Por Eloi Zanetti (contato: eloizanetti@gmail.com) – Meu pai tinha o costume de ouvir tango enquanto trabalhava em sua oficina. Cresci ouvindo Carlos Gardel, Alfredo Le Pêra, Enrique Discépolo e Francisco Canaro. Certa vez perguntei-lhe por que gostava tanto de tango e a explicação foi: “eu trabalhava como vigia em uma garagem na Praça Osório (Curitiba final dos anos 1930). Para ajudar a passar a noite, entrava nos carros que tinham um bom rádio e sintonizava na Rádio Belgrano de Buenos Aires, famosa por transmitir tangos às altas horas da noite. Foi assim que aprendi a gostar de tango.
“…Desde el da que te fuiste siento angustias en mi pecho, decí percanta: ¿qué has hecho de mi pobre corazón?…”
Quando começaram a aparecer no mercado os long plays ele comprou alguns que quase se gastaram de tanto ser tocados. Eu era fascinado pelas capas que aos poucos iam ficando manchadas por marcas de dedos cheios de graxa de automóvel. O disco “Un tango, una muchacha y un mate” era um dos seus preferidos. Eu ficava fascinado com a música Caminito e me imaginava andando por uma vereda que me conduziria a uma espécie de jardim secreto – na imaginação de uma criança tudo é possível.
“…Desde que se fue nunca más volvió seguiré sus pasos caminito, adiós…caminito que el tiempo ha borrado…”
Às noites, já em Curitiba, gostava de sintonizar no programa do Souza Miranda, pai do famoso designer e amigo Oswaldo Miranda, o Mirandinha. A sua hora do “Rosa de Tango” era campeã de audiência, pois misturava poesia com tango embalados pelas orquestras de Francisco Canaro e Anibal Troilo. Mas o programa mais ouvido era o do Getulio Cury na Rádio Tingui – pai do também amigo Jorge Cury. Ele tinha o curioso nome de “O Tango Abraça o Samba” e era transmitido ao vivo da Boite Cádiz onde se apresentava o conjunto de Leo El Morocho.
Enquanto eu e minhas irmãs, a noite, fazíamos as lições de casa ouvíamos a voz poderosa do Cury e o som dos bandoneóns com o seu doce e harmonioso timbre. O som dessas rádios, na época, em ondas curtas e médias, parecia favorecer as vozes e a melodia da música portenha. Hoje, fecho os olhos e ouço seu toar melancólico, perdido em noites já há muito passadas e uma profunda tristeza vem habitar meu coração – saudades do pai e do seu gosto pela música de boa qualidade.
“…volver…con la frente marchita, lãs nieves del tiempo platearon mi sien…Sentir…que es um soplo la vida, que viente anos no es nada, que febril la mirada, errante em lãs sombras…”
Nos seus últimos anos, tinha como hobby gravar música em fitas K-7: tangos, óperas e música de raiz. Deixou como herança caixas cheias de gravações, tudo organizado e etiquetado com a sua bela letra caligráfica.
“…Tengo miedo del encuentro con el pasado que vuelve a enfrentarse con mi vida…”
Certa vez, vindo de Maringá com meu amigo Marcos Camargo, ele se revelou um profundo conhecedor de tangos e veio cantando, interpretando as letras e me explicando a história de cada música. Meu pai, com certeza viajou com a gente, sentadinho no banco de traz deliciando-se com as explicações do amigo expert.
“…Vivir… con el alma aferrada a un dulce recuerdo que lloro otra vez…”

Eloi Zanetti é escritor, especialista em marketing e comunicação corporativa. Contato: eloizanetti@gmail.com
