Assessoria – O Brasil poderá realizar a primeira investigação científica dedicada à arqueologia da pirataria no Atlântico Sul. Organizada pelo Instituto Histórico e Geográfico do Paraná (IHGPR), a Expedição Arqueológica Ilha da Trindade pretende estudar evidências históricas da presença de navegadores e piratas na remota Ilha da Trindade, localizada a mais de mil quilômetros da costa brasileira.
O projeto nasce de mais de duas décadas de pesquisa histórica conduzida pelo pesquisador e economista Marcos Juliano Ofenbock, diretor financeiro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, que identificou documentos inéditos relacionados à trajetória de um personagem histórico conhecido como Pirata Zulmiro, cuja história teria ligação com a ilha no século 19.
As investigações documentais resultaram na publicação de livros e na identificação de novos registros históricos, incluindo documentos pessoais, correspondências e referências em arquivos históricos brasileiros e estrangeiros.
Segundo as pesquisas, o personagem histórico conhecido como Pirata Zulmiro teria passado seus últimos anos de vida em Curitiba, no século 19. O reconhecimento dessa história levou à criação de um marco histórico na cidade: uma Blue Plaque (Placa Azul) instalada em homenagem ao personagem na praça do Pirata Zulmiro inaugurada pela prefeitura de Curitiba.

A placa foi doada pela Sociedade Britânica do Paraná, seguindo a tradição britânica das chamadas Blue Plaques, criadas em Londres no século 19 para marcar locais associados a figuras históricas relevantes. O reconhecimento simbólico estabelece uma conexão histórica entre Curitiba e a trajetória desse personagem ligado à história marítima do Atlântico.
“Ao longo de mais de vinte anos de pesquisa historiográfica, conseguimos reunir e analisar um conjunto significativo de documentos históricos que apontam para uma narrativa consistente sobre atividades marítimas clandestinas na Ilha da Trindade. A arqueologia surge agora como o caminho natural para investigar se existem evidências materiais que confirmem essa história”, explica o pesquisador Ofenbock.
Esses estudos também apontaram indícios materiais associados a expedições realizadas
na Ilha da Trindade no final do século XIX, incluindo fragmentos de porcelana chinesa
encontrados em escavações inglesas, sugerindo a presença de cultura material
relacionada a navegadores da época.
A expedição pretende aplicar métodos modernos de arqueologia histórica e arqueologia marítima, incluindo prospecção geofísica, levantamento topográfico e sondagens arqueológicas controladas, com o objetivo de identificar vestígios de ocupação humana histórica na ilha.
Segundo os pesquisadores envolvidos, mesmo que nenhum tesouro histórico seja localizado, a investigação tem grande valor científico. A pesquisa poderá contribuir para a compreensão da história marítima do Atlântico Sul, das rotas de navegação do período colonial e das atividades clandestinas que ocorreram na região.
“Este projeto busca investigar, com metodologia científica rigorosa, uma narrativa histórica pouco explorada sobre a presença de navegadores e piratas no Atlântico Sul”, explica o arqueólogo Prof. Dr. Fábio Parenti, diretor de pesquisa do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná e coordenador científico da expedição.
Audiência no Senado

A relevância científica e histórica da pesquisa será tema de audiência pública no Senado Federal, marcada para o dia 18 de março, às 10h na Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação e Informática (CCT), o evento será transmitido ao vivo pela TV Senado.
O debate reunirá pesquisadores e especialistas para discutir o potencial científico da expedição e sua contribuição para o avanço dos estudos sobre arqueologia histórica e história marítima no Atlântico Sul.
O projeto reúne uma equipe interdisciplinar formada por pesquisadores de diversas instituições acadêmicas, incluindo especialistas em arqueologia, história, geologia, cartografia e biologia.
Entre as instituições que manifestaram apoio ao projeto estão:
- Instituto Histórico e Geográfico do Paraná (IHGPR)
- Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas da Universidade Federal do Paraná
(UFPR) - Museu de Arqueologia e Etnologia da UFPR
- Museu Paranaense
- Instituto de Pesquisa Arqueológica e Etnográfica Adam Orssich (IPAE)
A expedição também conta com as autorizações arqueológicas emitidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e pelo Centro Nacional de Arqueologia, além de licenciamento ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
