sexta-feira, 24 julho, 2026
HomeMemorialDANTE MENDONÇA, ALÉM DA LICENÇA POÉTICA

DANTE MENDONÇA, ALÉM DA LICENÇA POÉTICA

“Diário da Quarentena”, imperdível mergulho na alma da gente do Sul do país. Leitura essencial para o tempo de recolhimento e reencontro com curitibanos e seus feitos.

 

Dante Mendonça

Pela primeira vez, há pelo menos 50 anos, um livro de Dante Mendonça me chega às mãos de forma inesperada: “Alguém o entregou, foi deixado por uma senhora”- , diz o porteiro Celso, quase sempre bom avalista do próximo, mandando, em seguida, pelo elevador social “Diário da Quarentena”, edição da Esplendor.

Não minto: li, até agora, apenas três das crônicas desse escritor curitibano que, na minha opinião, é a melhor, mais forte e imbatível presença de catarinenses natos na Academia Paranaense de Letras (APL).

E ele não nega fogo: é escritor e jornalista por direito de conquista, caracterizado por independência e sem jamais catituar os poderosos ao derredor, qualidade rara em nosso universo de comunicadores (do mundo todo, é verdade, mas muito aperfeiçoada entre nós).

Dante não é apenas um requintado conhecedor da alma humana, das firulas da vida do Sul do país, um embebedado pela cultura popular, um tradutor, de forma especial, até de contradições e de momentos históricos da Curitiba que adotou a partir de 1960.

Não tenho dificuldades em enxergar nele um pouco de antropólogo, aquele cientista social que conhece amplamente o ser humano e seus universos – mediato e imediato. E que por isso, se o examinarmos apenas sob a ótica das “glórias municipais”, como diria meu inesquecível amigo Wilson Martins, já teríamos feito justiça a alguém que nos entregou momentos inigualáveis (é isso mesmo) da ficção/verdade, como no livro “Maria Batalhão”.

Mas a obra de Dante Mendonça extrapola as fronteiras das “glórias municipais”. O escritor vai às bordas do universal a partir do seu mundo imediato, o que é feito nada comum.

Capa do livro

Ah, você não o leu? Então, está em tempo de redescobrir o tempo perdido, mesmo sem as entonações proustianas…

Claro que vou consumir por inteiro o “Diário da Quarentena”, pois quero continuar com o espírito ligado a grandes símbolos de nossa Curitiba – nada a ver com o propalado amor à cidade do gongórico atual alcaide.

Um desses símbolos foi a feijoada do Onha, pai do meu compadre e afilhado João José Werzbitski (in memoriam), que por 20 anos mesmerizou os curitibanos, no Restaurante Embaixador, Rua Riachuelo, depois no Bacacheri. No livro de Dante as loas são para o seu Leonardo e seus filhos, acólitos prestimosos. Mas esqueceu de citar a mulher especial, inseparável de Onha, dona Janine, polonesa nata, refugiada da II Guerra na Bélgica, onde estudou em colégio de freiras e que naturalmente mostrava-se refinada, alegre, expansiva em pelo menos cinco línguas, que dominava. Tinha um “savoire dire” só dela.

Onha, João José, dona Janine, Wilson Martins são algumas realidades que têm pouco a ver com essa nova cultura popular, a das redes sociais, que as tudo permite e a todos abriga, garantindo amplo nível de irresponsabilidades. Esses nomes são de outra estratosfera, parte impostergável do “Big Bang” curitibano fortemente sedimentado a partir dos anos 1950/60.

Jaime Lerner, Fábio Campana, Luiz Geraldo Mazza, Mussa José de Assis, Cassina Lacerda são outros personagens dessa Curitiba em que Dante Mendonça transita com a destreza de um domador de histórias para garantir que o essencial de Curitiba passe para as novas gerações que nos sucederão. É um guardador de memórias, trabalha o fato histórico muito além dos “papers acadêmicos”. Por vezes, equilibra-se entre a ficção e a História, é verdade. Mas sem jamais omitir tonalidades curitibanas que ele, como poucos, tem ajudado a bordar. Pois é ator e diretor de cena na cidade em que escolheu para viver e retratar.

 

Leonardo Werzbitski, Maí Nascimento Mendonça, Fábio Campana, Cassiana Lacerda

Ah, não posso esquecer, por justiça, de Maria Luiza Grein Nascimento Mendonça, a Maí, companheira e o melhor ‘alter ego’ que Dante poderia ter escolhido. Um casamento que eu vi nascer nos anos 1970, em históricos momentos da imprensa paranaense, na redação do semanário Voz do Paraná(*), onde ele exercitava uma de suas qualidades, o jornalismo da charge que tantos incomodava aos poderosos do momento.

(*) Leia “Jornal Voz do Paraná, uma História de Resistência”, de Diego Antonelli, 2020.

Leia Também

Leia Também