domingo, 22 fevereiro, 2026
HomeMemorialAmbiente urbano tem preciosidades que caminhada observacional revela

Ambiente urbano tem preciosidades que caminhada observacional revela

Mário Sérgio Freitas
Mário Sérgio Freitas

Cerca de 40 pessoas já confirmaram presença no primeiro sábado de maio, dia 2, em caminhada a partir da Igreja Nossa Senhora do Monte Bérico, abrangendo o bairro de Santa Felicidade.

Em fevereiro deste ano, com a realização da décima oitava caminhada observacional, 113 quilômetros foram acumulados em passeios a pé nos bairros de Curitiba, por um grupo informal de pessoas integrado por dezenas de participantes. Organizado desde 2010 pelos professores Mário Sérgio Freitas e Rafael Codognoto, o projeto das Caminhadas Observacionais tende a prosseguir, considerando a riqueza de possibilidades do ambiente urbano em nossa cidade.

A CADA ESTAÇÃO DO ANO

As edições acontecem ao ritmo de uma por estação, tomando sempre uma tarde de sábado, num circuito fechado cuja extensão média é de 6,5 km. Dezoito itinerários foram percorridos até agora. A participação é gratuita e aberta à comunidade.

Costuma tomar uma tarde inteira, sempre num sábado, cabendo a cada participante filtrar o ambiente urbano segundo seus próprios interesses, e decidir se vai produzir algum material com base nas observações: álbuns de fotos, ou vídeos, breves esboços à mão livre, colagens envolvendo sementes e penas coletadas, gravações de voz, haicais. Há os que se interessam por objetos descartados em caçambas, ou só relaxam e batem papo com os colegas do grupo.

NÃO É “EXERCÍCIO PUXADO”

Rafael Codognoto
Rafael Codognoto

A velocidade média prevista para os percursos, inferior a 2 km/h, não caracteriza atividade aeróbica. Porém, requer do participante a disposição de caminhar ao ar livre por toda a tarde, enfrentando rampas eventualmente elevadas. As regiões que têm relevo mais acidentado são naturalmente mais exigentes em termos de fôlego, contudo oferecem mais possibilidades de vistas interessantes.

O projeto de cada edição das Oficinas, que inclui a pesquisa do itinerário, os marcos de interesse e informações de caráter ilustrativo sobre o que se observa, é criteriosamente preparado pelos organizadores nos meses que a precedem, e divulgado com duas semanas de antecipação para uma lista de convidados. No projeto, fica estabelecido um local de concentração para 30 minutos antes da partida. Cerca de quatro horas mais tarde, o circuito, com o percurso médio de 6.500m, é normalmente encerrado no mesmo local da partida.

AVENTURA NO MEIO URBANO

Igreja NS Monte Bérico, em Santa Felicidade.
Igreja NS Monte Bérico, em Santa Felicidade.

Normalmente, as oficinas se restringem ao que pode ser observado externamente, a partir da via pública, mas nada impede que, desde que com permissão, haja às vezes o ingresso em espaço fechado ou particular. Os marcos de interesse incluem detalhes curiosos em fachadas residenciais e comerciais, objetos decorativos e plantas notáveis em jardins, esculturas em espaço público ou particular, grafites e outras modalidades de arte urbana, espécies de árvore presentes no paisagismo, monumentos tombados pelo patrimônio, estilos arquitetônicos e artísticos, os cursos d’água, tampas de caixas de inspeção, padrões de desenho em calçadas, áreas verdes, mirantes, alguns itens especialmente bizarros, e mesmo possibilidades imprevistas, como pássaros, pequenos mamíferos, lagartos, insetos, padrões gerados por reflexos ou sombras, formação de diferentes tipos de nuvem, ou fenômenos de luz na atmosfera.

PARA PARTICIPAR

Para participar basta comparecer ao local de concentração que é diferente para cada edição e divulgado com o projeto. Menores de idade devem vir acompanhados por um responsável. Não são emitidos certificados formais.

