Por Marilia Mesquita – Hoje não vou falar sobre esportes ou destinos incríveis; vou falar sobre a vida.
O chamado Mês da Mulher chega com um peso inevitável. Enquanto o comércio se apressa em oferecer flores e descontos em cosméticos, nós, mulheres, olhamos para os jornais e sentimos um calafrio que nenhuma homenagem consegue apagar. O “Dia Internacional da Mulher” não pode ser apenas uma data de celebração enquanto o Brasil ainda enterra suas filhas por crimes de ódio.
Escrevo este texto com um aperto no peito que, infelizmente, não é estranho a nenhuma de nós. Ser mulher nunca foi uma tarefa simples, mas nos últimos, a sensação é de que estamos em guerra — uma guerra não declarada, cujas baixas são contabilizadas diariamente nos necrotérios.
Não são apenas histórias; são dados que gritam. Segundo o último balanço do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou um aumento alarmante nos casos de violência de gênero. Só no último ano, os números de estupro cresceram 8%, e a violência doméstica atingiu um patamar onde uma mulher é agredida a cada dois minutos.
Para entender essa tragédia, precisamos dar nome aos bois. A Lei Maria da Penha identifica cinco formas de nos ferir, e muitas vezes elas acontecem ao mesmo tempo: a física (agressões ao corpo); a psicológica (humilhação e controle); a sexual (relação não desejada ou forçada); a patrimonial (destruição de bens ou controle do dinheiro); e a moral (calúnia e difamação).
Mas os números não capturam o terror de casos que nos tiraram o sono este ano. Como ignorar o choque do estupro coletivo que paralisou a opinião pública? Ou a vulnerabilidade extrema exposta no caso da idosa estuprada dentro de um ônibus, um espaço que deveria ser de direito e segurança? Até o sagrado foi violado com a morte de uma freira, assassinada em um crime que demonstra que o feminicídio não escolhe classe, idade ou religião; ele escolhe o gênero.
Quando olhamos para o cenário atual, a pergunta que fica é: por que o feminismo muitas vezes enfrenta mais resistência e ataques do que a estrutura que nos mata? Como mulher, vejo alguns motivos para essa inversão de valores:
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O desafio ao privilégio e ao controle: O feminicídio é a ferramenta última de controle de um sistema arcaico. Ele elimina o “problema” (a mulher que desafia, que termina, que existe de forma independente). Já o feminismo busca implodir a própria estrutura desse controle.
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A exigência de mudança imediata: O feminismo assusta porque aponta o dedo para o silêncio dos homens diante de uma agressão, para a mania de minimizar o relato de uma vítima e para a “cultura do vestuário” que objetifica corpos femininos.
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A desinformação e a estigmatização: Existe um esforço consciente em pintar o movimento como algo “radical” ou “destruidor de famílias”. É mais fácil atacar o feminismo do que encarar os dados: no Brasil, o perigo real não está nas passeatas, mas dentro de casa.
Enquanto o feminicídio é visto por muitos como uma “tragédia isolada” ou um “crime passional”, o feminismo é tratado como uma ameaça sistêmica aos valores tradicionais. É a inversão da lógica: teme-se mais a voz de quem denuncia do que a mão de quem ataca. O feminicídio assusta quando vira manchete; o feminismo incomoda porque não nos deixa esquecer.
O “canteiro de obras” da violência
O erro da nossa sociedade é achar que o feminicídio nasce do nada. Ele começa nas “pequenas” coisas que muitos homens insistem em classificar como “brincadeira”: na foto tirada sem autorização na academia ou na rua, expondo o corpo daquela mulher em grupos de mensagens; na piada misógina no churrasco de domingo; ou na “cantada” agressiva e no toque indesejado que transformam nosso lazer em vigilância constante.
Esses comportamentos são a base da pirâmide. Quando validamos o desrespeito cotidiano, pavimentamos o caminho para a agressão em seus níveis mais letais.
O que mais me fere, enquanto mulher e cidadã, é o silêncio ensurdecedor dos “homens de bem” — que são também nossos pais, irmãos, tios, amigos e parceiros. Onde eles estão quando um colega minimiza um caso de violência? A mania de relativizar — “o que ela fez para ele chegar a esse ponto?” ou “ela também provocou” — é o que alimenta a misoginia.
Culpar a mulher pela própria morte, pelo comprimento da saia ou pelo horário em que estava na rua é uma tática para nos manter caladas. O silêncio masculino diante da misoginia é, na prática, uma forma de cumplicidade.
Se você ou alguém que você conhece está sofrendo violência, ligue 180. A Central de Atendimento à Mulher funciona 24 horas e é gratuita. Meu e-mail também está aberto para quem precisar de apoio e acolhimento. Você não está sozinha!
Pautas e contato: esporteedestino@gmail.com

*Marília Mesquita é jornalista e assessora de imprensa. Entende que a combinação de esporte e viagens oferece uma mundo de oportunidades para experiêncas únicas, nos conectando com a natureza, enquanto exploramos diversas culturas.
