terça-feira, 5 maio, 2026
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O Diabo Veste Prada 2 celebra o mundo da moda e o jornalismo

Por Eliaquim Junior – Vinte anos depois, finalmente estreia a aguardada sequência de um dos maiores sucessos da carreira de Meryl Streep e Anne Hathaway: O Diabo Veste Prada. E ela demorou tanto tempo porque, convenhamos, precisava de uma boa desculpa. Ver Miranda Priestly humilhando Andy Sachs já era ótimo, mas não bastava, era preciso algo mais nobre: um contexto social. E ele veio, elegante e caótico como um desfile atrasado: a crise do jornalismo tradicional.

Em 2006, quando o primeiro filme foi lançado, o impresso ainda dominava, já havia internet, mas ela era “coadjuvante”. O prestígio vinha da curadoria, não da velocidade. Hoje, bem… o algoritmo é praticamente o editor-chefe. Plataformas mandam mais que redações. Redações? Encolheram. A “qualidade” disputa espaço com a “velocidade” e, principalmente, com a necessidade básica de continuar existindo. É nesse cenário, meio apocalíptico, meio hiperconectado, que Andy e Miranda se reencontram, dando à sequência uma justificativa que vai além da nostalgia.

Após uma crise de imagem abalar a revista Runway, Andy é convocada para apagar o incêndio com seu jornalismo sério e respeitado, quase uma relíquia de museu nos dias de hoje. Claro que a editora-chefe não vai abrir um sorriso caloroso logo de cara (nem faria sentido), e ainda bem: a dinâmica entre as duas continua deliciosamente tensa, cheia de olhares afiados e desprezo silencioso.

Emily Blunt também retorna. Sua Emily paranoica ainda rende bons momentos com a Andy, embora eu tenha ficado com a sensação de “quero mais”.  O ótimo Nigel (Stanley Tucci) também reaparece para a nossa alegria, mas o roteiro poderia ter deixado ele brilhar um pouco mais, porque ali sobra carisma.

É indiscutível afirmar que o trunfo de O Diabo Veste Prada 2 são os seus personagens e a interação entre eles. Certamente ficaríamos horas assistindo a Miranda e Andy se olhando e tendo uma não conversa ou a Emily falando mal das sobrancelhas da Andy.

Andy Frankel retorna à direção e realiza um filme bem redondo, com happy end, o que é ótimo, sem melodrama aqui, tampouco uma grande surpresa. Há alguns tropeços no ritmo, diálogos um pouco explicativos demais e uma previsibilidade que o espectador mais atento percebe cedo, mas é uma obra que vale a pena ver.

No fim das contas, é um filme que revive a nostalgia, celebra o universo da moda e o jornalismo, se apoia no carisma de seus personagens e ainda encontra espaço para comentar o presente com uma certa ironia inevitável: adeus aos editores humanos, olá à IA e aos algoritmos, agora, aparentemente, até Miranda precisa lidar com isso.

*Eliaquim Junior é cinéfilo e viciado em café (a ordem é discutível, o vício não). Escreve sobre filmes para justificar o tempo gasto assistindo a eles – e para reclamar com embasamento. Viu 125 filmes em 2025 e segue insatisfeito. Fã assumido de Spielberg e Hitchcock. Jornalista formado, e atua com edição e revisão de textos, mantendo vírgulas no lugar e expectativas altas no cinema.

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