
“Bióloga de profissão e professora de coração”, como ela mesma se define, a curitibana Lilia Maria Pontoni Wachowicz fez magistério no Sion e leciona desde os 17 anos. Também atuou como pesquisadora, tendo inclusive participado da Expedição Antártica Brasileira em 1990. Dois anos depois, Lilia se mudou para a Holanda, onde constituiu família – tem duas filhas, Iris de 18 e Shayna, 15 anos. Ambas ainda vivem e estudam por lá, razão pela qual Lilia divide seu tempo entre Brasil e Holanda. Por aqui, a professora passa alguns meses do ano, tempo que usa para implantar o projeto Linha de Leitura em escolas brasileiras.
Prestes a completar 50 anos, Lilia Wachowicz se dedicou integralmente à educação nos últimos 15, aprendendo inglês, holandês e conseguindo os diplomas necessários para poder atuar profissionalmente na Holanda, onde deu aulas para turmas de alfabetização e Ensino Fundamental I por mais de uma década.
Ela falou à coluna sobre o projeto Linha de Leitura, que está sendo implantado com sucesso em escolas de Curitiba e Pinhais.
Como surgiu o Projeto Linha de Leitura?
A ideia do Projeto Linha de Leitura surgiu nos últimos cinco anos, quando me desliguei da escola onde lecionava e resolvi trazer para o Brasil minha experiência profissional com as diferentes metodologias holandesas, entre elas a do ensino e prática da leitura nas escolas. Essa prática se dá a partir da alfabetização e durante os cinco anos seguintes.

A importância que se dá à leitura na formação dos estudantes, e a sua prática no dia a dia dos holandeses, sempre me impressionou. Segundo pesquisas, a média de livros lidos anualmente no país é de 15 a 18, sendo que no Brasil não chega a quatro. Acredito que essa gritante diferença se deve – além, é claro, das diferenças culturais, econômicas e climáticas – à metodologia de leitura utilizada nas escolas holandesas, durante os primeiros anos do ensino fundamental, na escola De Kinderarcke, em Rijnsaterwoude.
Essa metodologia é exigida pelo Ministério da Educação da Holanda, desde os anos 1970, fazendo hoje, obrigatoriamente parte da grade curricular de todas as escolas do país. Aos 12 anos, a maioria das crianças holandesas, atinge um nível de leitura adequado, baseado na leitura por minuto de um determinado número de palavras e na sua complexidade gramatical. A leitura se torna mais fácil e prazerosa, exatamente na idade em que ainda ludicamente a criança está aprendendo, sem sentir, o valor e o hábito da leitura no seu dia a dia, o que influência no desempenho do resto de sua carreira escolar e profissional.
A aumentar a velocidade da leitura gera benefícios no aprendizado e na atenção na vida adulta?
A idade em que o projeto é aplicado é fundamental, pois aproveita a fase lúdica da criança e a sua rapidez na leitura a ajuda a interpretar melhor o que lê. O projeto em si não trabalha a interpretação da leitura, já que é feita diariamente por apenas 15 minutos, e não se tem tempo de trabalhar nada mais além da prática da leitura, em voz alta e em duplas de leitores que estejam no mesmo nível. Atividades de caráter interpretativo são feitas constantemente em sala de aula, durante as atividades na maioria das disciplinas. Depois que a leitura atinge um nível de automatização, a interpretação vem naturalmente.
Segundo o neurocientista francês, Stanislas Dehaene, a leitura molda o cérebro humano, preparando-o para assimilar habilidades impossíveis de serem apreendidas por iletrados. Crianças que aprendem a ler pelo método fonético processam primeiro o lado esquerdo do cérebro, e estabelecem relações imediatas entre letras e seus sons. Com isso, elas leem com mais facilidade e entendem mais rapidamente o significado do que estão lendo.
Crianças com dislexia, por exemplo, que aprendem a ler foneticamente, treinando o lado esquerdo do cérebro, têm muito mais chances de superar a dificuldade no aprendizado da leitura. Esse pensamento é compartilhado por numerosas pesquisas e estudos na área.
O Projeto Linha de Leitura é justamente uma proposta baseada nessas considerações, em que os 40 textos iniciais, de minha autoria, foram escritos respeitando o método fonético e visando desenvolver de forma mais eficaz a capacidade de leitura em complementação ao processo de alfabetização, automatizando o processo cerebral de identificação das letras, facilitando a leitura e possibilitando o processo de interpretação de seu conteúdo.
O projeto já foi aplicado em algumas escolas de Curitiba e Pinhais. Quais?
Atualmente, estamos expandindo o projeto-piloto Linha de Leitura na Escola Municipal Felipe Zeni, em Pinhais, que iniciou em março, com apoio do Rotary Clube-Oeste de Curitiba em parceria com Secretaria de Educação da Prefeitura de Pinhais. Nessa escola, 26% das crianças são de famílias de renda muito baixa ou quase nula. Quando o projeto foi iniciado, diagnostiquei através de testes de leitura que mais de 30% não estavam dominando a leitura, ou não estavam alfabetizadas. Depois da implantação em três turmas, retornei à Holanda. Quando voltei, em setembro, constatei ótimos resultados, em que só 15% dos estudantes ainda não atingiram o nível de leitura esperados, e estão quase lá. Além disso, foi constatado que em determinadas turmas não haverá reprovações este ano. Segundo as professoras envolvidas, isso se deve em grande parte ao projeto.
A Secretaria de Educação de Pinhais está satisfeita com os resultados e, no ano que vem, pretende expandir o projeto para as outras 20 escolas da rede municipal. Darei um treinamento às pedagogas e professoras, para que elas implantem o projeto nas escolas, com meu acompanhamento semanal durante o período em que permaneço no Brasil. Depois disso, na Holanda, meu atendimento às dúvidas será online.
No Colégio Sion, sedes Solitude e Batel, o projeto já funciona há mais tempo e faz parte da grade curricular. As crianças têm apresentado inúmeras melhoras no rendimento, principalmente nas turmas que hoje cursam o 6° ano da Solitude, que acompanham o projeto diariamente há mais de um ano.
Quando começa a aplicação na Escola Vila Torres? O projeto está sendo bem recebido pela Secretaria de Educação de Curitiba?
Além do projeto-piloto estar em expansão na escola Felipe Zeni, de Pinhais, comecei em setembro a implantação do projeto piloto na Escola Municipal Vila Torres em Curitiba, com apoio do Ministério Público – Promotoria de Justiça – 3ª Promotoria de Infância e Juventude Interesses Difusos e Coletivos, em parceria com a Secretaria de Educação de Curitiba, que tem acompanhado o processo de implantação com muito entusiasmo.
A escola atende a uma população muito carente, em que os pais apresentam o maior índice de analfabetismo da capital. Para proporcionar condições para que esses estudantes tenham um futuro melhor, o Ministério Público me procurou para iniciarmos o trabalho. Como o projeto respeita o nível de leitura e aprendizado das crianças e o seu tempo, os resultados da aplicação dessa metodologia serão melhor obtidos depois de alguns anos da sua implantação.
A fase inicial do projeto é a mais trabalhosa e demanda mais tempo. Só depois de diagnosticar, através de testes iniciais, o nível de leitura de cada criança envolvida é que se pode iniciar, em sala de aula, o que provavelmente acontecerá na próxima semana.
Quando o projeto caminha por suas próprias pernas, com um profissional capacitado para dar continuidade na minha ausência, é que deixo a escola, o que deve acontecer no final deste mês (outubro).
