Por André Nunes, jornalista e neto de João Nunes – Este 23 de junho até poderia passar desapercebido pela família Nunes, em suas correrias diárias, não fosse o fato de que nosso patriarca João Nunes – o saudoso “João Marmelada”, que nos deixou aos 76 anos, em 2002 – estaria completando seu centenário de nascimento.
Sensação curiosa a de escrever sobre os 100 anos de um de seus avôs e avós. Mais ainda pelo fato de que, por circunstâncias da vida e distância geográfica, convivi pouco com Vô João até meus 11 anos, quando ele se foi. Fora as vezes bebê ou pequeno, só me recordo de uma visita à Franca (SP), onde vovô morava, quando eu tinha uns 10 anos.
É aquele típico caso de um parente próximo que a gente coleciona histórias e relatos ao longo da vida, buscando conhecer melhor e se reconhecer nos casos e “causos” que os filhos, netos e noras contam. Até porque cada um de seus descendentes herdou pelo menos algum aspecto – e, por que não, o charme – do velho João Nunes.

O primogênito, Jorge, tem o tino comercial e as semelhanças físicas mais diretas. O caçula, Jadir, meu pai, herdou a paixão futebolística, o porte físico e o cabelo sempre bem arrumado. Ambos os filhos apreciam a boa música tal qual Seu João – que teve a satisfação de ter convivido nos bares da vida da boemia paulistana com a fina flor do samba e da malandragem, encabeçados pelos antológicos Nelson Gonçalves, Adoniran Barbosa e Noite Ilustrada.
O neto mais velho, Alexandre, puxou a boa prosa e o jeito de contar histórias. Já a neta Claudia subiu uma geração: todos contam que ela lembra muito a mãe de João, nossa bisavó Assumpta, no jeito e na altura. O neto Felipe é mais um dos herdeiros bons de bola, e este neto jornalista (André) trouxe na genética a voz rouca do patriarca, o gosto musical e a vaidade (admito); afinal, gosto de tirar fotos tanto quanto ele. Por fim, a neta caçula, Beatriz, também é Portela de coração.
E ainda falando em futebol, apenas Claudia é corintiana como João. Todos os demais, filhos e netos, são palmeirenses. A história sempre rende: como não havia clube do Corinthians para os filhos Jorge e Jadir jogarem bola e frequentarem na adolescência, o jeito foi levá-los até o saudoso Parque Antártica. Pronto, ali surgia o amor pelo Palmeiras, que passou para os filhos e netos, com um pezinho na genética materna, dos Spacassassi do biso Faustino (seu sogro), pedreiro que ajudou a construir o primeiro estádio do Palestra Itália. Mamma mia!

Como bem lembra o tio Jorge, “futebol era nosso assunto preferido, ficávamos horas debatendo e tirando sarro um do outro! Corintiano convicto, mas não fanático, e muito crítico sempre em relação ao que seu time apresentava. Sabia respeitar (como ninguém) a escolha de seus filhos e netos pelo Palmeiras – dizia que era legal, a diversão era melhor e o sarro mais saboroso”.
Origens familiares

João Nunes nasceu em São Paulo (SP) em 23 de junho de 1926, véspera do dia de São João e uma das noites mais frias do ano. Filho de um português da Ilha da Madeira, Jorge Nunes, e de uma filha de italianos, Assumpta Chiarella, teve apenas um irmão quatro anos mais velho, José.
Seus avós paternos eram José Nunes (1864-1948) e Miguelina Rodrigues Nunes (1873-1941). O ramo dos Nunes na Madeira, segundo registros do site Family Search, traz duas ou três gerações sem muitos dados, pelo ramo materno: meu trisavô José Nunes era filho de Ritta Nunes (nascida em 1844) que, por sua vez, era filha e neta de duas gerações de “Joãos” Nunes. Outra curiosidade é que tanto José, quanto Miguelina, são apontados como “pardos” em documentos da época. Pelas poucas fotos, é possível perceber uma pele morena clara, que denota uma provável ascendência luso-africana.