Uma lista de presenças funciona como registro de inscrições, e os endereços de e-mail são automaticamente incorporados à lista de convidados para as edições futuras. A atividade não demanda recursos financeiros por parte dos inscritos, uma vez que andar e olhar consistem em direitos do cidadão. O que cada participante deve trazer consigo é sua água potável, um pequeno lanche, filtro solar, e usar calçados confortáveis. Câmeras fotográficas e filmadoras devem ser utilizadas com critério, para não invadir a privacidade dos moradores. No mais, conta o bom senso que deve ter todo pedestre quando circula pela cidade.

CONDIÇÕES METEOROLÓGICAS

Apenas uma vez, na II Caminhada Observacional, houve necessidade de interromper o itinerário devido a um aguaceiro interminável, e adiar a continuidade para o sábado seguinte. Na maioria delas, houve caminhada com tempo seco, com uma ou outra interrupção até que passassem breves pancadas de chuva. De qualquer forma, no projeto divulgado costumam ficar previstos mais dois sábados possíveis para conduzir a atividade, no caso de tardes irremediavelmente chuvosas.

DESDE 2010

A edição inaugural das Caminhadas Observacionais realizou-se na primavera, em 20 de novembro de 2010, seguindo um roteiro que incluiu os bairros São Francisco e Mercês, com 33 participantes das mais diversas idades, níveis de poder aquisitivo, e também áreas de formação, como História, Jornalismo, Magistério, Fotografia, Assistência Social, Ambientalismo, Arquitetura, Artes Visuais, etc. A ideia deste projeto nasceu durante um curso ofertado em julho de 2010, que focou o tema da Experimentação Urbana, coordenado pelo Prof. Dr. Paulo Reis do Departamento de Artes da UFPR em Curitiba. Numa continuidade dos trabalhos do curso, foram agendadas breves oficinas produzidas pelos inscritos, como Arte Postal, Câmera Fotográfica Caseira, etc. Nesse contexto, nasceu a contribuição da Caminhada Observacional, direcionada aos colegas do curso e extensiva à comunidade de Curitiba, tendo sido divulgada por e-mail para um grupo de amigos. O entusiasmo inicial dos participantes encorajou a proposição de novas edições.

OS ORGANIZADORES

Mário Sérgio Freitas é fotógrafo amador e atua profissionalmente como professor de graduação e pós-graduação no Departamento de Física da UTFPR em Curitiba, tendo se doutorado em 2003 na área de Dinâmica Não Linear e Caos. Promove atividades de ensino que estimulam a criatividade do estudante na aprendizagem de Ciências, articulada com atividades de divulgação científica e cultural. Afora os trabalhos estritamente acadêmicos, produz fotografias artísticas que têm sido publicadas em páginas de internet sobre divulgação científica (Estados Unidos, Inglaterra, República Tcheca; 2007-2013). Desde 2010, teve trabalhos de artes visuais aceitos para exposições brasileiras e estrangeiras (USA).

Rafael Codognoto iniciou seus trabalhos artísticos no Centro de Artes Guido Viaro em Curitiba, sob a orientação de Maria Portiolli, Lizete Toscani e André Luiz Pinto Santos. É Bacharel em Pintura formado em 2009 pela EMBAP, e mantém seu ateliê no bairro São Francisco, em parceria com Luce Scettro. Seus trabalhos baseados nas técnicas de pintura e assemblagem têm sido expostos em diversos espaços de arte de Curitiba e outras cidades do Brasil e do exterior. Atua desde 2007 como Professor no Ateliê de Materiais Artísticos da Fundação Cultural de Curitiba. Desde maio de 2013, ocupa o cargo de Conselheiro Municipal de Cultura na Regional Santa Felicidade.

CAMINHADAS “ARRISCADAS”

Não há limitação de itinerários apenas aos bairros ditos “nobres”, dada a importância de também levar ao conhecimento do público o ambiente das regiões menos favorecidas da cidade. Na XVII edição, realizada em novembro do ano passado, o roteiro abrange os bairros do Prado Velho, Jardim Botânico e Rebouças, com a inclusão de uma breve passagem por quadras com fama de perigosas e habitadas por pessoas em condições de baixa renda.

Apesar das notícias sobre episódios violentos nessa região, a caminhada correu especialmente tranquila e sem incidentes, se bem que com um público menos numeroso que o usual, tendo até uma receptividade muito simpática e bem humorada da parte de vários moradores.

Leia Também

Leia Também