quinta-feira, 16 julho, 2026
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“Doutora Morte”: Vanessa resiste ao esquecimento, pede justiça ao TJPR

Em novembro de 2019, ela foi às ruas de Curitiba, com grande cartaz, pedindo oportunidade de trabalhar. Em vão. Ao mesmo tempo, pede que a Justiça acolha a ação em que aponta morte de sua mãe como incúria da médica Virgínia Soares e do hospital que a atendeu. Vanessa repassa a triste história, com minúcias que clamam aos céus…

É difícil ficar impassível ao contato com Vanessa Rocha, 40 anos. Com obesidade avançada e dificuldades de locomoção (anda devagar, apoiada em uma bengala), Vanessa enfrenta as agruras de estar há seis anos desempregada. “Vivo de ajuda e doações dos poucos amigos que me restaram, mas não está sendo suficiente. Corro risco de ser despejada a qualquer momento”, explica. Ela vive sozinha em uma casa alugada, na Região Metropolitana de Curitiba. Com graduação e especialização na área jurídica, Vanessa ainda não conseguiu aprovação na OAB e, portanto, não pode advogar. Já atuou, porém, em alguns escritórios da capital, sempre em passagens breves.

Em um ato de desespero, como ela mesma define, fez um cartaz e foi às ruas do Centro de Curitiba pedir emprego, em novembro do ano passado.

Vanessa Rocha: confia no Tribunal de Justiça (foto André Nunes); médica Virgínia Soares, “doutora Morte” (Foto Daniela Pinheiro); ex-diretor do Evangélico, André Zacharow (Foto Daniel Castellano/Gazeta do Povo).

Chamou atenção, saiu em reportagens de jornal e TV, mas não conseguiu nenhuma oportunidade. “Entendo que o país tem milhões de desempregados, mas não é normal tanta dificuldade para conseguir uma vaga. Eu atribuo a isso o fato de estar lutando na Justiça, desde 2013, pela condenação dos responsáveis pela morte de minha mãe, uma das pacientes internadas na UTI do Hospital Evangélico, atendida pela médica Virginia Soares Souza”.

Na entrevista a seguir, Vanessa Rocha relata sua versão dos fatos e clama por visibilidade similar àquela dada à defesa da médica Virginia, que ficou conhecida pela imprensa como “Doutora Morte”.

Em resumo, como foi o caso da sua mãe?

Em 24 de janeiro de 2013, minha mãe deu entrada no Hospital Evangélico apresentando quadro de úlcera hemorrágica. O principal motivo que a levou até lá foi o fato de que demoraram a socorrê-la: passou mal às 6h da manhã, ligou para o SAMU. Ela tinha 56 anos, naquele dia teria consulta odontológica, por isso acordou cedo. A unidade de saúde mais próxima ficava a duas quadras da casa dela, mas levaram mais de uma hora para socorrê-la. Quando chegaram, minha mãe estava desacordada e tinha vomitado pelo menos meio litro de sangue. Ela estava com minha irmã e foi levada para a UPA do Campo Comprido, em estado crítico, onde fizeram os primeiros atendimentos. Depois foi encaminhada ao Evangélico por volta das 10h da manhã.

Ao meio dia, fui comunicada e, pelo horário, não pude fazer visita porque estava trabalhando, havia sido recém-contratada num escritório de advocacia. Mas meus dois irmãos estavam lá. No dia seguinte eu passei mal e fiquei em observação na UPA do Boa Vista. Também não consegui visitar minha mãe no final de semana.

Na segunda, dia 28, faria a visita de tarde, após o trabalho, mas no horário do almoço recebi mensagem da minha irmã avisando do falecimento da mãe. Estava previsto cirurgia, foi um choque para nós. Fui até o Evangélico para liberação do corpo. Quase três horas de espera, estava na parte interna do pronto socorro, quando vi uma mulher vindo, fumando lá de dentro. Depois soube que aquela era a médica da minha mãe, a Virginia.

Como surgiu a suspeita de que algo pudesse ter acontecido?

Eu estava em estado de choque, não reconhecia o corpo da minha mãe.

Quando me aproximei do corpo, vi que tinham feito traqueostomia. Meu irmão disse que, na noite anterior, recebeu ligação de um plantonista dizendo que minha mãe estava se recuperando bem. Não entendemos o que aconteceu.

Ela ficou menos de quatro dias internada. Fiquei com uma sensação de desconforto até o dia 19 de fevereiro, quando resolvi ir até a unidade administrativa do Evangélico pedir uma cópia do prontuário médico da minha mãe. O prazo seria de 15 a 20 dias. Quando ligo minha TV naquela noite, vejo a reportagem da médica Virginia saindo escoltada da delegacia do Nucrisa (Núcleo de Repressão Aos Crimes Contra a Saúde). Eu dei um grito.

A reportagem da TV dizia que, quem tivesse familiar internado na UTI, poderia prestar depoimento, pois a polícia estava levantando informações sobre o caso. Foi o que eu fiz. E quando fui até lá, tive a confirmação de que a morte de minha mãe estava sendo investigada e que ela seria uma das vítimas.

Que medidas foram tomadas por vocês?

Demos depoimento, eu e meus irmãos. Ela foi citada na denúncia inicial das sete vítimas, feita pelo Ministério Público. Soube disso, pois foi postado na internet uma cópia da denúncia, em um site de documentos.

Mas foi a partir daí que tive ciência sobre isso. Então entrei com pedido de autorização judicial para entrar no caso como assistente da acusação. Fui atendida. Mesmo se eu entrasse com uma ação individual, ela seria atrelada a este caso do MP.

E sobre o prontuário que foi solicitado?

