sábado, 21 fevereiro, 2026
HomeMemorial“Impeachment seria um suicídio coletivo”

“Impeachment seria um suicídio coletivo”

Luiz Fernando Pereira, presidente Dilma Roussef e Hélio Schwartsman
Luiz Fernando Pereira, presidente Dilma Roussef e Hélio Schwartsman

Luiz Fernando Pereira, 44, professor universitário, especializado em Direito Eleitoral, área em que tem reconhecido acatamento, respondeu à pergunta da coluna, assim formulada: “O impeachment da presidente está a caminho?”

Pereira tem cores políticas definidas: na juventude foi homem “à gauche”, hoje é um convertido pleno ao livre mercado e à moderação democrática, com visão de centro da questão brasileira.

Pereira é, antes do que qualquer outro título, um analista frio do quadro político atual. Suas opiniões contam muito. Ele é o que chama de “Doutor dos Políticos”, que, muitos, o procuram em busca de remédios para seus males.

Eis a breve entrevista com ele:

SEM PAIXÕES

1 – Quais são as chances reais de impeachment da presidente?

R- Há duas questões básicas para os que tentam prever a chance de impeachment. Faço aqui uma análise sem paixões. A primeira questão é objetiva. A inclusão do nome de tantos parlamentares na lista de Janot, incluindo Eduardo Cunha e Renan, dificulta o processo de impeachment – ninguém duvida. A derrubada da presidente passou a ser uma questão de suicídio coletivo.

CORTE CIRÚRGICO

2 – Com isso você quer dizer que o impedimento presidencial não interessa nem aos inimigos, como Renan e Cunha?

R – Seria complexo um corte cirúrgico para cassar alguns e poupar outros. Algumas espécies animais, como os lemingues – pequenos roedores escandinavos –, cometem suicídio coletivo, atirando-se de precipícios. Os políticos não têm esta tendência dos lemingues. À beira de um precipício, unem-se. ‘Esprit de corps’, como dizem os franceses.

É IMPROVÁVEL

3 – Assim, quais a chances reais do “impeachment’?

R – Objetivamente, portanto, o impeachment é improvável.

O problema é que a segunda questão não é objetiva. Falo da reação dos brasileiros. Impossível prever como vão se comportar no dia 15 de março – para quando está convocada a manifestação. Quem diz que sabe ou é vidente ou é mentiroso. O imponderável nesta análise ocupa um espaço muito grande para autorizar previsões seguras. Há dois anos Hélio Schwartsman citou na Folha de S. Paulo estudo de Philip Tetlock. Segundo Schwartsman, Tetlock coletou durante 20 anos cerca de 28.000 previsões acerca de eventos políticos feitas por 284 experts em diversos campos e de diversas orientações políticas. A conclusão básica é que eles se saíram milimetricamente melhor do que o acaso. Repito: milimetricamente melhor do que o acaso.

SÓ PALPITES

4 – Diante disso, não haveria previsão com mínimo de confiança, em política?

R – Não. Noutras palavras: previsão em política é pouco mais do que palpite.

Agora, se as manifestações tomarem conta do país (eu particularmente não acredito, mas confesso que é palpite), pode ser que os pequenos roedores do congresso não consigam segurar a força das ruas e caiam todos juntos do precipício – levando junto a presidente Dilma. Mas realmente é impossível saber. O comportamento humano é caótico. Mínimas alterações numa variável, explica Schwartsman, podem modificar dramaticamente os resultados. Façam suas apostas – sempre reconhecendo que se trata mesmo de um resultado quase aleatório. Um palpite, enfim.

Leia Também

Leia Também