sábado, 4 abril, 2026
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Morreu Maria Isaura, ignorada pela mídia e por governos

Maria Isaura Pereira de Queiroz: sem chamar atenção
Maria Isaura Pereira de Queiroz: sem chamar atenção

Se tivesse sido desportista, política ou artista do showbusiness, ou até mesmo uma “influenciadora” da Internet ou artista de TV, Maria Isaura Pereira de Queiroz, paulistana nascida em 1918, teria tido sua morte mancheteada país a fora. Nada disso aconteceu, nem a mídia tão pródiga ao mostrar os passamentos de artistas, nem governos tomaram conhecimento da morte da mestra.

Ela morreu no penúltimo dia do ano, na Capital paulista, pouco depois de completar 100 anos, sem sequer os dois jornalões de São Paulo registrassem sua morte.

Aliás, um deles simplesmente a colocou, sem qualquer referência à personagem invulgar da cultura brasileira, na coluna dos necrológios.

Passou por um defunto sem maior importância na vida do país.

COM BASTIDE

Dizer que Maria Isaura foi aluna e orientanda de Roger Bastide, por exemplo, só amplia as referências sobre essa socióloga brasileira, detentora de Prêmio Jabuti, que foi professor da USP, da Sorbonne, da Laval (Canadá) e outras tantas. Sua obra ampla volta-se muito aos estudos da sociologia do meio rural. Foi notável sua contribuição ao analisar fenômenos do messianismo brasileiro.

Um dos estudos mais importantes de Maria Isaura, tem tudo a ver com a realidade do Sul brasileiro: “A Guerra Santa no Brasil, Movimento Messiânico no Contestado”.

Foi pela leitura desse livro sobre o Contestado que me aproximei, nos anos 1980, da obra de Maria Isaura.

EM TRÊS CAMPOS

Conforme registra a biografia de Maria Isaura – descendente de paulistanos quatrocentões – a obra da socióloga abrange 3 campos principais:

Análises sobre a reforma e a revolução por meio dos movimentos religiosos, messiânicos e do mandonismo na política; os estudos rurais, com análise do campesinato brasileiro a partir da definição de grupos rústicos; e os estudos sobre a cultura brasileira, com destaque para as histórias de vida, relações de gênero e o carnaval.

PARA CONHECER

Suas maiores obras são: A Guerra Santa no Brasil: o movimento messiânico no Contestado (1957), O messianismo no Brasil e no Mundo (1965), Réforme et Révolution dans les société traditionnelles (1968), Os Cangaceiros: les bandits d’honneur brésiliens (1968), Images messianiques du Brésil (1972), O campesinato brasileiro (1973), O mandonismo local na vida política brasileira (1969; … e outros ensaios, 1976), Cultura, sociedade rural e sociedade urbana no Brasil (1978), Carnaval brasileiro: o vivido e o mito (1992), além de várias outras traduções para o Francês, Italiano e Espanhol.

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PRIMEIRA DEPUTADA

Nascida em São Paulo, filha de Maria Moraes Barros Pereira de Queiroz e Manoel Elpídio Pereira de Queiroz, teve seis irmãos. Foi sobrinha da primeira deputada federal da história do Brasil, eleita em 1934, Carlota Pereira de Queiroz. Incentivada desde pequena a estudar, seu pai e sua mãe a incentivaram a seguir carreira docente.

Cursou a escola primária e secundária no Instituto de Educação Caetano de Campos. Ingressou no curso de Ciências Sociais da Faculdade Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, em março de 1946, terminando a licenciatura em 1949. Ingressou no mestrado em Sociologia, Antropologia e Política pela Universidade de São Paulo, em 1951 e no doutorado em Sociologia pela École Pratique Des Hautes Études, VI Section, em 1959, com bolsa do governo francês.

NA ACADEMIA

Foi indicada como auxiliar de ensino da Cadeira de Sociologia I, na qual trabalhou no período de 1950 a 1955. Obteve equivalência do diploma francês em 1960, passando a Professora-Doutora na Faculdade Filosofia, Ciências e Letras. Foi elevada a professora adjunta em 1978, lecionando até 1982, quando se aposentou. Na França, lecionou na École des Hautes Études, nos anos de 1963 e 1964, no Institut des Hautes Études d`Amérique Latine, Universidade de Paris, de 1961 a 1970. Lecionou ainda na Université Laval, Québec, no Canadá, no 2° semestre de 1964; como Professeur Invité, em março de 1979, na Université des Mutants, de Dakar, no Senegal.

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