Por Marilia Mesquita – Por trás de cada suor derramado no esporte e de cada grito abafado na garganta de um torcedor, existe uma engrenagem invisível, mas pesada: a política. A ilusão de que o esporte pertence a um limbo neutro é tão cômoda quanto falsa. Quem veste o uniforme de uma modalidade ou carrega o peso de uma paixão por um clube no peito sabe que o corpo em movimento é, inevitável e historicamente, um manifesto.
Como corintiana, carrego no DNA a herança intransigente da Democracia Corintiana. No início dos anos 1980, enquanto o Brasil ainda lutava para sair da escuridão da ditadura militar, o Parque São Jorge virou um farol e um laboratório radical de liberdade. Sob a liderança brilhante de Sócrates, Wladimir e Casagrande, o Corinthians provou que a gestão coletiva e a participação ativa eram possíveis. Ali, o clube não apenas entrava em campo para vencer, mas votava: diretores, atletas e comissão técnica decidiam juntos salários, contratações e rumos em pé de igualdade. Foi a prova máxima de que o futebol de massas pode e deve ser uma ferramenta de emancipação coletiva e um ato político de coragem contra o autoritarismo.
Mas a história do esporte nacional também guarda as cicatrizes profundas da censura, do controle estatal e do patriarcado. Poucas décadas antes, na Era Vargas, o Estado invadiu diretamente os vestiários e as pistas para ditar regras sobre a vida alheia. Pelo Decreto-Lei nº 3.199, assinado por Getúlio Vargas em 1941, as mulheres foram formalmente proibidas de praticar uma série de modalidades consideradas “incompatíveis com a sua natureza”, o que incluía o futebol, o levantamento de peso e os esportes de combate. O argumento higienista e moralista daquele regime pretendia regular até onde o suor feminino podia cair, transformando o esporte em uma ferramenta institucional de domesticação de gênero.

É por isso que a trajetória das mulheres no esporte é, em sua essência, um ato irredutível de insubordinação democrática. Nenhum direito nos foi dado de graça ou por benevolência; cada centímetro conquistado foi arrancado a ferro, fogo e muita luta. Quando ocupamos o ringue, a pista ou a arquibancada do estádio, subvertemos a lógica secular que tentou confinar nossos corpos ao silêncio. Cada movimento de superação e cada gota de suor são extensões dessa trincheira histórica por soberania e igualdade.
Cada vez que entro no tatame ou canto o Corinthians, sei que não estou apenas exercendo um gosto pessoal. Estou honrando uma linhagem de resistência que une a ousadia da Democracia Corintiana à força indomável das mulheres que vieram antes de mim. Porque o esporte, quando protagonizado por quem compreende seu peso histórico, deixa de ser mero espetáculo para se tornar um território de liberdade radical.
O esporte é político porque a vida é política. E enquanto houver quem tente ditar quem pode jogar, lutar ou ocupar o espaço público, continuaremos fazendo do nosso jogo e da nossa luta uma revolução diária.

*Marília Mesquita é jornalista e assessora de imprensa. Entende que a combinação de esporte e viagens oferece uma mundo de oportunidades para experiêncas únicas, nos conectando com a natureza, enquanto exploramos diversas culturas.
