Por Dinah Ribas Pinheiro – A paisagem onde Geraldo Pioli gravou o filme “Mestre Leonildo, Sapateando e Valseando a Vida“, sobre o rabequeiro/violeiro Leonildo Pereira é, por si só, um misto de beleza e encantamento. O mar da baía de Guaraqueçaba é emoldurado pelos mangues, pelas montanhas e pelo Céu. A Mata Atlântica onde está encravado esse cenário é uma das regiões mais preservadas do sul do Brasil. Pois é nesse lugar que o fandango caiçara e seus dançarinos encontram clima para se expressar desde a chegada dos colonizadores açorianos em 1750.
Manifestação artística que envolve música, dança, poesia e saberes locais trata-se de um verdadeiro tesouro cultural desenvolvido no litoral norte do Paraná e sul de São Paulo, reconhecido como patrimônio cultural imaterial pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), desde 2012. O pintor suíço William Michaud (1829–1902) que se estabeleceu na Colônia do Superagui, em Guaraqueçaba, a partir de 1854, documentou a paisagem local, a natureza e a cultura caiçara através de aquarelas e desenhos. Encantado com a paisagem que encontrou formou sua família, teve nove filhos e não voltou mais ao seu país natal. Existem algumas obras de sua autoria em museus de Curitiba.
“No inicio dos anos 2000, acompanhado de um grupo de jovens ávidos por produzir audiovisual, realizamos, com parcos recursos próprios, uma minissérie em quatro episódios que levou o nome de Identidade, sobre quatro cidades do litoral do Paraná, Paranaguá, Antonina, Guaraqueçaba e Morretes, exibida na TV Educativa. No episódio sobre Guaraqueçaba me encontrei pela primeira vez com Leonildo Pereira em seu habitat, que ele batizou de Abacateiro, um lugarejo com três casinhas de frente para o mar. Em uma delas, de chão batido, ele e sua família cozinhavam, na outra dormiam e em uma terceira, essa de assoalho reforçado de madeira, como se fosse um solo sagrada era reservada apenas para os bailes do fandango e sua oficina de construção de violas e rabecas” revela Pioli. Foi a partir daí que cineasta e caiçara iniciaram, além da parceria, uma grande amizade. Geraldo sonhou (e realizou) um documentário sobre a figura de Leonildo que oportunamente será exibido para o grande público.
“Me encantei com aquele homem simples, carismático, de pé no chão, apaixonado por sua vida singela de luthier e exímio tocador de viola/rabeca e batedor de fandango. A faísca estava acesa, precisava registrar a vida dessa figura tão extraordinária. Por mais de 20 anos, sempre que surgia uma oportunidade reunia os parceiros do audiovisual e saíamos de Curitiba rumo a Guaraqueçaba e ao Abacateiro, um lugar que pra mim harmonizava a natureza, homem e arte. Com esse mestre rabequeiro fizemos varias entrevistas e sempre que possível lá estávamos nós, no seu próprio ambiente, ou registrando apresentações e gravações de disco em Curitiba”.
Leonildo pertence à categoria de personagens populares, de raiz, talentosos, pouco escolarizados, cuja arte só ficou conhecida graças a pessoas sensíveis como Geraldo Pioli, que conseguiram tirá-los do anonimato. É o caso de Patativa do Assaré, (1909- 2002) poeta, compositor, cantor e improvisador cearense. Geraldo Teles de Oliveira, mais conhecido como GTO (1913-1990), mineiro de Divinópolis, escultor e entalhador e Noemisa Batista dos Santos (1946- 2024) renomada escultora e ceramista do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, e muitos outros pelo Brasil afora.
Leonildo Pereira (1942-2024) nasceu no município de Cananéia (SP), mas se mudou ainda criança com a família para o Paraná, onde compartilhou sua paixão pelo fandango com amigos, visitantes e familiares. Dedicou sua vida à preservação e à prática do Fandango Caiçara. As modas são executadas por instrumentos artesanais – viola, rabeca e adufo – e podem ser valsadas ou batidas “Ele era um computador de modas e versos”, definiu o músico Oswaldo Rios. O documentário revela como o Mestre, que aprendeu a tocar aos nove anos observando o pai e o avô, tornou-se um guardião dos saberes ancestrais. Através de seus olhos, o espectador é conduzido pelo Rio dos Patos e pelas comunidades caiçaras, onde o fandango não era um “show”, mas uma extensão do trabalho na roça e do pagamento de promessas a São Gonçalo.
As filmagens
“Fizemos mais três expedições a Guaraqueçaba, sempre com duas câmeras, equipamento de iluminação e som, equipe sempre enxuta de cinco pessoas, uma vez que para se chegar ao local se traça uma maratona pelo mar adentro. A primeira parte da viagem, com duração de 3 horas, é feita a partir de Paranaguá num barco de linha que serve todos os passageiros que moram nos dois sentidos, turistas e moradores. O destino final, até o Abacateiro exige a contratação de um outro barco e mais um trajeto de uma hora e meia. Trata-se de uma empreitada dispendiosa já que entre combustível, saindo de Curitiba, passagem e aluguel do barco, alimentação da equipe, pagamento dos músicos e técnicos, o custo final chega a 80 mil reais em valores atualizados. Como para realizar um sonho exige empenho e dedicação, não faltou de minha parte e de meus companheiros esses dois elementos”, complementa Geraldo.
