Zuenir Ventura estava coberto de razão ao constatar em seu “1968 – O Ano Que Não Terminou” que a revolução social pretendida pela juventude durante o regime militar no Brasil deu em revolução de comportamento. E olhe lá.
JANELA ALHEIA
Bom, eis uma boa notícia para Ventura: nada mudou. A preocupação do brasileiro em vigiar a janela alheia continua em marcha acelerada, agora com a ajuda das redes sociais. Não bastasse o gênero, a etnia, a mulata bossa nova, a cabeleira do zezé, eis o papel higiênico preto.
TENDÊNCIA DE DESIGN
Esta coluna já havia adiantado aqui, no final de semana, em nota, o lançamento do novo produto. Mas não poderia imaginar que a campanha, cujo slogan é “Black Is Beautiful”, suscitaria protestos. A peça publicitária estrelada pela atriz Marina Ruy Barbosa deveria só refletir uma tendência de design já existente no exterior. Deu em polêmica, que é prima-irmã do ócio, casada em segundas núpcias com a preguiça, avó da falta do que fazer.
APROPRIAÇÃO
Um escritor de nome Anderson França vociferou em altos brados contra o uso do slogan que seria uma apropriação do lema usado pelo movimento negro americano desde a década de 60. É o tipo de argumento que faz com que expressões como “preto no branco” ganhem as mais diversas conotações.
BRANCOS HORRÍVEIS
França diz que “Black is Beautiful”, se digitado no Google, vai levar a nomes como Malcolm X, Panteras Negras, Nina Simone, Rosa Parks, etc.
Deveria levar também à canção homônima interpretada por Elis Regina no álbum “Ela” de 1971. Composta por Marcos Vale e Paulo Sérgio Vale, a música, um soul, homenageia os negros bonitos da Rua do Ouvidor quando comparados aos “brancos horríveis”.
SÓ RINDO
Na época, em plena ditadura Médici, Elis foi questionada sobre o movimento “Panteras Negras” e sobre sua suposta simpatia com o ideário do grupo. Respondeu como fazia naquela época: rindo até mostrar as gengivas.
OUTRO PEDIDO DE DESCULPAS
De qualquer maneira, a política do pensamento venceu mais uma batalha. O slogan será retirado da campanha e Marina Ruy Barbosa já tratou de pedir desculpas, temendo um arranhão em sua carreira ou em sua conta bancária (o que vier primeiro).
QUE PAPEL
Quanto à cor do papel higiênico, a polêmica permanece. Anderson França diz que o preto não pode ser usado para limpar o excremento humano. Isso é racismo! Ora, que cor ele sugere? Por essa ótica, aliás, usar o papel branco poderia ser uma vingança contra os “wasps” azedos. Mas se é o caso de impor uma democracia racial, descarte-se desde já o amarelo. O vermelho também. Resta o azul, mas o azul é a coloração dos mortos. Não é o caso de insultar aqueles que descansam na eternidade. Que tal o verde? Sabe o verde? Aquele verde. O verde de raiva.
