Por Mary Schaffer – Poucos lugares conseguem reunir, com tanta intensidade, história, literatura, arquitetura e gastronomia como o Bataclan, um dos símbolos mais emblemáticos de Ilhéus. Durante minha passagem pela cidade, tive o privilégio de jantar nesse cenário que atravessou décadas e se tornou parte da memória afetiva da Bahia.
Enquanto apreciava os sabores da culinária regional, era impossível não imaginar tudo o que aquelas paredes testemunharam. Cada salão preservado, cada fotografia das “quengas” penduradas nas paredes, os objeto de época… tudo parece contar um capítulo dos tempos em que o cacau fez de Ilhéus uma das cidades mais prósperas do Brasil. Foi justamente nesse período, entre o luxo e os excessos dos chamados coronéis do cacau, que nasceu a aura quase mítica do Bataclan. Comandado pela carioca Maria Machadão que comandava com pulso firme as “meninas” que mandava virem da França para agradar seus nobres clientes.

O antigo cabaré entrou para a história graças às páginas de Jorge Amado. Em Gabriela, Cravo e Canela, o escritor eternizou personagens inspirados nesse universo boêmio, transformando o casarão em um dos cenários mais conhecidos da literatura brasileira. Hoje, completamente restaurado depois de um incêndio devastador, o espaço mantém viva essa atmosfera, permitindo que o visitante caminhe por ambientes que parecem congelados no tempo. Até o quarto de Machadão está preservado com alguns de seus pertences.
As histórias que cercam o lugar são tão fascinantes quanto sua arquitetura. Uma das mais conhecidas — preservada pela tradição oral de Ilhéus — conta que os poderosos coronéis levavam suas esposas para a missa na Catedral de São Sebastião, localizada na praça em frente ao tradicional Bar Vesúvio. Generosas contribuições à igreja garantiriam sermões especialmente longos, que chegavam a durar horas. Enquanto as senhoras permaneciam na celebração religiosa, os coronéis atravessavam corredores secretos que levavam até o cabaré para encontrar suas amantes.
Conta-se ainda que, quando os sinos da catedral anunciavam o fim da missa, eles apressavam-se e saíam discretamente para tornar ao Bar Vesúvio e aguardavam, como se nada tivesse acontecido, a saída das santas esposas da igreja. Verdadeira ou não em todos os seus detalhes, essa narrativa atravessou gerações e ajuda a explicar por que Ilhéus cultiva um imaginário tão rico, onde realidade e lenda caminham lado a lado.

Mas o Bataclan não vive apenas do passado. Hoje, a gastronomia dá um novo significado ao espaço. O restaurante valoriza ingredientes e receitas da culinária baiana, oferecendo uma experiência que respeita a tradição. Mas o tempero bom mesmo são os causos contados pelo Seo Flavio, gerente do restaurante, servidos sobre a história do casarão, tornando a refeição uma viagem pela cultura local.
Vai pra Ilheus? O Bataclan é mergulhar na literatura de Jorge Amado, onde as memórias do ciclo do cacau continuam bailando nos salões. Ali, passado e presente convivem em perfeita harmonia.
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