sábado, 21 fevereiro, 2026
HomeMemorialLevantamento técnico vai mostrar o gênio Rafael Dely

Levantamento técnico vai mostrar o gênio Rafael Dely

Rafael Dely
Rafael Dely

A boa notícia para o Paraná é que o jornalista Marcelo Oykawa escreveu “Curitiba, o fazimento de uma cidade”, um amplo e irrestrito perfil da obra de Rafael Dely.

Sobre este assunto, aprofundarei na edição de amanhã considerações sobre ao livro já aprovado para financiamento da Lei Rouanet.

Marcelo sabe das coisas e foi do time dos ‘encantados’ por Dely e seus projetos que sempre privilegiaram o ser humano.

2 – UM ASTRO ÍMPAR

Hoje quero falar de vários ângulos de Rafael Dely: de todos os membros da equipe de Jaime Lerner, Rafael Dely é tido e havido, com justiça, como “um astro de excepcional brilho”, como me dizia ontem o jornalista e escritor Nilson Monteiro, que por anos conviveu com o urbanista, primeiramente como repórter da Gazeta Mercantil e, depois, como seu assessor na COHAPAR.

Incluo-me no rol dos que conheceram bem Dely, tendo convivido muito de perto, a partir de 1971, com ele e sua família. Acompanhei os grandes momentos da vida desse urbanista que deixou marcas muito suas – e indeléveis – na vida de Curitiba. A mais forte delas, não tenho dúvidas, foi a concepção do Sistema Trinário que garantiu a implantação de uma real novidade mundial, a partir dessa solução no sistema viário de Curitiba.

3 – VINHOS: PAIXÃO

Em 1979 viajei com Rafael Dely e Lídia a Paris e depois fizemos um amplo périplo, circulando com carro alugado por áreas como Strasburgo, Reims (em cuja catedral foi coroado Clóvis), Saint Odile, Obernai… Viramos a Alsacia, em busca de históricos pontos e das caves. Lá constatei mais uma vez a sabedoria do grande conhecedor de vinhos encarnado em Dely, que não cansava de descer às caves, fazer degustação, comprar preciosidades de vinhos franceses, discutir o tema com os vinicultores, dar sua aprovação ou não a cada taça provada.

Eu e Almir Feijó – e também Aramis Millarch, “in memoriam” -, fomos dos primeiros jornalistas “atraídos” por Rafael Dely; e ele atraído por nós. E nos mesmerizava com sua pregação de urbanista/sociólogo.

Com Millarch ele tinha encontros intermináveis, regados ao melhor “scotch” e MPB primorosa que a casa do jornalista oferecia, sob a supervisão de Marilena Millarch. O endereço era o da Rua Visconde do Rio Branco.

4 – MORADIAS POPULARES

Almir Feijó, uma rara capacidade de transformar em textos de qualidade situações técnicas e humanas, acabou sendo mais que amigo de Dely: foi por anos seu conselheiro e assessor na COHAB-CT, numa das mais férteis fases de Rafael, quando ele começou – antevendo o fato de que a cidade, nos anos 70s, não pararia de crescer. E por isso, começou a fazer estoques de terras para os conjuntos habitacionais.

As moradias populares, com Dely tinham de ser de bom gosto, diferenciadas dos tradicionais e “quadrados” padrões BNH. A começar que ele fazia questão de misturar casas térreas ao lado de pequenos edifícios, numa ‘mixagem’ exemplar, como foram as moradias da COHAB-CT em Santa Efigênia.

Em nossas intermináveis conversas sobre a cidade que ele mais amava – depois vinha Paris -, Rafael por vezes se vestia do grande sociólogo amador que era. Tinha visões de distribuição de renda a partir da dignidade da habitação que jamais percebi em outro ser humano. Mas nunca arredou o pé dessa definição: “viver, se vive com um copo d’água e uma banana, por dia. O xis da questão é a moradia…”

5 – ÀS VEZES, ELE PERDIA

Dely apostava tudo nos seus projetos. Às vezes perdia, como quando quis erguer em meio a moradias de classe média alta um conjunto habitacional, no bairro da Barreirinha (seria vizinho do Jardim Monjolo). A pressão, incluindo mídia, contra a presença daquela comunidade projetada (de pobres) – acabou inviabilizando a boa intenção, que era justamente a de permitir que os pobres partilhassem de espaço com os mais afortunados. Tinha uma visão de integração social ímpar.

Rafael foi assim a vida toda. Não poucas vezes se envolveu, como presidente do IPPUC, com polêmicas com amigos seus, donos do capital e de incorporadoras, que queriam – porque queriam – solapar limitações oficiais às suas ambições puramente mercantis.

6 – AGROVILAS

No último Governo Lerner ele comandou o projeto de agrovilas. O nome diz tudo. Acho que, nesse caso, Rafael não teve oportunidade de materializar toda sua capacidade criadora. Mas mesmo assim foi revolucionário, fazendo muitos homens do interior ter terreno e casa com dimensões suficientes para exercer sua agricultura familiar.

Rafael Dely era isso mesmo: um técnico com alma franciscana (ele era judeu, o que não impede de ter espírito de Francisco).

Mas era um franciscano de olhos abertos, como foi quando, dirigindo um dos programas habitacionais populares do Estado, insurgiu-se contra um deputado estadual, hoje ainda em plena ação. A causa foi simples: sócio de uma fábrica de portas e janelas, o deputado queria porque queria continuar fornecendo à COHAB portas fora dos padrões da ABNT. E com essas especificações únicas, estava acostumado a ganhar todas as concorrências, nas quais impunha suas dimensões.

Nessa ocasião, talvez Dely tenha ganho seu único inimigo. Mas ganhou a batalha contra a corrupção, uma luta sempre do Dely.

Para mim, a melhor definição sobre o papel de Dely eu a ouvi no discurso que Lerner fez à beira do túmulo de Rafael, no Cemitério Israelita de Santa Cândida:

– O Paraná encontra a presença criadora e bondosa de Rafael Dely em cada esquina de suas cidades…

Para mim, é bom saber que a escola de Dely gerou frutos. Dentre eles, o arquiteto Alex Dely, seu filho, com quem convivi desde quando ele era criança.

Alex vai seguindo algumas pisadas do pai, especialmente no trato com seus semelhantes, no que é também um fidalgo.

Leia Também

Leia Também