No começo dos 2000, conheci em Curitiba Paulo Nogueira Neto, professor da USP, biólogo, ambientalista, empresário de alto coturno, um dos poucos brasileiros reconhecidos internacionalmente por seu papel em defesa da Natureza, do meio ambiente e de tudo que signifique, de fato, preservação ecológica.
Não posso dizer que ficamos amigos. Sei que ele ficou fascinado pelo nosso trabalho no Instituto Ciência e Fé de Curitiba, e escreveu um longo artigo no Estadão de 7 de janeiro de 2000, sobre o Icfé.
Transbordou em aplausos às linhas mestras do Instituto.

MUITO DISCRETO
Agia sem autopromoção, embora sendo um dos concessionários da TV Globo na Região de Campinas, SP, e homem de mil e um empreendimentos comerciais.
Quem não conhecia o mestre Nogueira Neto ficou sabendo, na noite de 25, terça, pelo Jornal Nacional – e outros noticiários televisivos, e também pela web, rádio e jornais – que o morto foi mesmo alguém de uma série especial de seres humanos.

PRIMEIRO MINISTRO
Primeiro ministro do Meio Ambiente do país, no ano de 1973, então com o título de secretário nacional do Meio Ambiente, Nogueira Neto foi um ser galardoado por seus trabalhos em defesa da Natureza, com destaque para a vida das abelhas.
E pelo conjunto de sua obra-livro, conferências, pesquisas, recebeu o Prêmio Duque de Edimburgh, que lhe foi entregue em Londres pelo Príncipe Phillipe, em jantar e gala. Esse foi um dos prêmios de repercussão mundial que recebeu. Assim como, com discrição, ocupou posição dirigente na UNESCO sobre questões ambientais.
DINHEIRO VELHO
Milionário do ponto de vista material, de família paulista quatrocentona, dona de “dinheiro velho”, com múltiplos negócios em terras paulistanas, Paulo Nogueira Neto, 96, era voz acatada ainda hoje, embora vivendo, hoje, tempos mais ou menos retirados. No trato interpessoal era um gentleman na acepção da palavra.

NOSSO ENCONTRO
Meu primeiro encontro com o professor Paulo Nogueira ocorreu no ano 2000, que me foi apresentado por Evaristo Eduardo de Miranda, cientista, diretor da Embrapa Monitoramento Territorial, e também diretor do Instituto Ciência e Fé de Curitiba.
CIÊNCIA E FÉ
Evaristo entusiasmou o mestre Nogueira Neto, um católico muito interessado nas questões de ciência e fé, e ele acedeu em falar sobre o tema em Curitiba.
Sua conferência, aqui, foi um enorme sucesso de público, num tempo em que ainda não contávamos com a repercussão da web como temos hoje.
SEM AFETAÇÕES
Passei horas, depois, jantando e absorvendo, num restaurante da Praça do Batel, a sabedoria daquele homem simples.
Simples, sem afetações, fui descobrindo que o domínio da língua inglesa Paulo Nogueira Neto conseguira com sua preceptora, uma nobre senhora inglesa que o ajudou a se criar.
Trata-se de um marco na vida dele: a preceptora, segunda mãe, está enterrada no mesmo túmulo de sua genitora, em Campinas, explicou para dimensionar o carinho da família por aquela lady.
IMPROVISO “MILAGROSO”
Foi graças a esse domínio de berço da língua inglesa que Nogueira Neto – contou-me – se livrou de uma enorme saia justa, quando do jantar com o príncipe Phillip, ocasião em que recebeu o prêmio Duque de Edinburgh.
Aconteceu assim: tendo, por descuido, deixado as folhas datilografas escaparem para baixo da mesa, e não as podendo recolher (até para ser fiel ao protocolo), ele, com apenas uma folha na mão, improvisou o discurso de agradecimento. Para todos os efeitos, estava dentro do protocolo, que determinava a leitura do speech. Foi muito aplaudido. E ninguém percebeu que tudo fora improvisado, mas à perfeição.
HOTEL SIMPLES
Em sua vinda a Curitiba, fez questão de ficar hospedado num hotel simples, estilo IBIS. Pagou todas as suas despesas de viagem e ainda fez uma doação ao ICFÉ.
UEM, APLAUSOS
Lembro-me que ele fez observações sobre a qualidade de universidades brasileiras. Para ele, uma nota 10, com louvor, merecia a UEM, a Universidade Estadual de Maringá.

