
Por Vinicius Sgarbe (*)
São dias sombrios em Curitiba. As nuvens escuras desta terça-feira anteciparam o entardecer, e parecia que era hora de ir para a cama às três da tarde. A vida faz mais sentido quando há sentido em cada coisa. E as “profundezas do subsolo”, nas palavras da poetisa curitibana Bia de Luna, faz contraste duro com a luz da liberdade. Já raiou um presidente sem classe em Brasília. Não se trata de ternos caros e rituais, mas da ausência de espírito republicano e de péssimo gosto para causas.
Um homem é o que defende. O que orbita em volta disso pouco ou nada importa para a vida eterna. Em dez anos, quem se lembrará e do quê? E em um milênio?
ELITES DAS CIDADES
Carregamos reputações frequentemente avassaladas pelas elites das cidades. Cada qual tem de explicar mil vezes a que veio, e por qual razão decidiu se humilhar para este senhor e não outro. Penso nisso quando funcionários de marcas famosas são impelidos a expressar satisfação na vida sofrível que podem ter. Para os menos materialistas, o servir a Deus, nas mais diferentes formas de fazê-lo, servir ao Deus que não tem nome, que está acima de todo nome, ainda é uma escolha.
Servir é uma escolha. Ser jornalista é uma escolha. Quando facilito trabalhos de desenvolvimento em comunicação, quando oferto consultoria técnica, um mundo tão rico aparece para as pessoas, tal qual uma experiência mística. Descobrir coisas sobre mim e sobre o outro. E sempre penso quanto privilégio temos nós, jornalistas, de viver sob a iluminação da criação rotineiramente.
NOSSAS CONEXÕES
Todos os dias, sem pular nenhum, perguntamos coisas aos outros, porque estamos interessados nos outros. As conexões que nos mantêm vivos têm a ver com você que lê este texto. Escrevemos, produzimos, gravamos, para nos relacionar com alguém. E se um alguém nos manda calar a boca, ficamos absortos em uma percepção de traição.
O presidente Jair Messias Bolsonaro não é alguém. Ele não pode ser levado em conta quando se trata de relação organizacional, como é o caso do contrato entre os repórteres e ele. É patológico. É clínico. É cinismo clínico. E os que o defendem às cegas, como é o caso de algumas igrejas que conheço de perto, precisam urgentemente reler o texto do bispo de Jerusalém, apóstolo Tiago. Quem quer andar com Deus, tem de ter comunhão com os irmãos e andar na luz.
HOMEM SEM LIMITAÇÕES
“Em uma coisa eu acredito: que a mente livre e investigativa do indivíduo é o que há de mais valioso no mundo. E contra uma coisa eu devo lutar: qualquer ideia, religião ou governo que limite o indivíduo. É isto o que eu sou e é isto o que penso. Posso entender por que um sistema baseado numa certa organização deva tentar destruir a mente livre, pois ela pode destruir tal sistema. Certamente sou capaz de entender isso, e o odeio, e lutarei contra ele para preservar a única coisa que nos separa dos animais não criativos. Se a glória puder ser morta, estamos perdidos”. (John Steinbeck)
(*) VINICIUS SGARBE, jornalista, memorialista digital.
