Nem de esquerda, nem de direita. “um humanista”, assim se declarou, em 2014, sem esconder que foi defensor de Leonel Brizola e de bandeiras “socialistas” do PDT, que fora seu partido. Surpresa: condenou negociatas de vereadores com o transporte coletivo, relações nada republicanas…
Lula e Dilma: admirações incondicionais de Greca… (Sérgio Lima/Poder360); Fernando Henrique Cardoso: decepcionou…
Rafael Greca, pré-candidato a prefeito de Curitiba pelo PMDB, em entrevista exclusiva para o Blog do Tarso, em abril de 2014, por e-mail, preferiu não dizer se é de esquerda, centro ou direita, mas que é um “humanista”. Deixou claro que o presidente do Plano Real foi Itamar Franco e seu Ministro Rubens Recupero. Alertou que Cassio Taniguchi (DEM), Beto Richa (PSDB) e Luciano Ducci (PSB) não fizerem nenhuma obra importante e que a Linha Verde não vale porque ainda não terminou e nem foi projeto deles. Denunciou que a excessiva terceirização dessas gestões engessou o Município, que perdeu em ousadia, coragem, eficiência e inovação, e que a cidade e a Câmara Municipal estão dominadas por interesses espúrios. Criticou a terceirização, que fazem o prefeito perder poder, que passa a ser um pagador de contas e a cada dia manda menos e paga mais.
BIOGRAFIA AD
Rafael Greca de Macedo nasceu em Curitiba, em 17 de março de 1956. É filho de Terezinha Greca de Macedo e do engenheiro Eurico Dacheux de Macedo e casado com a jornalista Margarita Pericás Sansone. É formado em Economia e Engenharia, com especialização em urbanismo. Membro concursado do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba.
Vereador, Deputado Estadual constituinte, Prefeito de Curitiba, Deputado Federal mais votado do Brasil, Ministro de Estado do Esporte e Turismo.
Recebeu inúmeras condecorações e prêmios internacionais. Entre os mais significativos, o “Prêmio Mundial do Habitat 1996”, ou “World Habitat Award 1996”, da Organização das Nações Unidas, pelo conjunto de sua obra humanitária. Escritor, poeta, editor e pesquisador da História, membro da Academia Paranaense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná. Presidiu a Companhia de Habitação do Paraná entre 2007 e abril de 2010, quando assumiu mandato de deputado estadual. Seu site é o http://rafaelgreca.org.br/.
Transporte coletivo: contra vereadores que aderiram ao “lobby” dos ônibus
ALGUMAS PERGUNTAS PERTINENTES
A seguir, escolhemos trechos da entrevista – enorme – concedida por Greca em 2014. Muitas respostas, diante do momentum em que o alcaide vive, em que tem de agradar à linha do presidente Bolsonaro e a onda direitista, ele pode hoje ficar numa saia justa.
– Blog do Tarso: Como foi sua carreira política até ser prefeito de Curitiba?
Rafael Greca: Ainda no Colégio Medianeira liderei a mobilização pela FIEL – Feira Intercolegial e Estudantil do Livro, que acontecia todo maio na praça Osório. Na Universidade Federal do Paraná fundei o jornal O Pêndulo, da escola de Engenharia, depois apoiado pelo DCE. Organizei o primeiro encontro pós-ditadura de Jornais Universitários do Brasil.
Criei, com apoio da sociedade curitibana, a Festa da Igreja da Ordem, para mobilizar a comunidade em torno de causas culturais e humanitárias.
“GAVETA DOS TRANSPORTES”
Acusado hoje de ter relações nada republicanas com os donos do transporte urbano de Curitiba, Greca desceu a lenha em vereadores daqueles dias pelo mesmo motivo:
– Vereador, eleito em 1982, participei da campanha das Diretas Já, liderei a bancada Pró-Cidade contra os vereadores “na gaveta” do transporte coletivo de Curitiba. Combati a tentativa de privatizarem a rede municipal de ensino. Criei um curso de urbanismo para meus colegas de Câmara entenderem a cidade que diziam representar. Promovia a despoluição visual da rua XV e do centro histórico, com a Fundação Roberto Marinho.
Fui aprovado engenheiro do IPPUC, em primeiro lugar no concurso público de 1990.
Rafael, Margarita Sansone e Lula.
LEONEL BRIZOLA, UM NOTÁVEL
Então deputado pelo PDT, liderei no Paraná o Movimento Nacional Leonel Brizola, ocasião em que convivi e conheci grandes brasileiros, o professor Darcy Ribeiro , o poeta Thiago de Mello, os deputados Brandão Monteiro, Bocayúva Cunha, Doutel de Andrade, Márcio Moreira Alves, os irmãos Villas Boas, Ziraldo, Millôr e a turma do Pasquim.
E depois da eleição a Prefeito, como foi sua trajetória?
Prefeito dos 300 anos de Curitiba (1993-1996), pude realizar 6.600 novas obras, além da usual conservação da cidade, em 4 anos. Não tive direito a reeleição, então proibida no Brasil.