Nunca recebi nada do Evangélico. Por telefone, me disseram que eu precisaria entrar na Justiça para obtê-lo. Como assistente da acusação, eu tive acesso ao prontuário. E lá está claro que os procedimentos executados em minha mãe não condiziam com o quadro de cura da úlcera. O termo de responsabilidade dos familiares estava em branco, meus irmãos não foram consultados a autorizar. Partimos desse princípio de ausência de anuência, até pela denúncia ao Conselho Regional de Medicina, que fiz na sequência. Apenas eu entrei.

Mas ela não foi cassada, recebeu apenas uma suspensão de 30 dias no ano passado. Por infração do artigo 1º e 41 do Código de Ética Médica: “causar dano por ação ou omissão, caracterizado por imperícia, imprudência ou negligência”. E o artigo 41 fala sobre indícios de eutanásia.

Qual a avaliação médica sobre o prontuário?

Em abril de 2013, com base nas minhas suspeitas, fui até o CRM e formalizei denúncia contra a Virginia. No ano seguinte, soube que decidiram instaurar um processo. O problema foi que, graças a uma reportagem que mostrou a solidariedade das entidades médicas com ela, nunca consegui um médico que analisasse o prontuário médico da minha mãe. Isso foi um problema inclusive durante o processo do MP. Ninguém queria analisar, se pronunciavam suspeitos. O prontuário acabou sendo avaliado por um profissional que possui especialização em psiquiatria, não em medicina intensivista ou clínica. Em resumo, ele apenas confirmou a versão da defesa no laudo. Repetiu trechos, aliás. Entramos com impugnação e o laudo foi refeito. Nesse segundo laudo, ele se inclinou a admitir que houvesse indícios de culpabilidade.

Em que estágio está o processo judicial?

Em 2018, o juiz absolveu a Virginia de seis das sete acusações. Em relação à minha mãe, foi impronunciada. Ou seja, nem absolvida nem condenada. Agora está nas mãos do TJPR para julgamento em segunda instância, onde a sentença pode ser confirmada ou reformada.

Foram levantados 1400 prontuários de pacientes da Virginia e encontraram 320 casos com o mesmo modus operandi e a mesma causa mortis. Não sei o que o MP pretende fazer com estes casos. No ano passado, a Justiça aceitou pedido do MP e mais dois pedidos de investigação contra ela, sobre outros pacientes. Está em tramitação.

E como foi seu envolvimento desde então?

Desde então, tive problemas familiares com meus irmãos. Não nos falamos mais. Tive problemas de saúde. Procurei outros familiares de vítimas, só consegui falar com quatro deles, três nunca consegui achar. Mas nenhum deles quis continuar recorrendo. Estou sozinha.

Nesse processo todo, nunca fui ouvida, nenhum veículo de comunicação nos deu espaço. Já a defesa da Virginia fez o que queria, armou um circo. O problema é que eles publicaram detalhes sobre o prontuário da minha mãe sem a autorização da família, no livro sobre o caso lançado em 2019.

Entrei com um processo contra a editora e os autores do livro, que está em trâmite.

Preciso que o assunto volte a ser debatido para que os desembargadores do TJPR se posicionem favoráveis, de forma unânime, pela reforma da decisão de primeiro grau.

Além disso, criei uma vaquinha online, mas não obtive êxito (www.vakinha.com.br/vaquinha/ajude-me-a-lutar-por-justica). Existe um “pacto de silêncio” também em alguns veículos de comunicação. Muitos optaram em não se pronunciar sobre fatos que envolvem o Caso Evangélico, depois da absolvição da Virginia em 2017. Para o público, a impressão que fica é que tudo se encerrou, o que não é verdade. Temo que a história caia no esquecimento.

Confesso que muitas vezes receio até pela minha vida, já que somente eu “tenho dado a cara a tapa” neste caso. Não estou bem de saúde, não consigo emprego. Preciso de uma oportunidade, apenas isso.

(entrevista a Aroldo Murá G.Haygert e André Nunes)

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NOVA CARA, NOVOS TEMPOS

Desde o ano passado o Hospital Evangélico de Curitiba – hoje Evangélico Mackenzie – representa outra realidade hospitalar.

Reverendo Juarez Marcondes

Hoje propriedade e direção do Instituto Mackenzie de Educação, o novo Evangélico sepultou a maior parte das mazelas que marcaram por anos (na administração de André Zacharow), a maior instituição prestadora de serviços hospitalares ao SUS em Curitiba.

O estado caótico daquele Hospital Evangélico então mantido pela falecida Sociedade Evangélica Beneficente (por dezenas de anos controlado pelo grupo político de Zacharow), é lembrança do passado. O grupo presbiteriano Mackenzie, de alta qualidade e apoiado por nomes como o do reverendo Juarez Marcondes, da Presbiteriana da Rua Comendador Araujo, deve ser saudado pela comunidade. Quase já colocou ordem ampla na casa.

No entanto, há passivos com que o Mackenzie terá de enfrentar, não só em respeito às leis dos homens, mas especialmente por seu compromisso com os postulados de amor ao próximo, a máxima evangélica.

O caso narrado acima por uma mulher em busca de justiça pela morte – desleixo imperdoável – de sua mãe, é comovente. Revoltante.

Como o caso de Vanessa foi impronunciado pelo juízo de primeira entrância (não houve decisão quanto a culpa ou inocência dos acusados), o TJPR ganha oportunidade de reparar danos. Quem sabe, chamando até ao banco dos réus antigos gestores do Evangélico que, por 20 anos, agiram ao bel prazer na casa, sem prestar contas à sociedade. E determinando as devidas indenizações aos familiares da vítima.

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