Com avanço da pandemia e aumento da pressão no sistema de saúde, cidades recuam em flexibilização e adotam medidas restritivas. Secretaria de Belo Horizonte diz que cidade terá de conviver com abre-e-fecha. Em Brasília, quantidade de novos infectados quintuplicou
Por Felipe Resk e Marco Antônio Carvalho / O Estado de S.Paulo
O número de casos de covid-19 subiu em ao menos 12 capitais brasileiras que deram início ao processo de retomada das atividades econômicas. Com o avanço pandemia e consequentemente o aumento da pressão sobre o sistema de saúde, algumas cidades já decidiram recuar da flexibilização e adotar medidas mais restritivas contra o coronavírus nos últimos dias.
Para fazer a análise, o Estadão levantou quantos novos casos foram registrados diariamente pelas capitais desde o início da pandemia, em março, com base em informações reunidas pela plataforma colaborativa Brasil.io. A reportagem comparou a média do fim de junho com a do momento em que a reabertura foi implementada em cada cidade, independentemente do grau de liberação, que varia de um local para outro.
AUMENTO NOS INFECTADOS
O levantamento aponta que, após o retorno de atividades não essenciais, houve aumento da média de infectados por dia em São Paulo, Belo Horizonte e Vitória, na região Sudeste. No Sul, as três capitais também estão com mais casos: Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre. Outras cidades que sofreram alta são Brasília, Campo Grande e Cuiabá, no Centro-Oeste, além de Salvador e João Pessoa, no Nordeste, e de Palmas, na região Norte.
O aumento da covid-19 não é uniforme entre as capitais. Em São Paulo, cujo plano de reabertura gradual foi implementado pelo governador João Doria (PSDB) no início de junho, o número de casos diários subiu 15%, variação que não levou ao aumento de internações. Já em Brasília, onde o governador Ibaneis Rocha (MDB) reabriu o comércio no fim de maio, os índices quintuplicaram ao longo do mês passado.
Foram consideradas na análise 18 das 27 capitais brasileiras. Nos locais descartados, ou ainda não há plano de retomada dos setores econômicos ou as ações começaram há menos de duas semanas, tempo considerado necessário por especialistas para avaliar possíveis impactos das medidas. É nessa situação que se enquadram as cidades de Goiânia, no Centro-Oeste; Aracaju, Maceió, Natal, Teresina, no Nordeste; além de Boa Vista, Macapá, Porto Velho e Rio Branco, na região Norte.
NA ASCENDENTE
Responsável por conduzir um estudo nacional sobre a propagação da doença, o epidemiologista Pedro Hallal, reitor da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel), afirma que o avanço notado nessas capitais “é muito natural”. “A hora de flexibilizar é quando a curva estiver na descendente. Quando flexibiliza na ascendente, o problema cresce”, explica. “Se a gente impedir o contato entre quem tem o vírus e quem está pronto para receber, conseguimos colocar a curva para baixo e assim dá para começar a reabrir.”
O controle de casos é o primeiro de seis critérios listados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para uma transição e manutenção de um estado de baixa transmissão. “A incidência de novos casos deve ser mantida em um patamar que o sistema de saúde consiga lidar e com capacidade clínica substancial de reserva”, descreve o documento, lançado em abril. Segundo a OMS, para fazer a retomada com segurança a transmissão deve estar controlada a nível de casos esporádicos.
PORTO ALEGRE E CURITIBA
Recuo também foi adotado em Porto Alegre, onde os casos dispararam um mês depois da liberação de diversos estabelecimentos, de comércios a igrejas. Lá, a média que era de cinco casos hoje está em mais de cem novos por dia. Em um mês, o índice de internações em UTI saltou 227% e atingiu o recorde de 141 pessoas internadas no início desta semana.
Em Curitiba, o comércio de rua voltou a funcionar ainda em abril, após a cidade registrar boa adesão ao isolamento social e taxa de infecção abaixo de 1, cenário considerado controlado da doença. Em maio, foi a vez de liberar shoppings e academias. Em junho, no entanto, o número de casos disparou e o prefeito Rafael Greca (DEM) decidiu retroceder a flexibilização, voltando a suspender as atividades.
Para o pesquisador Emanuel Maltempi de Souza, presidente da Comissão de Enfrentamento e Prevenção à Covid-19 da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a abertura pode ter sido precipitada. “A taxa de transmissão ficou abaixo de 1 por pouco mais de uma semana. Talvez, tivesse de esperar mais umas três semanas para cristalizar. Desde então a curva foi crescendo exponencialmente mas, por serem poucos casos absolutos no início, é difícil de perceber esse comportamento até a hora que atinge uma dimensão espantosa”, diz. “Chegou o momento em que é preciso tomar uma atitude enérgica para evitar a sobrecarga no sistema de saúde.”
NORTE E NORDESTE JÁ REGISTRAM QUEDA
Fogem ao padrão de aumento cidades que vivenciaram o pico da pandemia durante o mês de maio e adotaram medidas rígidas de isolamento na ocasião, só retomando as atividades após algum controle sobre a propagação. Nesses locais, a reabertura vigente há mais de um mês não mostram elevação nos novos casos. Ao contrário, há redução dia a dia, segundo o levantamento.
É o caso de Manaus, São Luís, Recife e Fortaleza – exceto a primeira, em todas o governo local chegou a decretar bloqueio completo das atividades, o chamado lockdown. Nas quatro cidades, os novos casos diários estão em queda de mais de 50% em relação ao dia da reabertura. Na capital do Maranhão, por exemplo, os 50 novos infectados representam uma redução de cerca de 80% ante os 300 infectados confirmados diariamente durante o pico de maio.
SP VÊ QUEDA EM INTERNAÇÃO
A Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo não mencionou os dados de novos casos na cidade na resposta enviada à reportagem. Em junho, foram 67 mil confirmações (60% a mais que em maio), maior patamar mensal da pandemia, mas uma aceleração menor do que havia sido constatada em maio (160% maior que abril). A curva menos acentuada habilitaria a reabertura. A pasta disse ter observado queda no número médio de pedidos de internação após a retomada gradual das atividades.
FOCO NA REGIÃO SUL
A prefeitura de Curitiba disse que a cidade segue a tendência da Região Sul, onde a onda de casos chegou tardiamente. “Como as medidas restritivas começaram bem no início da pandemia na cidade, houve grande adesão da população naquele momento. Com o passar do tempo, a pressão econômica pesando e o cenário mais confortável nos indicadores, percebemos o relaxamento das medidas”, declarou.
A administração municipal da capital paranaense disse não ter havido nada de errado no processo de reabertura que culminou no aumento de casos e reforçou que as estratégias levam em consideração monitoramento diário da propagação da doença e da capacidade de atendimento do serviço de saúde. A secretaria curitibana apontou ainda a chegada do inverno, “que é bem rigoroso”, como um dos fatores a serem levados em consideração, pois é um “período em que naturalmente temos mais casos de síndromes respiratórias”.
A prefeitura de Porto Alegre anunciou na sexta-feira passada que, a partir desta segunda, vai suspender atividades em igrejas, salões de beleza e academias, além de fechar o acesso a parques. O município também tem feito apelos para elevar a taxa de isolamento social.
