Em 2018, com o lulopetismo à beira do precipício, o filósofo norte-americano Noam Chomsky, 97 anos, veio ao Brasil. Acompanhado da mulher, ele cumpriu o roteiro de todo intelectual de esquerda que se preza: visitou Lula na prisão. A essa altura, já se notava que Chomsky era um daqueles que não têm audiência nas suas próprias terras (no caso, os EUA), mas se dedica a vender suas teses para a bugrada da América Latina disposta a comprar qualquer miçanga que venha de fora.
O problema de Chomsky, no entanto, é mais embaixo. Ele é um guru da esquerda que se esbalda em contradições. É o tipo que, tal como o jogador de futebol, fez que foi, não foi e acabou “fondo”.
Chomsky já criticara o PT e Lula em entrevista à revista Democracy Now: “É simplesmente penoso ver que o Partido dos Trabalhadores no Brasil, que de fato levou adiante medidas significativas, não pôde manter as mãos longe dos cofres. Eles se juntaram a uma elite extremamente corrupta, que está roubando o tempo todo, e tomaram parte nisso, desacreditando-se”.
Contudo, ao desembarcar no aeroporto Afonso Pena, na Grande Curitiba, para visitar Lula, ele era outro. Um homem otimista disposto a recordar que, há 20 anos, quando conheceu o líder petista, ele lhe dissera que ganharia a eleição à presidência, como de fato ganhou (três vezes). Então, à porta da cela, despedindo-se após uma hora de conversa, consolou Lula: “Vamos continuar na luta, não desista que as coisas acontecem”. E, de fato, aconteceram.
A democracia na encruzilhada

Antes de Chomsky, fora a vez de Boaventura de Sousa Santos, hoje com 85 anos, cumprir o beija-mão na cadeia de luxo da Superintendência da Polícia Federal. O intelectual português (de esquerda, por óbvio) não só visitara Lula como também fizera uma palestra em uma das “mecas acadêmicas” do lulopetismo: a Universidade Federal do Paraná.
O programa anunciava o tema Direitos Humanos, mas Sousa Santos livrou-se dele rapidamente, alegando falha na comunicação (ele fala português). Tratou de discursar sobre o que lhe interessava: a democracia e o direito na encruzilhada.
Sousa Santos é um socialista que resolveu adaptar-se ao mundo em que vivemos, capitalista por excelência. Diz que a democracia é um encadeamento dedutivo, uma doença do capitalismo.
Para Sousa, o que importa é ligar uma luz de teste nos governos e descobrir se eles são democraticamente de baixa, média ou alta intensidade. “A América Latina de 20 em 20 anos esquece o que acontece nos últimos 20 anos”, afirma, apropriando-se de um aforismo de Ivan Lessa, sem o devido crédito.
Sousa faz o seguinte diagnóstico: cá abaixo da linha do Equador, o governo do povo está sendo sequestrado pelo capitalismo vil, e não por aquele que levou Estados Unidos e Europa a nadar de braçada na economia. Repare: quando um intelectual diz que o contrário de capitalismo não é socialismo, mas democracia, um dos dois está doente (o intelectual ou o socialismo). No caso de Sousa Santos, ambos.
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Em 2023, Sousa Santos, foi acusado de assédio sexual e moral por ex-alunas e pesquisadoras do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra. As denúncias, que incluem relatos de abuso de poder e “extrativismo intelectual”, levaram ao seu afastamento da universidade e a um processo judicial que segue em andamento.
Eu sei, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. No nosso tempo, contudo, elas se misturam. O que fazer?

Marcus Gomes é jornalista e advogado. Escreve sobre política, direito, condomínios e assuntos do dia a dia. Sugestões de conteúdo para redacao@bonijuris.com.br
