
Angola está na ordem do dia no noticiário nacional: discute-se se foi lícita ou não a transferência de R$ 30 milhões trazidos daquele país africano pelo marqueteiro João Santana, responsável pela campanha da presidente Dilma. Uma palavra de peso, a de Elio Gaspari, diz que Santana agiu corretamente, pagou impostos, etc.
Mas o que importa é discutir se um presidente que se eterniza em Angola, Eduardo Santos, não comete um acinte contra um povo muito pobre, gastando R$ 30 milhões apenas com o marqueteiro? E mais: se isso não é uma afronta ao quadro de miséria e abandono a que foram relegados os angolanos cegos descartados pelo Governo de Angola em Curitiba?
Sobre o assunto a coluna ouviu a professora e psicóloga Leomar Marchersine, especialista no tema angolanos cegos. Leia:
P – Em algumas palavras, resuma a tragédia dos Angolanos…
R: Há quatorze anos, um grupo de crianças e adolescentes cegos foram separados de suas famílias em Angola e trazidos para o Brasil, com promessas de saúde e educação. O menorzinho deles, o Rui Kelson, tinha sete anos de idade e o mais velho, Wilson Madeira, tinha quatorze anos. Todos cegos em decorrência da guerra civil de Angola, por granadas ou por doenças. Chegando em Curitiba foram acolhidos pelo Instituto Paranaense de Cegos. Um deles faleceu há dois anos, o Francisco Kata Bengala, por doença pulmonar.
No IPC os angolanos encontravam consolo cantando. E chamaram a atenção pela sua afinação e harmonia de vozes. Foi assim que nasceu o coral Meninos Cantores de Angola, que os tornou conhecidos na cidade. No final do ano de 2014 o Consulado de Angola resolveu arbitrariamente leva-los de volta para lá.
Mas os meninos se recusaram, pois ainda não haviam concluído suas graduações.
Abandonados pelo Consulado passaram por um período horrível, vivendo de doações. Agora, começa uma nova história para eles. Obtivemos a concessão do visto de permanência no Brasil por tempo indeterminado, pelo Conselho Nacional de Imigração, com direito ao trabalho.
Receberam bolsas de estudo integrais do Prof. Wilson Picler, presidente do Grupo Uninter. Participaram do programa Caldeirão do Huck que lhes trará visibilidade nacional. E uma das moças ganhou o primeiro lugar no concurso internacional promovido pelo Club Soroptimista Internacional, havendo sido por mim indicada. São jovens, vigorosos, boas almas e alegres. Acredito num futuro para eles.
“PODEM FICAR SEM TETO A QUALQUER MOMENTO”

P – A situação de hoje, como é: onde eles moram? Quantos são?
R: Atualmente o grupo ainda está residindo no sobrado de três andares alugado pelo Consulado de Angola, na Vista Alegre das Mercês, de onde deverão sair o quanto antes, uma vez que o Consulado deve 22 mil a imobiliária, que está pedindo a casa aos jovens.
O grupo é formado por dez jovens. Residindo na mesma casa estão em oito pessoas.
Um deles vive na casa da namorada e uma das moças está morando em Porto Alegre.
Até o presente estão sobrevivendo com as doações de cestas básicas e material de higiene pessoal enviados pela Prefeitura de Curitiba, providenciados pelo Gerson Guelman. Como têm muitos amigos e são muito queridos, recebem doações de verduras, carnes e outros alimentos perecíveis.
Há uma criança no grupo, o Matheus, de três anos, vidente, filho da Marcela, que atualmente está com o filho em Porto Alegre.
A ajuda do Flavio Arns foi fundamental no início, quando ainda era vice-governador. Ele conseguiu que a Defensoria Pública Federal aceitasse conduzir o processo de pedido da concessão dos vistos de permanência no Brasil, ao Conselho Nacional de Imigração, pedido este caracterizado pela condição de casos omissos e especiais.
