quinta-feira, 26 fevereiro, 2026
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Esporte & Destino: O Dilema de Milão-Cortina 2026

Por Marilia Mesquita – As luzes se apagaram na Arena de Verona marcando o encerramento dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026. Enquanto celebramos o brilho de atletas, um convidado indesejado pairou sobre as montanhas italianas durante estas duas semanas: a temperatura atípica. Esta edição dos Jogos não foi apenas uma exibição de destreza física, mas um espelho nítido de um planeta em cconstante mudança.

O termômetro não mente

De acordo com a Climate Central, desde que Cortina d’Ampezzo sediou os Jogos pela primeira vez, em 1956, a temperatura média de fevereiro na região subiu cerca de 3,2°C. O que antes era um inverno de gelo garantido tornou-se uma batalha logística contra o degelo. Nesta edição, a organização precisou recorrer massivamente à produção de neve artificial.

O Clima Info afirma que, por conta do aquecimento global, foram necessários cerca de 2,5 milhões de metros cúbicos de neve falsa, produzidos com 946 milhões de litros de água, para que a competição fosse viável. Esse é mais um alerta da crise climática que já encurta temporadas e cancela provas, afetando o desempenho dos atletas. Estudos indicam que menos da metade das montanhas que sediam as Olimpíadas terão condições climáticas adequadas até 2050.

O impacto do aquecimento global nos esportes de inverno é uma realidade mensurável:

  • Menos dias de gelo: Cortina hoje tem cerca de 40 dias a menos de temperaturas abaixo de zero por ano em comparação a 70 anos atrás.

  • Incerteza geográfica: Estudos indicam que, se as emissões continuarem no ritmo atual, apenas dez países no mundo terão condições climáticas para sediar os Jogos de Inverno até 2040.

  • Risco aos atletas: A neve artificial, embora eficiente, é mais densa e rápida que a natural, o que altera a dinâmica das competições e aumenta o risco de lesões em quedas.

Sustentabilidade

Milão-Cortina 2026 tentou reescrever o manual de como organizar um megaevento sob crise climática. Com o uso de 85% de infraestruturas já existentes ou temporárias, os Jogos evitaram a pegada de carbono massiva de novas construções. O modelo multi-cidades foi concebido pelos organizadores e aprovado pelo Comité Olímpico Internacional para maximizar a utilização das instalações existentes, orientando simultaneamente o investimento em infraestruturas para onde era mais necessário, com uma forte ênfase na funcionalidade pós-Jogos.

O COI afirmou que a estratégia foca na modernização das infraestruturas existentes e na garantia de que os novos desenvolvimentos servem as necessidades da comunidade e do turismo a longo prazo, em vez de criar locais olímpicos autónomos com uma utilização futura limitada.

No entanto, o esforço para manter a neve sob o sol de fevereiro é um lembrete de que a tecnologia é apenas um paliativo. O verdadeiro “ouro” desta Olimpíada não está nas medalhas, mas na mensagem de urgência que ela deixa.

Quando a neve desaparece, não perdemos apenas recordes; perdemos ecossistemas inteiros.

O próximo passo

A beleza dos Alpes que vimos na TV esconde a fragilidade de geleiras que podem desaparecer até o fim do século. Cuidar do planeta não é mais um debate político ou uma escolha ética; para quem ama o esporte, é uma questão de continuidade. Se quisermos que as futuras gerações sintam o frio cortante de uma descida em bobsleigh ou a elegância da patinação artística, a meta agora é outra: manter a temperatura global dentro dos limites do Acordo de Paris.

Esta edição dos Jogos Olímpicos de Inverno acabou, mas a corrida contra o relógio climático continua. E, nesta prova, ou todos ganham, ou ninguém chega à linha de chegada.

Pautas e contato: esporteedestino@gmail.com

*Marília Mesquita é jornalista e assessora de imprensa. Entende que a combinação de esporte e viagens oferece uma mundo de oportunidades para experiêncas únicas, nos conectando com a natureza, enquanto exploramos diversas culturas.

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