“Em 2005, registramos duas entrevistas marcantes, uma com Leonildo na casa do fandango no Abacateiro, e outra na Ilha do Cardozo, onde em parceria com seu amigo Rubens, também fandangueiro, se formou uma dupla para acompanhar a dança de um grupo de crianças. Essa cena infantil do filme, na grama, em frente ao mar pode ser interpretada como um ensaio para o futuro na preservação das tradições pelas novas gerações de caiçaras fandangueiros. Dois anos depois, por ocasião de um encontro de fandango em Guaraqueçaba, conseguimos outra cena inesquecível: um duelo de rabecas entre Leonildo e seu irmão José Pereira, que resultou num outro filme batizado de Caiçara” continua.

Há um detalhe no trabalho das filmagens que não passa despercebido aos que assistiram o filme. Nas primeiras gravações feitas pela equipe ainda não havia luz elétrica na região, e as tomadas só podiam acontecer durante o dia. Já em 2019, em parceria com a Universidade, uma incursão ao mesmo local, se traduziu em modernidade. Foram instaladas placas de energia solar, o que permitiu gravar a apresentação de um fandango genuíno com a participação de muitos jovens. A cena emocionante da chegada dos barcos transportando os dançadores, músicos e instrumentos é uma das mais bonitas do filme, seguida pela da própria dança. A chuva torrencial não interferiu na chegada dos protagonistas da festa. A pista forrada de madeira como num passe de mágica se transformou no espaço abençoado pelos ancestrais daquela gente tamanha a energia que se sentia no salão do baile. A rabeca puxou os primeiros acordes acompanhada pelo toque da viola e pelo sapateado ritmado dos tamancos sobre o assoalho. Homens e mulheres giravam em pares, elas com saias rodadas, os movimentos rápidos. As palmas acompanhavam a música e até as crianças encostadas na parede tentavam imitar os adultos. O rabequeiro parecia conduzir não só a melodia, mas a memória inteira daquela comunidade caiçara.
“Após termos gravado o fandango no Abacateiro, onde Leonildo viveu com sua família, até sua morte em 2024, veio a epidemia de Covid, o que nos obrigou a fazer uma interrupção nas filmagens” conta Geraldo. Em 2025, após vencer um edital de patrocínio para projetos culturais entraram novos recursos para completar o documentário. Pioli e sua equipe conseguiram enfim finalizar o trabalho, iniciado nos anos 2000, com todas as imagens que aquela história merecia, inclusive as cenas aéreas, que de tão bonitas mais parecem um cartão postal. O lançamento de “Mestre Leonildo Sapateando e Valseando a Vida” aconteceu na Cinemateca de Curitiba, no dia 18 de abril.
A obra, com direção e roteiro de Geraldo Pioli. conta com a expertise de nomes renomados da música paranaense. A direção musical é assinada por Oswaldo Rios, com trilha original de Rogério Gulin (ambos do grupo Viola Quebrada), músicos que conviveram e registraram o legado de Leonildo, em estúdio, ainda nos anos 90. A montagem de Yanko del Pino e Frank de Castro sintetiza as mais de 200 horas de material digital em uma narrativa sensível e antropológica de 72 minutos. A produção é de Carla Pioli. O projeto é uma realização da Pioli Produções em parceria com a Cooperativa Cinema & Mídias Digitais e foi viabilizado por meio da Lei Paulo Gustavo, com recursos do Ministério da Cultura – Governo Federal, e apoio da Secretaria de Estado da Cultura – Governo do Paraná, via Cultura Paraná e PrFilm Commission.
Geraldo Pioli, natural de Ribeirão Claro (PR), trabalhou na Cinemateca de Curitiba de 1986 até sua aposentadoria, onde exerceu diversas funções: administrador dos cinemas Groff, Ritz, Luz e Guarani, e da própria Cinemateca. Foi ainda programador, e coordenador de cursos práticos de Cinema. Como cineasta dirigiu e roteirizou importantes trabalhos no áudio-visual paranaense. Dentre eles estão Nhô Belarmino e Nhá Gabriela, realizado em 2007, um documentário poético musical sobre a vida e obra da dupla, cujo sucesso alcançou o Brasil inteiro com a música As Mocinhas da Cidade. O filme recebeu o prêmio Estadual de Cinema e Vídeo do Paraná. Bento Cego, do ano 2000, uma ficção que narra a história do legendário violeiro que, mesmo cego, percorreu o interior do Paraná, Santa Catarina e São Paulo, no final do Século XIX, vencendo todos os desafios. Aldeia é um retrato bem humorado de um padre jesuíta que tentou ensinar os 10 mandamentos a uma tribo indígena, poligâmica, no início da colonização do Brasil.

*Dinah Ribas Pinheiro é jornalista e escritora, especialista em Jornalismo Cultural. Trabalhou por duas décadas na Assessoria de Imprensa da Fundação Cultural de Curitiba. Exerceu a mesma função na Escola do Teatro Bolshoi em Joinville. Assessora de Comunicação no BRDE e no espaço cultural do Palacete dos Leões. É autora dos livros “A Viagem de Efigênia Rolim” nas Asas do Peixe Voador e “Teatro de Bonecos Dadá-Memória e Resistência”.
