisitava.
Como Jamil – de quem foi amigo muito próximo, em meio a desavenças, desamores, falatórios, e “conversas de Matilde” -, ele percebia rastros do sobrenatural no dia a dia. Alguns desse rastros, chegou a confessar-me, atribuía a boa fortuna de certos momentos porque, afinal, teria cumprido certos rituais e “ordenamentos”. Até por isso, gostava de conversar sobre as manifestações religiosas do homem primitivo da Austrália, um capítulo da Antropologia sobre a qual poderia falar com desenvoltura.
UM AUTODIDATA
Lamento não ter me aprofundado mais na formação escolar de Almir, que em tudo sempre me passou a ideia de ter sido um autodidata. Não fez universidade, mas poucas vezes encontrei alguém com um português tão correto e com a capacidade de comunicar sob o mais claro ordenamento das modernas técnicas de texto. Nesse ponto, chegava a abordar comigo o momento histórico em que os jornais brasileiros foram se desgrudando dos “narizes de cera” e partindo para uma técnica jornalística em que o substantivo deve reinar quase absoluto, sem espaços “para fricotes” – como ele classificava certas colunas de jornal.
Sabia, nesse ponto, alfinetar poucos desafetos. No caso, ‘fricotes’ tinham o endereço do um colunista social com quem atuara em campanha de Requião, administrando o caso Ferreirinha… Dominava o inglês britânico e o americano, além do italiano e espanhol. E com eles repetia variadas cenas, sem faltar uma letra, dos filmes antológicos que faziam seu relicário fílmico. Era impressionante…
Um dia, ousei rememorar momentos de meu diretor predileto, o Alfred Hitchcock. Fiz uma rápida referência ao “Um Corpo que cai”, uma antológica peça do mestre do suspense. Mas, por ser amador, cometi algum impropério que feriu os ouvidos de Almir. E ele não se fez de rogado, fez comigo aquilo faria com qualquer um: dedicou minutos à correção (fraterna, claro), mas sem concessões nessa sua ação catequética. Sua pedagogia era conhecida, seu compromisso com o celulóide, inarredável.
NO DICIONÁRIO
Francisco Alves do Santos, jornalista, escritor, é autor do único dicionário do cinema paranaense. Nele, uma raridade, Almir é mostrado por suas muitas faces profissionais na história cultural de Curitiba (um resumo do texto está na coluna de hoje). Como também nesta edição do site o leitor encontrará a mensagem final de Rodolpho ao pai e uma “memória” de José Maria Correa de Araujo sobre o amigo que se foi. Para mim, na despedida de Almir me vem uma frase Sêneca, que um dia ele me citou, em latim castiço, o que dá a dimensão de sua formação cultural: ‘Otium sine litteris mors est e vivi hominis sepultura” .
José Maria Correa
O clássico que relembro, um predileto de Almir, é para registrar que ele, desde que passou para a Eternidade, não está vivendo o simples lazer (Otium). Mas por lá está tomando seu “tempo” com a “litteris”. Pois não vive numa sepultura!
NO “GURUATO” DO HOTEL DO COLONIAL
Quando for levantada a história integral de mundo boêmio curitibano, incluindo a periferia sempre esquecida, um espaço seguro caberá à coffeeshop de Hotel Colonial. Desculpas: o antigo Colonial, há anos se chama Deville, um hotel quatro estrelas, parte de rede hoteleira erguida pelo governador Jaime Canet Jr. e seus familiares, no estratégico começo da Rua Comendador Araujo. Alguns teimam em chamar a área de Batel, dado ao apelo do bairro chique.
Na verdade, é parte do Centro, a poucos metros da Praça Osório, onde por anos, a partir dos 1950 aos 70, numa mansão do clã Camargo, viveu e reinou Osvaldinho, misto de travesti, mordomo, um pioneiro da liberação LGBT. Reencontro-me hoje como aquele grupo composto de boa parte de amigos meus, “irmãos de fé”. Batiam ponto toda noite no Colonial.
Alguns deles, no dia seguinte, me apresentava uma espécie de resumo da “ordem do dia” em que Jamil Snege, ainda visto como espécie de autor maldito ou iconoclasta na Curitiba certinha, reinava. E colhia os dividendos de “O Tempo Sujo”, seu livro seminal, puro artesanato e experimentação narrativa sem par. Seria exagero dizer que Jamil era o guru do local, até porque os membros da confraria se autoatribuíam importância exagerada e liderança alta no estabelecimento cultural da cidade.
Cada um tinha vivências e feitos a serem partilhados; e superdimensionados, o que se explica diante de tantos astros reunidos sob um mesmo teto. Jamil, se não era o guru, tinha consciência de que ali se exercitava um guruato. E que das tertúlias fatalmente restariam matéria prima para alimentar seu engenho de cronista e romancista de raro coturno, de crítico de costumes. Alimentariam muito o publicitário também…
João Osorio Brzezinski
Além de Jamil, nesse mergulho, vou reencontrando outros ‘confrades’ que já se encantaram, foram chamados pelo anjo Samael – o Anjo da Morte da tradição judaica antiqüíssima. Era gente como Carlos Alberto Pessoa, o Nêgo Pessoa, e agora, desde domingo, Almir Feijó Junior. Às vezes, Tato Taborda aparecia, assim como João Osório Brzezinski, Fábio Campana, Lellio Sotto Maior, Jorge de Menezes, o primo de Jamil, Roberto Fonseca, respeitado hipnólogo, o notívago Poty….
Mas habitués que não faltavam mesmos eram Roberto Requião de Mello e Silva, José Maria Correa de Araujo, que davam a coloração política aos encontros. Almir e Jamil faziam exercícios criativos que acabariam ressoando na vida política do Paraná. Lá, em meio a cafés, uísque, foram dando passos para campanhas políticas que depois ajudariam a consumar o estabelecimento de um novo líder, Requião. Goste-se ou não dele, ele se tornou llíder.
Ali nasceu, pois – sob a codificação de Almir –, o mote que seria o responsável pela eleição de Requião a deputado estadual, ele aparecendo como uma espécie de Cavaleiro da Esperança: “Quem é Richa é Requião, Irmão”. Foi o ponto de partida da vida pública de RR. Ninguém pode me desmentir, ouvi esse relato dos dois publicitários que foram partes essenciais de meu caminhar.
A frase teve enorme poder de convocação a uma massa eleitoral que queria se desapegar da herança política da ARENA e PDS. Mais do que intuição de publicitários, o mote revela certezas de que José Richa acabaria sendo a síntese canalizadora do fim de uma ampla dinastia, a de Ney Braga, o modernizador do Paraná.
Almir Feijó Junior é saudade, desde domingo, 6, quando morreu vítima de uma série de “sinas”, com espaço para Parkinson e Covid. Mas tenho de testemunhar que ele exerceu um papel muito relevante na publicidade e, como consequência, na vida do estado. Isto tudo, sem embargo – ou até por mostrar sua ubiqüidade intelectual e criativa – quando administrava sua paixão maior, o cinema.