A Defensoria Pública Federal fez um trabalho brilhante, com argumentação irrefutável baseada na Convenção dos Direitos da Pessoa com Deficiência da ONU, da qual o Brasil é país signatário.
ESTUDAM JORNALISMO, DIREITO E INFORMÁTICA

P – O que estudam na Facinter, quantos são?
R: Oito dos angolanos são alunos bolsistas integrais do Centro Universitário Internacional UNINTER. Dois cursam Jornalismo, dois cursam Direito, um cursa Análise e Desenvolvimento de Sistemas, uma das moças cursa Pedagogia, e dois fazem Ciência Política.
P – Quais as possibilidades de emprego para o pessoal?
R: Possibilidades existem, uma vez que as empresas precisam contratar pessoas com deficiência para cumprimento da lei de Cotas. Entretanto, há uma resistência das organizações para este procedimento o que dificulta a colocação no mercado de trabalho qualificado. Mas, como os jovens angolanos são queridos em Curitiba, e são talentosos, estamos otimistas quanto a isso.
ANGOLA SIMPLESMENTE ABANDONOU O GRUPO
P – Angola simplesmente abandonou o grupo?
R: Sim, o governo de Angola abandonou o grupo que trouxe para o Brasil há quatorze anos, quando o menor tinha apenas sete anos de idade e o mais velho quatorze.
Comprovando o dito popular de que “o paternalismo é primo irmão do autoritarismo”, diante da recusa dos estudantes em regressar ao seu país de origem, cortaram os recursos financeiros com que os meninos se mantinham e os deixaram a sua própria sorte. Não poderiam ter agido dessa forma, uma vez que, em 2000, assumiram oficialmente a responsabilidade civil sobre os jovens no Brasil, em reunião no EREPAR, promovida pelo Ministro Sergio Coury, com as presenças do Consul e Vice Consul de Angola, do Ministério Público, do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência, da Polícia Federal, do Instituto Paranaense de Cegos e do UNINTER, na época em que os jovens sairiam do Instituto Paranaense de Cegos onde residiram desde que chegaram a Curitiba.
AGORA ESTÃO “POR SUA CONTA”
O Consulado enviou recentemente uma carta ao UNINTER, deixando claro que os jovens angolanos permaneceriam no Brasil por “sua conta e risco”. Isto é um absurdo pelo fato de serem pessoas com deficiência – cegos – sem recursos financeiros, em situação de vulnerabilidade. Mas não estão desamparados.
Principalmente nós, do UNINTER, os acompanhamos e orientamos incansavelmente.
NO PROGRAMA “CALDEIRÃO DO HULK”
P – Há possibilidade desses angolanos cegos serem contratados, já que são cantores?
R: Acredito que sim, principalmente depois do dia 16 de maio, quando irá ao ar o programa Caldeirão do Huck, no qual cantaram acompanhados de uma orquestra. Até agora, muitas empresas desejavam contratá-los para apresentações em eventos, mas deixavam de fazê-lo pelo fato deles não poderem dar recibo. Agora os vistos de permanência lhes dão direito ao trabalho e facilitará a vida artística dos mesmos.
P – Federações empresariais têm sido procuradas, com vistas a encaminhá-los a empregos?
R: Na verdade, desde que os vistos foram concedidos, ainda não tivemos tempo de fazer isto. Mas procuraremos a FIEP, a ACP, a OAB entre outras instituições que demonstram intenções inclusivas.
P – Fale o que mais quiser e achar valioso, como: como entrar em contato com eles.
R: Quero convidar a todos para assistirem o programa Caldeirão do Huck em 16 de maio, quando poderão perceber as habilidades, talentos e competências destes jovens cegos.
É preciso derrubar os tabus e preconceitos para que os empresários do Paraná se sintam motivados e desafiados a contratá-los em suas organizações.
Os contatos podem ser feitos no SIANEE UNINTER pelo telefone:
(41) 2102-3372
e pelo e-mail:
LEOMAR.Z@UNINTER.COM
