
Recordemos a pandemia do coronavírus na particularidade de um evento pequeno: uma tosse. A tosse de alguém que estava sofrendo
Alexandre Ribeiro | Aleteia | Mar 15, 2020
A pandemia do coronavírus colocou o mundo em quarentena. As medidas de isolamento na China soaram para muitos como excesso de autoritarismo.
Mas, pouco a pouco, outros povos se viram obrigados a restringir a livre circulação de pessoas pelas ruas, cidades e fronteiras, tendo em vista a rápida propagação do novo vírus.
A quarentena obrigatória é a última de uma série de medidas de isolamento.
ANTES, AGLOMERAÇÕES
Primeiro, cancelam-se as grandes aglomerações de pessoas. Depois, suspendem-se as aulas em escolas e universidades.
Depois, fecham-se temporariamente fábricas e centros de serviço. Por fim, determina-se que as pessoas permaneçam em suas casas.
E assim se cria a ilusão de que o isolamento – ainda que necessário – é possível.
Mas não é.
No sentido correto do termo, isolar significa fechar todos os canais de contato de um sistema com o seu entorno. Um sistema isolado seria aquele que não troca matéria, energia e informação com o seu ambiente.
Mas tudo que existe troca matéria, energia ou informação com aquilo que o cerca. Uma árvore, por exemplo, mesmo que esteja morta, se decompõe, dando continuidade ao processo de relacionamento com o seu entorno.
NADA ESTÁ ISOLADO
Nenhuma pessoa pode se isolar completamente, mesmo que construa um bunker de sobrevivência (como algum milionário excêntrico poderia fazer), ou se mude para o alto de uma montanha numa região remota.
Em qualquer lugar que você esteja, você continua conectado ao seu entorno.

SÃO NECESSÁRIAS
Com isso, não queremos dizer que as medidas restritivas e de quarentena são inúteis. Muito pelo contrário, elas são necessárias e eficazes no combate à pandemia do coronavírus.
Mas elas não são medidas de isolamento. São apenas medidas restritivas de circulação e distanciamento social.
Isolamento é ilusão de que os problemas não chegarão até nós.
Uma ilusão de que aquela primeira tosse contaminada, da qual alguém padeceu há meses em Wuhan, nunca chegaria a nós.
Uma ilusão de que não somos determinados por aquilo que nos cerca.
Uma ilusão de que não temos nada a ver com os problemas ao nosso redor, estejam eles próximos ou distantes.
Quando a quarentena passar e o mundo voltar à normalidade, o que acontecerá em breve, se tivermos paciência e disciplina, façamos o exercício de recordar que o coronavírus não foi apenas uma pandemia.
ALGUÉM QUE SOFRE
Recordemos a pandemia do coronavírus na particularidade de um evento pequeno: uma tosse. A tosse de alguém que estava sofrendo.
E que esse pensamento nos ajude a cuidar de cada pequeno sofrimento, de cada pequena miséria, de cada pequena tosse.
E que seja assim por justiça e caridade. Mas, se assim não for, que seja pelo alerta.
O alerta de que, por mais recursos que possamos amealhar, nunca estaremos completamente isolados. Aquela pequena tosse chegará a nós.