Na década de 1940, após a morte do pai, os jovens José e João passaram a trocar cartas e fotos com as tias da Ilha da Madeira, em especial tia Alice Nunes Oliveira, que dava notícias de seu avô José, ainda vivo, e de outros parentes portugueses. As cartas estão guardadas até hoje no “baú dos Nunes”, sob a guarda do meu tio Jorge.
Já os avós maternos, pais de Assumpta, eram Francesco Paolo Chiarello (de 1861) e Antonia Fasano, ou Fazano (nascida em 1859). O ramo dos Chiarelli, aliás, apresenta várias grafias, como era comum nos cartórios brasileiros que recebiam imigrantes no início do século 20: Chiarello, Chiarella, Chicarelli, entre outros. Créditos dessas informações ao Family Search.
Chegada dos Nunes no Brasil

“O que vou relatar são histórias contadas pelo meu pai e seu irmão, tio José”, inicia meu tio Jorge Nunes (homônimo de seu avô).
“Meu avô Jorge Nunes (1885-1941), quando completou a maioridade, e para fugir da Primeira Guerra Mundial, conseguiu, junto com dois amigos, um emprego em um navio cargueiro, que tinha como destino o Brasil. Foram meses de viagem, trabalhando no navio, até que chegaram ao porto de Santos. Com o salário recebido no navio, foram morar em uma pensão perto do cais do porto, por indicação de colegas mais experientes”.
“Como Jorge era alfaiate de profissão em Funchal (Ilha da Madeira), logo conseguiu emprego em uma alfaiataria no centro de Santos, onde trabalhou por uns dois anos. Com o passar do tempo, fazendo amizades, foi por meio de um colega que resolveu mudar-se para São Paulo, mais especificamente para o bairro de Pinheiros, onde seu colega morava. Jorge logo arrumou trabalho em uma alfaiataria no Centro, onde trabalhou por um bom tempo”.

Trabalhando no Centro e morando em uma pensão em Pinheiros, já com seus 20 e poucos anos, Jorge Nunes conheceu Assumpta Chiarella (1900-1960), filha de italianos que já nascera no Brasil. Após seu casamento, Jorge e Assumpta formaram a primeira família dos Nunes no Brasil. “Nessa ocasião, inclusive, ele já trabalhava como autônomo, tendo sua alfaiataria em casa, na Rua Cardeal Arcoverde, entre as ruas Borba Gato e Mateus Grou, casa em que nasceram seus filhos, José e João.
Infelizmente, a vida do meu bisavô Jorge Nunes foi curta: faleceu aos 56 anos, em 1941, deixando os filhos José com 18 e João com 15 anos. Viúva, minha bisavó Assumpta Chiarella Nunes terminou de criar e encaminhar os filhos, morando em uma casa anexa na Rua Borba Gato, 559, até sua morte, em 26 de outubro de 1960. A certidão de óbito informa que Assumpta “não deixou bens e que não era eleitora” e que a causa mortis se deu por “doença miocárdio esclerose”, ou esclerodermia. Foi sepultada no Cemitério do Araçá.
Terminando as informações de família, o único irmão de meu avô, tio José Nunes, nasceu em 18 de julho de 1922 (quatro anos mais velho) e morreu aos 57 anos, em 3 de agosto de 1979. Tudo em São Paulo, capital. Casado com Thais Tavares de Lima, deixou os filhos Jorge Luis Nunes (Joca), Silvia Maria Nunes Manduca e José Nunes Filho (Zelim), além de sete netos.
Boemia paulistana

João Nunes sempre gostou de cachorros, especialmente os da raça Pequinês, e quase sempre chamados de Puppi. É comum vermos fotos dele, nas mais variadas fases da vida, ao lado de um dos fiéis Puppis, bem como seus filhos e netos.
Também sempre foi vaidoso com a aparência, o cabelo na régua (como se diz hoje) era parte da rotina, e gostava de tirar fotografias. O álbum de sua juventude traz vários registros com amigos jogando futebol e em idas à praia (Santos e Rio de Janeiro).
Na juventude, João Nunes fez parte da turma da boemia paulistana, em que se destacavam amigos ilustres: Nelson Gonçalves, Mário de Souza Marques Filho (Noite Ilustrada), Adoniran Barbosa, entre outros. Os encontros eram em rodas de samba, onde mostravam novos sambas e faziam composições, tudo no improviso.

