domingo, 26 julho, 2026
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OPINIÃO DE VALOR: ENTRE A EDUCAÇÃO DE QUALIDADE E O NEGÓCIO, VENCEU O NEGÓCIO NA UNIVERSIDADE POSITIVO

Ex-professora da UP fala do “vício da ambivalência” de uma instituição privada, mas que tentava investir na educação

Ainda era um negócio e em algum momento virou um mau negócio.

GANGORRA DE GESTÕES

Desde então instalou-se uma espécie de gangorra de gestões, ora primando pelo negócio, ora primando pela educação de qualidade. Quando entrava uma gestão que promovia corte de custos, corte de cabeças, tesouradas nos projetos pedagógicos e mais toda parafernália organizacional de coaching, mentoring e as malditas palestras motivacionais, o estrago era enorme, as notas no ENADE despencavam, a insatisfação dos professores e alunos era óbvia.

Então outra gestão tomava a frente e contratava doutores, cobrava produção científica, criava projetos de extensão e investia na pós-graduação, gastava muito e era substituída. E vinham outros gerentes e superintendentes. Cabeças rolavam e cursos fechavam, mas nesse movimento cíclico em que sempre havia alguma compensação, de alguma forma nós professores não víamos (ou fingíamos não ver) para onde estávamos indo.

VENDA E DEMISSÕES

Primeiro instituíram um plano de carreira bem pouco favorável para os novos professores, com a subsequente demissão dos professores contratados pelo plano antigo, começando por aqueles que tinham doutorado e mais anos de casa.

Depois a venda para o Grupo Cruzeiro do Sul.

E agora nos chocamos ao ver a forma de operar de um grupo que não sofre com ambivalências, que tem clareza de que é só um negócio e que não tem nenhum pudor ao oferecê-lo para os alunos: “Troque um curso presencial por dois EAD pelo mesmo valor”.

VÍCIO DA AMBIVALÊNCIA

Talvez eles não tenham se dado conta que herdaram uma instituição com o vício da ambivalência e o quanto isso pode os perturbar. Por enquanto, valem-se da pandemia para usar a estratégia que sempre usaram ao comprar uma unidade e que eles próprios chamam de Lista de Schindler, referindo-se a demissão em massa dos professores e funcionários que custam demais.

Segue-se a carnificina nos projetos pedagógicos, o corte nas horas de pesquisa e extensão, nas horas de orientação de Trabalhos de Conclusão de Curso e supervisão de estágio, o esvaziamento dos serviços prestados à comunidade.

“LISTAS DE SCHINDLER”

Muitos alunos pedirão transferência, muitos professores vão preferir sair, muitos ficarão por não terem opção ou por acreditarem que um milagre pode acontecer. E tem aqueles que surpreendentemente se alinham ao novo sistema, passam a defendê-lo como a salvação, reproduzem seus discursos pífios e criam novas Listas de Schindler, num esquema de servidão voluntária, como descrito por La Boétie: não vêem que estão a atirar-se para o meio de uma fogueira que não tardará a consumi-los.

De minha parte, vivo o luto de ver o estraçalhamento do curso de Psicologia que ajudei a criar, que coordenei e em que fui professora e a transformação da universidade em algo que não me parece promissor em nenhum sentido educacional. Talvez seja um bom negócio. Ou talvez só uma faceta a mais do projeto de destruição generalizada em que estamos [involuntariamente ou não] todos imersos.

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