Tive a alegria de criar e implantar – com a valorosa equipe da Prefeitura Municipal de Curitiba – programas depois imitados nacionalmente e no exterior:
Implantei a central de marcação de consultas e internamento hospitalar por telefone e computador – no meu tempo funcionava.
Fiz asfaltar os 3 anéis de ônibus interbairros. Pude comprar 99 ônibus biarticulados, levei a rede municipal integrada de transportes a todas as cidades metropolitanas vizinhas a Curitiba.
Canalizei, draguei e drenei a maioria dos rios de Curitiba, enterrando obras que não aparecem, mas são essenciais para o bom funcionamento da cidade.
GRANDES ESPETÁCULOS
REPORT THIS AD
Instalei o palco da Pedreira Paulo Leminski, aberta aos grandes espetáculos de José Carreras, Roberto Carlos, Ana Botafogo, Arthur Moreira Lima e Sinfônica Brasileira, Gilberto Gil e Caetano Veloso, Paul McCartney, em eventos de ingressos trocados por lixo reciclável.
Criei a Linha Turismo, com os primeiros ônibus urbanos do país, quiçá do mundo, movidos a biocombustível. Isto trouxe a Curitiba o senador Timothy Wirthy secretário de Meio Ambiente dos EUA e me levou a falar no circuito universitário da costa leste daquele país, o MIT – Massachusets Institut of Tecnologhy incluído.
Trouxe para Curitiba o Prêmio Mundial do Habitat de 1996.
Deputado Federal mais votado do Brasil em 1998, fui convidado a ser Ministro de Esporte e Turismo do Brasil e Ministro presidente do comitê ministerial binacional dos 500 anos do Brasil pelo presidente Fernando Henrique Cardoso.
Deputado Estadual presidi as comemorações dos 150 anos do Paraná, em 2003, ocasião em que lancei o programa Bibliotecas Cidadãs, e fiz editar a coleção Páginas Escolhidas – síntese da identidade paranaense em 5 volumes.
Greca faz digressão ainda sobre diversos assuntos, para depois responder a essa pergunta:
DE DIREITA OU ESQUERDA?
O senhor se considera de direita, de centro ou de esquerda?
Sou humanista. Adepto das ideias de Heráclito de Éfeso: você pode olhar diversas vezes um mesmo rio, nunca é a mesma água que você vê. Toda visão depende desde onde você olha.
Gosto também do pensamento lúcido da filósofa Hanna Arendt: o poder é uma fatia de cebola percorrida em sentido horário. Quando você está fora dele, todos estão à sua direita, ninguém à sua esquerda. Quando você chega ao núcleo, ninguém está à sua direita, todos estão à sua esquerda.
“PLANO REAL DE ITAMAR”
O senhor foi Ministro de FHC e hoje seu atual partido (Fruet) foi e é da base de apoio dos governos Lula e Dilma. Quem foi melhor no governo federal, PT ou PSDB?
– Assim como não se apita um jogo de futebol por vídeo-tape, não se pode comparar dois diferentes momentos da história nacional e da conjuntura econômica e política mundial que a influencia.
Cada momento é único.
O Brasil aplaudiu o fim da inflação e o plano Real – criado pelo Itamar Franco e seu genial ministro Rubens Ricúpero, que tive a honra de receber em Curitiba quando prefeito. Levei-o passear de biarticulado até o Boqueirão, o povo o aplaudia agradecido.
O presidente Fernando Henrique sancionou a Lei de Responsabilidade Fiscal e o Estatuto das Cidades. Perdeu-se em não capitalizar o estado com os dividendos econômicos das privatizações. Razão pela qual sofre as atuais acusações de privataria.
O presidente Lula, grande comunicador, mexeu com as estruturas sociais do país, devolvendo protagonismo ao Governo Federal sem brigar com as classes dominantes, banqueiros e grandes empresários.
LULA E DILMA: ADMIRAÇÃO
E mais disse Rafael Greca na entrevista de 2014:
– Lula surfou com competência e simpatia sobre a onda adversa do Mensalão. Escolheu o melhor para o Brasil, na pessoa da Dilma, com quem tive a honra de trabalhar enquanto – presidente da Cohapar – coordenei o PAC de Habitação no Paraná.
Jaime Lerner ou Roberto Requião?
Ambos pertencem à história de Curitiba e do Paraná. Juntos somam 15 anos de gestão municipal e 20 anos de gestão estadual. Tive a ventura, de trabalhar com os dois.
Eles me conhecem, sabem de minhas qualidades e defeitos. Quem não os tem? Ambos me escolheram seu candidato a prefeito de Curitiba, em momentos diferentes. Isto me honra.
Ambos sabem que o que me qualifica a ser pré-candidato a prefeito é meu amor pela nossa terra e nossa gente.
Quais suas críticas as gestões posteriores a sua na Prefeitura de Curitiba?
Diga você, rapidamente, uma obra importante depois que eu saí da Prefeitura?
“LINHA VERDE NÃO VALE “
– A Linha Verde não vale, porque ainda não terminou. Nem foi projeto deles.
