domingo, 22 fevereiro, 2026
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A fantástica história de pioneiros e um visionário

Eloy Setti, Irineo Costa Rodrigues e Joseph Smith (fundador do Mormonismo)
Eloy Setti, Irineo Costa Rodrigues e Joseph Smith (fundador do Mormonismo)

Eloy Setti, 64, é jornalista formado pela UFPR em 1975. Sua vida é marcada por uma causa: depois de ter enfrentado redação de jornal de O Estado do Paraná, por longo período, cobrindo agrobusiness e, adiante, se tornado uma referência nacional em cooperativismo agropecuário, como homem de comunicação social da OCEPAR (Organização das Cooperativas do Estado do Paraná), consolidou-se como memorialista do sistema cooperativista.

Ninguém entende mais que ele no Paraná dos meandros do cooperativismo agrícola, do ponto de vista histórico.

Hoje Eloy já tem um expressivo portfólio de livros escritos sobre a inigualável experiência do cooperativismo paranaense. Com o trabalho, garante – discretamente e com eficiência, como é de seu feitio – o levantamento de um dos marcos mais significativos da economia do Paraná.

Um dos seus vários livros enfoca a história da paradigmática Coamo, a mais notável de nossas cooperativas; outro, da OCEPAR.

Do ponto de vista de resultados para nossa economia, leia-se o que diz a OCEPAR, sobre as perspectivas do sistema para este ano. Os dados abaixo permitem avaliar quão fértil é o terreno em que atua o escritor e jornalista:

“A expectativa é que essas organizações (cooperativas) contabilizem receita ao menos 10% acima de 2014, para algo entre R$ 46 bilhões e R$ 48 bilhões, calcula a Ocepar.” (Avi Site, de 9-4-15).

2 – A HISTÓRIA DA LAR

livro-da-Lar-ex_18_02_2014_Setti, que foi igualmente assessor de Imprensa da Emater, fundou Jornal de Cooperativismo, e também associação de jornalistas especializados em agronegócios do Paraná. Ele acaba de ter publicado pela Cooperativa Lar, de Medianeira, um livro fascinante, precioso do ponto de vista histórico:

“Uma História de Cooperação, Atitude e Amor”.

O livro registra uma das odisseias mais impressionantes do século 20: agricultores de origem alemã, em condições precaríssimas, enfrentando estradas esburacadas, vindos do Rio Grande do Sul, região de Cerro Largo, para colonizar Missal. E todas aquelas áreas de terra fertilíssima que Moisés Lupion havia entregue em 1963 a dioceses católicas do Paraná.

Alguns dos colonos trazia nas carrocerias, junto com seus instrumentos de trabalho, e tralhas, até vacas leiteiras e cavalos.

O espírito que animou os pioneiros teuto-gaúchos – dezenas de famílias, nas quais muitos de seus membros mal falavam o português – era o de lavrar as terras virgens tomadas por matas.

E plantar suas semeaduras, coisa que já não mais podiam fazer no RS, onde viam suas lavouras destruídas pela saúva. A saúva estava acabando com o projeto agrícola daquela parte do RS, nascida com os primeiros colonizadores alemães que lá chegaram.

3 – IRINEO COSTA RODRIGUES

Em 2013 a Cooperativa Lar completou 50 anos de existência (seu primeiro nome foi Comasil). As comemorações, em Medianeira, foram comandadas por Irineo da Costa Rodrigues, o agrônomo gaúcho que a preside, com enorme sucesso, e que foi personagem de meu livro Vozes do Paraná 3.

Da festa surgiu a proposta de materializar a história que, para mim, lembra-me de uma outra odisseia: a dos mórmons rumo ao Estado de Utah, nos anos 20 do século 19. Eles venceram as barreiras com carroções, empurrados a muque, quase todos.

Eloy foi convidado a escrever o livro. Aceitou o desafio. Nele faz justiça a quem operou a colonização, da qual resultou, depois, em cidades como Medianeira: o então bispo de Jacarezinho, dom Geraldo Proença Sigaud.

O prelado levou ao pé da letra as orientações de solidariedade cristã contidas na encíclica Mater Et Magistra, do papa (hoje santo) João 23.

Dom Geraldo chegou a flertar, por certo tempo, com linhas da TFP, contra a reforma agrária. Depois, mudou de rumos e foi o baluarte do projeto de colonização que possibilitou que 55 agricultores fundassem a cooperativa.

4 – BILHÕES DE DÓLARES

O faturamento da Lar, hoje, mede-se em bilhões de dólares/ano. Sua presença dá-se em 50 estruturas espalhadas no país, envolve milhares de cooperados e exporta para dezenas de países, como os árabes.

Até recentemente, sei, o grande abastecedor mundial da carne de franco para o McDonald’s era a Lar.

5 – “PECADOR” VISIONÁRIO

Impossível dissociar a colonização dessa imensa área do Sudoeste, a partir de Missal, sem ligá-la a um visionário, controverso, amado e odiado ao mesmo tempo. E de quem personagens remanescentes daqueles dias mostram ora como santo, ora como demônio. Trata-se do famoso padre José Backes, o condutor do projeto. Da mesma forma, o engenheiro Roberto Brandão – 87 anos, vivendo em Curitiba – foi um dos que garantiram a colonização. Mas Brandão é unanimidade quase positiva na memória dos remanescentes.

Eloy Setti, muito delicadamente, passa sobre o papel de padre Backes, omitindo seus inúmeros “pecados”, alguns graves – como possíveis desvios de recursos pagos pelos colonos -. Também não comenta acusações que davam o padre como envolvido com mocinhas da colônia e até uma freira.

Nem aborda um fato que hoje parece claro: padre Backes estava afastado legalmente (pelas leis canônicas) de exercer o sacerdócio, talvez devido à sua conduta. Mas ele continuava a exercê-lo, ao que parece sem contestações, pois era muito solicitado para missas, casamentos, batizados, etc.

‘Pecador’ além do que se poderia esperar de um sacerdote, Backes, na conta final, fica com o mérito de ter ajudado a construir um dos melhores braços da moderna civilização paranaense. Tal como Joseph Smith e Brigham Young fizeram com a civilização mórmon em Utah.

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