A turma tinha vários pontos de encontro pela cidade, com destaque para os bairros Pinheiros, Vila Madalena, Bixiga e Centro, em sua maioria, bares, restaurantes e salão de danças, com destaque para os históricos Som de Cristal e Avenida Danças, no centro velho de São Paulo.
“Eu era moleque, mas lembro de ter visto o Noite Ilustrada e o Nelson Gonçalves algumas vezes em nossa casa, em Pinheiros. Eram visitas rápidas, em que vinham encontrar meu pai para saírem rumo aos seus ‘escritórios’, como eles diziam em tom de gozação’, recorda o filho Jorge.
Amor que surgiu no bonde

Loja/marca feminina muito badalada pelas altas rodas de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, a Marie Claire ficava na Rua Mourato Coelho, em Pinheiros, e atendia às classes A e AA. Hoje, infelizmente, as lojas fecharam.
Aos 17 anos, João Nunes entrou como office-boy e depois se tornou vitrinista da Marie Claire, tinha um ótimo gosto para roupas e costumava vestir de forma elegante a esposa, Ignez Spacassassi, nos eventos sociais e familiares. O casal, aliás, começou a flertar nos trajetos de bonde, onde se conheceram.
O casamento foi na Igreja do Calvário, em Pinheiros, no dia 4 de janeiro de 1951, e a lua de mel no Rio de Janeiro. Nascida em 1930, a esposa Ignez também tinha origens italianas, com seus quatro avós tendo emigrado da Itália para o Brasil no final do século 19. Seus pais, Faustino Spaccassassi e Antonietta Pietrocolla, foram a primeira geração de brasileiros da família, ele de Descalvado (SP) e ela de São Paulo, capital.

Em 20 de janeiro de 1952, nasceu Jorge Nunes, primogênito do casal, batizado em homenagem ao avô português. Em setembro de 1957, passaram pelo trauma de ter uma filha natimorta, Maria Inês. Dois anos depois, em 16 de julho de 1959, na Pró Matre Paulista, nasceu meu pai, Jadir Nunes. Curiosamente, na mesma maternidade em que eu nasceria em 1991.
“A primeira memória afetiva que me vem à cabeça é da ‘rotina do bolso do paletó’: uma vez por semana, eu bem pequeno ainda, na faixa de 6-9 anos, toda manhã ao acordar, ia na cadeira da sala de jantar, onde Seu João deixava o paletó do terno que ele ia trabalhar, e procurava os preciosos pacotinhos de figurinhas para colar no álbum (geralmente de futebol, Brasileirão ou da Copa do Mundo). Era uma forma bem peculiar de relação pai e filho”, conta meu pai, Jadir.

Curiosamente, já bem mais tarde, quando meu pai era adolescente, “certo dia ele me pede um segredo: tinha deixado no guarda-roupa dele, num bolso de um paletó, uma quantia de dinheiro em espécie, que daria para cobrir as despesas do seu enterro, no caso de uma emergência. O terreno do cemitério ele já tinha comprado, e aquele dinheiro seria para ele poder ‘morrer sossegado’. No final, ele me falou sorrindo ‘pelo menos eu já tenho onde cair morto’! Com um ar de orgulho, de quem tinha sido um vitorioso por isso”. Curiosamente, este jazigo no Cemitério da Paz (em São Paulo), com a placa “Família João Nunes”, é onde décadas mais tarde foram sepultadas minha avó Ignez e Dona Gê Purita, sogra do meu pai.
As resenhas de futebol com o filho Jorge

Passo a palavra mais uma vez para meu tio Jorge, que anualmente posta em suas redes sociais relatos de resenhas que tinha com vovô João, e nunca esquece seu aniversário em 23/6: “Resolvi convidar uma turma especial para participar dessa nossa resenha, e tenho certeza de que você Pai, no andar de cima, ficará muito feliz em rever e matar as saudades desses parceiros de tantas jornadas, vitórias e títulos na várzea paulistana!
“Isso mesmo são seus parceiros do Fluminense Futebol Clube de Pinheiros, cuja sede ficava na Rua Cunha Gago, quase esquina com a Rua Pinheiros. Esse time, (entre tantos que você jogou), em que você era chamado de João Marmelada, lateral esquerdo da melhor qualidade; primeiro time da várzea paulistana a ficar 48 partidas invictas, (contando campeonatos e amistosos)”.
“Era lá que se encontravam todos os domingos, às 8h, e partiam para o campo oficial do time, no famoso e antigo ‘Areião’, às margens do Rio Pinheiros (onde hoje fica o Shopping Eldorado). Detalhe, íamos de caminhão, todos na carroceria, e quem tinha filhos também levava junto. Com meus seis anos, eu já participava dessa aventura fantástica”.

