
Em outros tempos, Goura Nataraj, 38, o único vereador de Curitiba que conseguiu se eleger deputado estadual nas eleições de 2018, poderia até ser classificado como um “ecochato” e “bicicleteiro empedernido”.
Mas foi justamente porque não é político de uma só pauta, dono de enorme conhecimento da Curitiba onde nasceu, filho de um jornalista (Jacques Brand) e de uma psiquiatra (Margharida de Oliveira), que Goura vai muito além dessas pautas.
Coloca na vida pública seus conhecimentos da cidade e os fundados na Academia, na qual foi formado e pós-graduado que é em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Assim, faz da lógica o grande instrumento de cobrança de políticas públicas dos que administram Curitiba e também o Paraná.
É professor de ioga e tem fortes raízes espirituais ligadas à tradição hindu.
PROMESSAS, APENAS
Ciclo ativista de enorme repercussão entre os jovens que se preocupam com a mobilidade urbana e a qualidade de vida da cidade, ele não perdoa Greca de Macedo pelas promessas não cumpridas pelo atual prefeito. Uma delas, a de que implantaria 150 quilômetros de ciclovias na cidade, anualmente. O que significariam 600 quilômetros em quatro anos. E que também construiria ciclovias ao lado das canaletas de ônibus.
Foram meras promessas, entre tantas outras, observa.
RATINHO JUNIOR
Já quanto ao governador Ratinho Junior, olha-o com boa vontade. Acha-o alguém bem-intencionado, embora – observa “tenha passado 8 anos no Governo Beto Richa”, como secretário de Desenvolvimento Urbano, sem liberar na Comec os recursos que seriam necessários para Curitiba na questão do transporte coletivo, entre outros temas.
Acredita piamente que o governador, apesar de hoje liberar fartas verbas para Curitiba, que “Greca capitaliza para si”, não deixará de apoiar a candidatura de Ney Leprevost a prefeito. Leia a primeira reportagem da série:
EXAMINANDO A CIDADE
(10 de maio de 2019)
O que tem de errado na cidade? Você que a conhece bem…
Vou falar um pouco da minha experiência. Desde 2005, fui um dos criadores e faço parte do movimento pelas bicicletas. Conheci o Rafael Greca antes de voltar a ser prefeito, quando estava sem mandato, buscando se reposicionar na política. Nós, enquanto ciclo-ativistas, buscamos o compromisso dos políticos. Primeiro com o Beto Richa, depois o Luciano Ducci na prefeitura.

Em 2008 e 2012, nas duas eleições municipais, fizemos uma carta compromisso aos candidatos. Conseguimos juntar 2 mil pessoas, o projeto foi crescendo. E nos aproximamos do Rafael Greca, cobramos posicionamento, ele assinou a carta de compromisso. Em 2012, ele criticava a gestão do Ducci e dizia que faria 150 km de ciclovias por ano. Teve essa fala, se comprometeu na carta que apresentamos. Criação de ciclovias junto às canaletas, redução da velocidade no Centro, para priorizar a segurança, a Área Calma.
O Fruet criou na gestão dele, mas não foi ideia dele: nós apresentamos a todos aos principais candidatos de 2012: Fruet, Ratinho, Greca e Ducci.
O que mais o Rafael Waldomiro Greca de Macedo prometeu nessa época?
Ele também disse que faria 600 km de novas ciclovias e ciclofaixas na cidade numa gestão de quatro anos. Ele não foi eleito, e o Fruet começou a implantar algumas das políticas que levamos a ele. Ciclovias nas avenidas Sete de Setembro, João Gualberto, Paraná, na PUCPR. Não foi 150 km, mas foi em torno de 80 km. Foi uma gestão que deu visibilidade para a bicicleta. E o Fruet foi muito criticado, inclusive pelo Greca.
Depois, na campanha de 2016.
Greca tentou desqualificar depois, dizendo que “não bastava pintar tinta nas ruas” para incentivar ciclofaixas etc. Ele foi desrespeitoso.
