
Se eu tivesse que apostar agora eu diria que Cristiano Ronaldo será o grande nome da Copa e que Portugal, enfim, tem grande chance de conquistar o seu primeiro mundial de seleções.
AS COISAS MAIS IMPORTANTES
Diz João Pereira Coutinho, o melhor colunista em língua portuguesa da atualidade. E ele é patrício: “Era Albert Camus quem dizia que as coisas mais importantes da vida foram aprendidas num campo de futebol. Não vou tão longe. Mas como negar que o futebol dá o seu contributo, e não apenas para sabermos a profissão da mãe do juiz?”
SELEÇÃO NATURAL
Desconfio que a adaptação não é apenas um imperativo da seleção natural.
É uma condição de sanidade porque, como dizia o poeta, no final a casa sempre ganha (antes que os leitores eruditos me perguntem quem é esse poeta, digo já: ninguém; inventei).
REPERTÓRIO DA JUVENTUDE
Se assim é na vida, que dizer das artes? A mesma coisa. Tempos atrás, li algures que o pianista Arthur Rubinstein, quando sentiu que a destreza física já não era a mesma, não caiu na tentação fatal de continuar a tocar o mesmo repertório da juventude ou da meia idade.
PERFORMANCE
Não, não: escolheu repertórios mais limitados e compensou os estragos da velhice com mais prática e uma imaginativa “performance” dos tempos.
Rubinstein morreu aos 95 anos e teve uma carreira de 85.
MESSI E RONALDO
E o que tem tudo isso a ver com futebol? Duas palavras: Ronaldo e Messi.
Ou três: Ronaldo, Messi e adaptação.
NUNCA GANHARAM UMA COPA
O Wall Street Journal publicou um ensaio sobre ambos para dizer duas coisas —uma óbvia, outra menos óbvia: primeiro, que os melhores jogadores da atualidade nunca ganharam a Copa do Mundo; e, segundo, que os craques já não jogam como jogavam— uma evidência no caso de Ronaldo.
RÁPIDO COMO BOLT
Quando recuamos dez anos, encontramos um rapaz de 23 que rivalizava com Usain Bolt na forma como descia pelo corredor lateral, destroçava a defesa e fuzilava o goleiro.
REINVENTAR-SE
Aos 33, Ronaldo já não tem a velocidade dos 23. Duas hipóteses:
persistir na fantasia de que ainda está no início da carreira e arrastar-se pelos campos; ou, então, reinventar-se como jogador.
CENTROAVANTE
Ronaldo, com inteligência exemplar, optou por reinventar-se. Não é possível correr e driblar como antigamente? Pois bem: é possível ser um centroavante — e refinar, quase até à perfeição, o chute e as cabeçadas estratosféricas.
PEQUENAS JOIAS
O rapaz de 23 ganhava títulos e troféus. O homem de 33 continua a ganhar — com um repertório diferente. Quando já não podemos tocar as grandes composições de Chopin, existem pequenas joias de Mozart. Arthur Rubinstein que o diga.
A PALAVRA É: ADAPTAÇÃO
E para o leitor descontente com a idade, que pensa muitas vezes nos anos gloriosos que já não voltam, a mesma palavra: adaptação. Quem sabe? Nos melhores casos, será possível descobrir que o jogo da vida também tem prorrogação — e que, às vezes, menos é mais”.
