quinta-feira, 30 julho, 2026
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OPINIÃO DE VALOR: ECONOMIA DE FRANCISCO: FRATERNIDADE ACIMA DA MERITOCRACIA 

São Paulo, o Apóstolo

(Da Pastoral da Cultura da Conferência do Bispos de Portugal; colaboração do Prof. Phd Antonio Felipe Wouk)

O futuro da fé cristã está ligado à capacidade das comunidades cristãs darem corpo ao sonho de Jesus, o sonho do Reino de Deus. As intuições e provocações devem tornar-se educação, sob pena de o cristianismo se tornar insignificante. Parece-me que hoje as nossas comunidades jogam a sua força profética na relação com os bens.

É indispensável, antes de tudo, intensificar a ação formativa a partir dos adolescentes e jovens, integrando aquela relação no itinerário normal da iniciação cristã e da catequese. Os percursos sobre a educação afetiva e sobre a educação econômica andam de mão dada, porque se tratam de dimensões do mesmo estilo de dom e partilha, reciprocidade e gratuidade.

BRAÇOS DA ÉTICA

A catequese cristã não pode ignorar a atitude evangélica que está na base dos dois braços da ética, a denominada individual e a social: distinção que tem de ser superada, porque é “social” também a educação sexual, e é “individual” também a educação econômica e ecológica. O respeito pela vida nascente e morrente deve andar a par com o respeito pela vida marginalizada e indigente; a paz e a não-violência nas relações entre homem e mulher vão de mão dada com a paz nas relações sociais e internacionais; a castidade – isto é, o respeito pelo outro e a recusa da exploração – nas relações sexuais é simultânea à castidade nas relações sociais, étnicas, ambientais e inter-religiosas.

Uma das experiências pastoralmente mais dolorosas é ver as nossas comunidades cristãs divididas naquilo sobre o qual deveriam manter-se unidas, melhor, profundamente enlaçadas. Feria-me, primeiro como pároco e agora como bispo, registar no povo de Deus – inclusive em nós, ministros – uma espécie de fratura vertical entre quem leva por diante os valores da pessoa e da família, e quem empunha o porta-estandarte da sociedade e do ambiente natural. Se somos verdadeiramente católicos, não podemos adotar a disjunção, mas a conjunção.

ESQUERDA & DIREITA

Enquanto a vigília pela paz for de esquerda, e rigorosamente frequentada exclusivamente por católicos “progressistas”, e a vigília pela vida for de direita, e reservada de facto aos católicos “tradicionalistas”, a Igreja permanecerá dividida. Enquanto o Dia da Criação for de esquerda e o Dia da Família de direita, continuaremos a ferir-nos uns aos outros.

Uma coisa é a maior sensibilidade por uma ou pela outra dimensão ética cristã – sensibilidade que despende das histórias pessoais e dos desafios da história –, outra é a absolutização de uma só dimensão, transformando inevitavelmente a pertença católica numa batalha “contra” outros católicos.

COMUNIDADES DIVIDIDAS

Este panorama não surpreende, porque desde os tempos de S. Paulo as comunidades estavam divididas, como demonstram os partidos de Corinto (cf. 1 Coríntios 1,12); e se não surpreende, também não deixa de magoar. A divisão tira força interior à evangelização. «Tudo esta ligado», «tudo está em relação», numa espécie de fraternidade universal, como repete a “Laudato si’”: relação com Deus, sexualidade, família, pobres, justiça, trabalho, paz, salvaguarda da criação… São temas transversais que interagem.

EDUCAR PARA O DEVER

No caso específico da formação respeitante à economia, é preciso educar para o dever e para o interdito: os deveres derivam de um uso casto dos bens, que são sempre meios, e nunca fins, e da necessidade da sua partilha, do controlo dos investimentos para que não favoreçam transações ilícitas e imorais, como as de armas, a proibição da especulação e do jogo, o dever de pagar os impostos, o dever do respeito pela criação, a par de uma visão crítica da denominada meritocracia, do “deus incentivo”, do dogma da eficiência, produtividade, rendimento e competitividade, os quais produzem os “descartados”; para afirmar, em vez disto, a cultura da honestidade, do dom e da misericórdia, que dá espaço também àqueles que não são vencedores e não são capazes de competir.

COMPETIR, LUCRAR…

Competitividade, lucro, competências: estas palavras, que em conjunto formam o conceito de meritocracia, não são, decerto, iníquas, mas tornam-se quando se proferem fora do contexto concreto. Uma certa dose de competitividade é necessária e favorece a qualidade; o lucro, quando é proporcional ao trabalho, representa um elemento da sua dignidade, porque «o trabalhador é digno do seu salário» (Lucas 10,7); a competência, que se apoia nos talentos de cada pessoa, é essencial para uma reta e ordenada distribuição e eficácia do trabalho.

DISCRIMINAÇÃO

O problema surge quando estas palavras se tornam discriminatórias para aqueles que não estão em condições de competir, não usufruem de lucro algum, e não têm os meios para desenvolver os seus talentos. «O mérito pode desempenhar uma boa função numa sociedade que já é justa, mas nas sociedades ainda não justas (e são as reais), a meritocracia, o governo do mérito, amplifica as injustiças. E é precisamente a fraternidade que faz a ponte entre uma pobreza a combater e uma pobreza a resgatar. Como escreve Edgar Morin: «A fraternidade infringe a lei de qualquer regime que comporte discriminação e opressão.

Escritor Edgard Morin
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