Dizia que os ciclistas não podiam “infernizar” o trânsito. Nós fazemos parte da mobilidade urbana no mundo todo, valoriza-se o uso da bicicleta.
Eu vejo que Rafael Greca trata as coisas de forma muito demagógica. O que é vantajoso para ele politicamente ele faz.
Como você interpreta a questão do transporte público?
A forma como a gestão Fruet foi boicotada pelo governador Beto Richa foi vergonhosa. Ainda no dia da eleição do segundo turno, a primeira coisa que eles falaram é que “Curitiba voltaria a ter o subsídio do transporte”. Por que não tinha então? Ele não queria beneficiar a cidade em represália ao adversário político.
Acho que a política de transporte público é muito importante. Deveria estar acima dos interesses políticos dos gestores. Afinal, existem critérios técnicos.
A prefeitura para R$ 4,79, com subsídio estadual, e a população paga R$ 4,25.
E o escândalo do transporte coletivo: 70% estão na mão dos Gulin. Sem concorrência. Temos contratos sub júdice, das empresas com a prefeitura.
Da época do Beto Richa, estão sendo questionados na Justiça.
A gestão Greca de Macedo é transparente?
Voltando ao Greca, vejo ele como um prefeito não afeito à transparência.
Os mais de 200 contratos emergenciais, ou seja, sem licitação, privilegiando a Cavo Estre, empresa multinacional que comprou a Cavo.
Ganha contratos emergenciais desde o início da gestão.
Com lixo a gente gasta, por ano, quase R$ 200 milhões. Os contratos emergenciais são, por exemplo, de R$ 30 milhões. Sem licitação, com a justificativa de ser emergência.

O ICI continua?
Continua. Com R$ 120 milhões por ano. Só trocou o nome, deixou de ser Instituto Curitiba de Informática e virou Instituto Cidades Inteligentes. Teve um termo de adequação com o MP. E continua com o Jacobovicz.
Na sua opinião, o governador está beneficiando Greca com o subsídio?
Acredito que o Ratinho Junior tenha mantido o subsídio para o transporte de Curitiba como medida pensando na cidade, não pela relação com o prefeito. Ou seja, é prematuro dizer que ele esteja direcionando apoio prévio à reeleição de Rafael Greca em detrimento de aliados como Ney Leprevost, por exemplo.
Mas é preciso fazer uma crítica: o Ratinho foi secretário de Desenvolvimento Urbano na gestão Beto Richa. A Comec e o subsídio estavam na mão dele. Durante os quatro anos de governo Fruet, ele e o Richa não direcionaram (tais recursos em benefício de Curitiba).
Minha crítica ao subsídio é em relação à falta de transparência e critérios técnicos. Não critico o subsídio em si. O transporte coletivo de Curitiba, na forma como está, segue em rota de colisão para a falência.
Por que isso?
Estamos perdendo usuários ano a ano, seja para os aplicativos de transporte, seja para os carros. As pessoas têm um sistema que opera de forma precária, sem segurança, sem informação para os usuários.
Nós temos em média 60 mil pessoas por dia, já foi mais.
Qual a alegação da prefeitura sobre essa questão?
Pelo contrato com as empresas, a obrigação de renovar a frota é delas.
Mas a prefeitura está fazendo propaganda disso, já que deve estar usando recursos públicos da Urbs para isso. É nossa suspeita, mas não obtivemos acesso a essa informação.
Além disso, a gente constatou entre os contratos emergenciais empresas de limpeza e manutenção de prédios públicos. Nós constatamos que, em um ano, eles fizeram mais de 16 contratos emergenciais. Isso em 2017.
Você não tem um trato com a coisa pública de forma republicana, transparente, nem de respeito.
Outro caso: entrou uma empresa espanhola para o EstaR eletrônico, com aplicativo. Já foi divulgado. E também recebemos indícios para investigar isso junto ao Ministério Público. Não é pouco o valor.
(SEGUE)
