sábado, 21 fevereiro, 2026
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Testemunha privilegiada, Barletta fala de Brasil Pinheiro Machado

Prof. Brasil Pinheiro Machado e o jornalista Mauro Barletta
Prof. Brasil Pinheiro Machado e o jornalista Mauro Barletta

Mauro Barletta, 47, jornalista curitibano que se especializou em fotografia, em que faz arte de primeira qualidade, tem testemunho privilegiado de uma das personalidades mais fascinantes da História do Paraná, professor Brasil Pinheiro Machado.

A razão é esta: por 3 anos seguidos teve o privilégio de ser o leitor que levava ao intelectual, ex-interventor federal, ex-deputado, historiador de grande fôlego, o conhecimento de obras que a cegueira não mais deixava Brasil Pinheiro Machado ter acesso.

Para ser escolhido para fazer leituras para o intelectual cego, submeteu-se a provas. Uma delas, a de dicção, sem falar em conhecimentos gerais, em 1994.

2 – DE INÍCIO, SÓ PROFISSIONAL

Barletta fez um trabalho apenas profissional, de início. Depois, sei, foi se encantando pela personalidade e o saber desse intelectual aristocrata, que a cada trecho mais significativo de uma das leituras que lhe fazia o jornalista, pedia pausa.

Em seguida, renascia o professor universitário de História e Filosofia, e ex-reitor da UFPR, ex-chefe da Casa Civil, despontando o espírito crítico de um homem singular; fazia adendos, às vezes correções, outras, simplesmente explicava sua concordância com o autor.

Um dos mais significativos, a merecer as intervenções de Brasil Pinheiro Machado foi o magistral Roberto Campos, com sua “Lanterna de Popa”.

A vida e obra de Brasil estão facilmente acessíveis a quem queira ampliar sua visão desse homem especial, paranaense da dimensão de um Bento Munhoz da Rocha, por exemplo.

A oportunidade rara é a que apresenta a coluna: o testemunho de Barletta, que fez leituras para Brasil:

3 – A GRANDE AVENTURA

“Era dezembro de 1994, estava em casa, tranquilo, quando o telefone tocou.

Era o Maneco Dória, publicitário, pai do meu cunhado, perguntando:

– Mauro, tenho um amigo que está cego e precisa de um leitor. Um dos maiores intelectuais do país, perdeu a visão e precisa de alguém que leia jornal e livro para ele. Você topa?

Recebi a informação e aceitei na hora. Peguei o contato telefônico da pessoa, Brasil Pinheiro Machado e logo em seguida entrei em contato, agendando uma visita para o dia seguinte.

Na manhã seguinte fui à casa de Brasil Pinheiro Machado. Além de intelectual, já tinha sido governador do estado do Pr, prefeito de Ponta Grossa e fundador do curso de direito na PUC-PR E UFPR.

Chegando em sua casa, o próprio e o filho dele, Marcos Pinheiro Machado, já estavam à minha espera. No início já percebi se tratar o senhor um verdadeiro aristocrata. Era uma residência num bairro nobre e com diversos empregados.”

4 – TESTE: PRIMEIRA LEITURA

Prossegue o depoimento de Barletta:

“Logo me apresentei e recebi um texto para realizar a leitura. Após terminar, o professor Brasil adorou e ficou acertado que iria ler para ele, todos os dias, das 14h às 16h. Ao final de cada semana receberia 200 dólares.

O primeiro livro que li foi “Lanterna de Popa”, autor – Roberto Campos, 1850 páginas.

Esta obra retrata o Brasil econômico no período de 1945 até o final da era Collor, 1992. Foi fantástico, ao mesmo tempo treinava minha locução, absorvia informações, cultura e começava uma linda amizade com aquele Senhor. Após 4 meses acabei a leitura deste livro.”

5 – A “ERA DOS EXTREMOS”

Finaliza Barletta:

O próximo foi “Era dos Extremos”, autor – Eric Hobsbaw, igualmente fantástico, com 900 páginas.

Ao final de dois anos, já havia lido 5 obras literárias, entre as quais, “Mundo de Sofia”, “Mauad”, “Chatô o Rei do Brasil”, entre outros.

Ao término do segundo ano de leitura, 1996 – Dezembro, o Sr. Brasil ficou com deficiência auditiva e tivemos que interromper a atividade.

Em Outubro de 1997, o professor Brasil veio a falecer. Mas o importante foi a experiência de vida e a amizade que construí.”

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