“Chegando ao nosso ‘estádio’, os moleques saíamos correndo atrás da bola, que o Joãozinho massagista chutava pra dentro do campo (brincávamos antes, no intervalo e após o jogo). Depois do jogo, com mais uma vitória pra conta, subíamos no caminhão e ‘bora’ para a sede, aí sim, muita resenha, risadas, e para os garotos, muito refrigerante, pão com mortadela e doces! Que época de ouro, hein, Pai? Só quem viveu sabe como esses domingos eram maravilhosos”.
“Por isso, nada melhor hoje, do que olhar novamente com seus olhos e lembrar de quando, com muita convicção e simplicidade, você me dizia:
– Tá tudo certo, não tem problema, tudo se resolve!
O filho Jadir Nunes complementa: “Lembro também muito das nossas idas ao Palmeiras nos domingos, jogávamos bola, depois piscina e, no final da tarde, assistíamos jogos no antigo Palestra Itália, no setor dos associados, sem pagar nada. Era só mostrar a carteira de sócio e beleza. Vimos jogos do Santos de Pelé, a Academia de Ademir da Guia, o Corinthians de Rivellino… Muitas lembranças maravilhosas, cresci neste ambiente”, recorda com saudades.
41 anos de Marie Claire, ida para Franca e bisnetos

João e Ignez se desquitaram na década de 1970 e, nos anos seguintes, cada um seguiu seu rumo. Ela seguiu morando em São Paulo, próxima de sua família, e se tornou guia de turismo, viajando o Brasil com grupos de empresas como a CVC, até se aposentar no fim dos anos 1990.
Já ele continuou na Marie Claire até se aposentar (foram 41 anos de trabalho na mesma loja, de office boy a gerente geral administrativo), quando se mudou para Franca, no interior paulista, no começo dos anos 1980, após o filho Jorge e a família se mudarem para lá. Em Franca, Seu João viveu seus últimos 20 anos de vida ao lado da companheira Helena Barbosa, que hoje tem 81 anos. E foram nesses anos de Franca seu maior convívio com os netos Alexandre e Claudia, filhos de Jorge, que guardam belas lembranças do avô até hoje.

Nos anos 1990, Seu João conviveu bastante com a primeira bisneta, Thais Nunes, filha do primeiro casamento de Alexandre. Foi a única dos bisnetos que ele conheceu: nos anos seguinte, Alexandre e a esposa Sandra tiveram uma filha, Giovanna; a neta Claudia, que mora nos Estados Unidos com o marido, Charles, teve duas filhas, Gabriela e Alice; e o neto Felipe, que vive em Joinville (SC), teve dois filhos, Bento e Olga, os bisnetos mais novos (até o momento) da descendência de João Nunes.
A bisneta Thais, por sua vez, também já é mãe: Kaio e Manuela são os primeiros tataranetos do “Marmelada”, estreando a nova geração da família. As boas memórias são contadas também por suas duas noras, Úrsula Toledo e Stella Purita.

Carnaval no Rio: Portela do coração
“Mais no final da vida, após vários anos aposentado e vivendo em Franca, nosso momento de convivência maior acabou sendo nos carnavais no Rio de Janeiro, uma paixão para o Seu João. Como ele curtia e demonstrava felicidade, era fantástico! Na praia, preferia ficar nos quiosques tomando sua cervejinha, me falava que estava indo ‘pro escritório carioca’”, lembra meu pai.

Na Marquês de Sapucaí, após algumas cervejas, João Nunes adorava dançar com as cadeirinhas plásticas que ficavam girando no setor 13 na década de 1990. “Seu ponto alto era na entrada da sua Portela, quando ele brindava a Águia do abre-alas e sempre falava que ela seria campeã! E no final da noite, já amanhecendo, ele cochilava na cadeira, mas sem largar a latinha de cerveja, que nunca deixava cair”. Habilidade de mestre.
Últimos anos e legado

João Nunes, o “Marmelada”, faleceu em 13 de abril de 2002 aos 76 anos, por complicações de um câncer na garganta – mesma causa mortis de seu irmão José. Por pouco, não viu o Brasil ser pentacampeão mundial, nem o nascimento da neta caçula, Beatriz, em dezembro daquele ano.
Seu legado – além dos dois filhos, cinco netos, seis bisnetos e dois tataranetos – é a alegria de viver os bons momentos ao lado dos entes queridos, sempre com um bom café ou uma cervejinha do lado, contando histórias, curtindo um samba de qualidade da nossa MPB e sofrendo com seu Corinthians do coração – tendo a prole palmeirense para cornetear!
Neste 23 de junho de 2026, se vivo estivesse, completaria 100 anos. Viva Seu João!