A excessiva terceirização engessou a nossa competente Prefeitura, que perdeu em ousadia, coragem, eficiência e inovação. Hoje a cidade, com a Câmara Municipal dominada por interesses espúrios, está esmagada por interesses alheios à nossa história.
Qual sua opinião sobre as privatizações via Organizações Sociais – OS e a da Maratona de Curitiba? Vai manter o ICI se eleito?
CONTRA TERCEIRIZAÇÃO
– Terceirização faz o prefeito perder poder. Passa a ser um pagador de contas. Cada dia manda menos e paga mais. Ontem, fui ao Bosque Ucraniano. Até o museu de pêssankas – ovos de Páscoa pintados a mão – é terceirizado. Do 156 aos Museus, passando pelas Maratonas, Viradas Culturais, Natal, Transporte Coletivo tudo é terceirizado. 20% mais caro, no mínimo.
Isto significa que a Cidade perde e alguém embolsa.
– O que o senhor acha do partido do prefeito Luciano Ducci (PSB) em Curitiba, que mesmo com o nome “socialista” pratica uma política conservadora?
– Embora reconheça o valor do ideal de igualdade de oportunidades para todos, não conheço este PSB.
– Os moradores de Curitiba costumam votar nos candidatos da situação. O senhor imagina por que isso acontece?
– Nas últimas 4 eleições municipais os candidatos de oposição não discutiram a cidade. Ninguém pode amar – ou defender – o que não conhece. Sobraram à situação deitar-se – descansada – sobre os louros conquistados em outras gestões anteriores.
Repito a pergunta: diga rapidamente uma obra importante depois que deixei a Prefeitura? E repito a resposta: A Linha Verde não vale, porque ainda não terminou. Nem foi projeto deles.
UM VICE IDEAL DO PC do B?
– Quem é seu vice ideal? O senhor está conversando com quais partidos?
– Fui ao congresso municipal do PC do B. Fui à sede do PV. Conversei com o pessoal do novo partido Pátria Livre. Conversei com os históricos do PDT, com o líder do PT no Congresso Nacional. E, é claro, com os líderes nacionais do meu partido, desde 2003, o nosso PMDB. Sempre muito bem recebido. O PMDB do Paraná sempre esteve mais a esquerda do Nacional, em decorrência do Requião. O partido está em crise, já que quase todos os seus deputados estaduais abraçaram o governo neoliberal de Beto Richa? E o Municipal?
-Você refere episódios superados. No ano novo já recebi bons sinais do líder Caíto Quintana. Logo teremos novidades. O presidente Waldir Pugliesi foi a todas as plenárias que confirmaram minha pré-candidatura.
Presidiu a eleição do Diretório Municipal de Curitiba que consagrou nossa chapa Requião/Greca. Vencemos a convenção municipal com cerca de 807 votantes, 799 votos a favor. Isto num domingo de sol, em julho de 2011, sem mídia, sem máquina, sem comida, sem holerite do pessoal militante da folha, só no ideal. O partido está renovado, tem quadros qualificados, é muito jovem, usa twitter, facebook. Anda de bicicleta, ouve rock e pagode. Mas o importante é que não perdeu sua alma. É apaixonado por Curitiba e pelo bem que a cidade merece.
CLASSES PRIVILEGIADAS
REPORT THIS AD
– As classes A e B de Curitiba são privilegiadas. Quais suas principais propostas para a classe D e E? O senhor conhece a periferia atual de Curitiba?
O prefeito serve a todos, sem distinção de classe social. A cidade só melhora quando suas inovações não são de mercado, mas no campo social.
Um Restaurante de R$ 1 serve a todos porque amplia oportunidades, evita necessidade de pedir esmolas, alivia o conflito social.
Se um programa social da F.A.S. (Fundação de Ação Social) remove populações de rua, aliviando o risco social de pessoas excluídas – por exemplo, na cracolândia que virou nosso centro, os moradores mais ricos, sejam contribuintes do Centro, do Jardim Social, do Batel, ou do Jardim Los Angeles também ganham com isso.
Em ordem inversa. Na gestão Richa/Ducci morreram afogados por ausência de uma política correta de drenagem e dragagem dos rios tanto moradores muito pobres, cidadãos excluídos – que tiveram suas casas arrastadas de favelas beira rio – como um jovem casal da família Baggio que, com seu carrão, foi tragado pelo aluvião do rio Barigui, na ponte da rua Eduardo Sprada, junto aos condomínios de luxo que chamam de Ecoville.
Quero agradecer a oportunidade. Proponho que na próxima entrevista você me pergunte sobre ideias de futuro. A conquista da Prefeitura mais do que um trampolim político é ocasião de expor ideias, inovar, ousar, com a coragem daqueles capazes de escrever uma nova história.
Informo que organizarei neste primeiro semestre de 2014, um debate entre os pré-candidatos na Universidade Positivo, onde será possível a discussão do futuro de Curitiba. Obrigado pela entrevista e boa sorte!
Nos próximos dias entrevista com outro pré-candidato a prefeito de Curitiba. Aguardem!